Empresas portuguesas conquistam Colômbia com artigos inovadores

Colômbia quer aproveitar as oportunidades do muro entre o México e os EUA para crescer. E os têxteis portugueses podem sair a ganhar

Com Donald Trump, o novo presidente dos EUA, a cerrar fileiras contra o México, a indústria têxtil e de vestuário colombiana está apostada em tirar partido das oportunidades que daí possam surgir, mas também em diversificar os seus mercados, designadamente aumentando a presença na Europa. A vontade de apresentar produtos diferenciados e de evoluir na cadeia de valor constituem uma oportunidade crescente para os fabricantes portugueses.

“Portugal avançou muito nos têxteis técnicos e especializados e estes têm na Colômbia uma oportunidade enorme”, considera Clara Henríquez, a diretora de plataformas comerciais da Inexmoda, o instituto para a exportação e a moda responsável pela organização da Colombiatex. Esta é a principal feira têxtil na América Latina e terminou em Medellín, na quinta-feira. Catarina Hernández, da ProColombia, a entidade estatal para a promoção de turismo, investimento e exportações, destaca a apetência por artigos “inovadores e competitivos”, em especial em nichos como o do desporto ou da roupa de banho.

Durante os três dias do evento passaram pela Plaza Mayor quase 15 mil visitantes, 14% dos quais compradores internacionais de 43 países. E as expectativas de negócios gerados na feira estão calculadas em 326 milhões de dólares (304 milhões de euros).

Muito satisfeito com os resultados desta 29.ª edição da Colombiatex está Francisco Menezes, diretor-geral da Ribera. A empresa de rendas e bordados de Matosinhos conseguiu novos clientes na Colômbia e estabeleceu contactos com um possível representante na Costa Rica. Presente no país desde 2013, através de uma parceria com a Fahilos, empresa local de fitas de cetim e organza, a Ribera obtém aí 25% das suas vendas, na ordem de um milhão de euros. O objetivo é chegar aos 50% em cinco anos.

“A indústria têxtil colombiana está a sofrer a transformação que a portuguesa teve há 20 anos, procurando produtos de maior qualidade para que se possa diferenciar. E nós, felizmente, estamos bem posicionados para acompanhar essa mudança porque eles adoram os artigos europeus”, garante. Em Portugal, a Ribera tem a Inditex como seu principal cliente.

Também Alfredo Araújo, chairman da Lemar, sai de Medellín com as expectativas “mais do que superadas”. Tudo indica que conseguiu o agente que procurava no país, além de uma série de potenciais novos clientes. A colombiana Onda de Mar é já cliente dos tecidos da Lemar, que fornece a linha de banho e praia de algumas das principais marcas de luxo no mundo, como a Boss, a Hermés ou a Louis Vuitton. A qualidade e a inovação dos artigos portugueses são a arma, acredita, para vingar no mercado. A empresa tem apostado no uso de fios com performances técnicas, designadamente antibateriana ou antitranspiração.

À procura de alargar a sua base de clientes na Colômbia esteve também a Natcal, que vende máquinas e equipamentos para a indústria têxtil. Colômbia, Peru, Equador, Paquistão e Egito são alguns dos seus principais mercados. Desde 2004 que a Natcal aposta em máquinas de empresas falidas, que recupera e revende. Um segmento que hoje assegura, praticamente, 90% das suas vendas, diz o CEO da empresa, Carlos Couto.

E o mercado nacional tem vindo a ganhar peso. “A indústria têxtil portuguesa está em franca recuperação e procura reapetrechar-se.” Em novembro, destacou os seus técnicos para a Nicarágua para aí instalarem um secador especial para malhas. Em fevereiro irá montar, no Cairo, uma unidade completa de tinturaria, equipamentos e estamparia.

Fernando Marinho Pereira esteve na Colombiatex a representar a Porini, grupo italiano especializado em software para a indústria têxtil, de vestuário e de calçado, designadamente de soluções para a área de desenvolvimento de produto ou de monitorização e controlo da produção. Sobre as oportunidades no mercado para a indústria portuguesa é claro: “Este é um mercado que compra muito na Ásia, por isso há potencial para entrarmos com produtos diferenciados. Mas não é chegar, ver e vencer, é preciso persistência e regularidade, para criar relações de confiança. Somos europeus, e isso é uma enorme vantagem.”

ENTREVISTA:

Carlos Botero “Valorizamos muito a produção portuguesa”

Apesar de a Colômbia ser um país com tradição têxtil, não faltam aí oportunidades para as empresas portuguesas. Até porque, garante o presidente executivo da Inexmoda, as empresas colombianas apreciam muito a qualidade dos produtos made in Portugal.

Pediu medidas para chegar mais facilmente aos EUA e à Europa. Que medidas são essas?

Com a desvalorização do peso, hoje há muito boas oportunidades para a indústria colombiana exportar os seus produtos. Mas sentimos na Inexmoda que é preciso trabalhar numa série de regulamentações que existem na Colômbia e que podem facilmente impedir a agilidade exportadora do país, embora isso não seja tudo. A verdade é que precisamos de aproveitar os tratados de livre-comércio que temos com o México, os Estados Unidos, o Canadá e com a Europa para abrir mais mercados.

O acordo com a Europa já está em vigor desde 2013. Que balanço faz?

Muito, muito lento. Creio que a Europa não representa ainda sequer 2% do total que exporta a fileira têxtil e de confeções colombiana.

O que falta?

Não sei, pode ser que estejamos muito longe... Quando falamos da Europa é preciso entender que falamos de 27 culturas de 27 idiomas. Não se trata de exportar diretamente para a Europa como tal, é preciso entender o que significa cada um dos países que compõem a zona aduaneira europeia. Penso que são essas as dificuldades que estão a fazer que as nossas exportações para a Europa permaneçam tímidas. E há que não esquecer que o mercado interno colombiano continua a ser muito importante.

Que oportunidades há para Portugal na Colômbia sendo este um país com grande tradição têxtil?

Há, sobretudo, oportunidades ao nível das matérias-primas, porque valorizamos muito a produção que há em Portugal. Por outro lado, Portugal pode ser também um mercado muito interessante para que as empresas colombianas possam chegar a essa miragem que é a Europa.

* A jornalista viajou a convite da Inexmoda

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