8.º Aniversário DV

Empresas recuperaram valor mas ainda falta investir

(Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens)
(Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens)

Nos últimos oito anos os negócios retomaram criação de valor, mas ainda dependem de salários e juros baixos. Investimento permanece abaixo de 2009.

O retrato não é mau e as empresas nacionais até saem a ganhar frente a congéneres europeias quando se retira da equação o endividamento e se faz contas apenas ao valor gerado frente aos custos regulares das operações. Uma década após a crise financeira mundial, os negócios portugueses já recuperaram na criação de valor e emprego. Mas a competitividade está ainda segura pelos baixos salários e por uma política de juros baixos que continua a estender-se no horizonte europeu. A capitalização é fraca e o investimento ainda não fez o retorno à casa de partida.

As conclusões são da Iberinform, especialista na gestão de risco dos negócios, numa análise aos indicadores empresariais portugueses da última década. O estudo, encomendado pelo Dinheiro Vivo, põe à frente de todos os dados de investimento. A comparar com 2009, e a preços correntes, as empresas portuguesas terminaram 2018 a investir ainda menos 0,5%. E traz um apelo: “Temos de investir mais e com capitais próprios”, diz Paulo Deus, autor da análise.

“Em termos agregados, as empresas conseguiram recuperar bastante na área do volume de negócios, do valor acrescentado, mas no investimento ainda não foi o suficiente”, defende.

Os dados da Iberinform apontam uma recuperação significativa no volume de negócios nos últimos dois anos (com uma melhoria de 6,4% no último ano), após as quebras acentuadas do período de ajustamento da troika. O valor gerado pelas empresas retomou as subidas nos últimos cinco anos – com mais 5,6% em 2018. E hoje a produtividade aparece “até com indicadores mais favoráveis do que Espanha e França”, reduzindo-se o risco económico da atividade.

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Mas, em grande medida, isso acontece porque os custos unitários do trabalho são também muito baixos em termos relativos. Em 2017, estavam em 17 965 euros, comparando com os 34 810 euros em Espanha e os 49 819 euros em França. Já em 2018, subiram a 18 302 euros, para finalmente superarem os 18 064 euros do início da década.

Se os salários baixos têm contido o risco das operações das empresas portuguesas, já a política do Banco Central Europeu – reconfirmada este verão frente aos receios de uma nova crise – tem servido para limitar os riscos financeiros.

Depois de ter atingido o pico em 2012, o risco de realizar resultados negativos devido a custos de financiamento está agora mais próximo dos níveis de Espanha. Mas o nível de endividamento permanece alto, pondo em causa a situação dos negócios portugueses num cenário de retorno a juros altos ou de nova crise.

“Em termos de confronto geral entre rendibilidade e risco, Portugal ainda está razoável, mas corre muitos riscos de tudo mudar se houver uma grande crise. Se houver uma grande crise não aguentamos. Temos graves problemas de financiamento.”

O atual contexto económico internacional, entretanto, contribui para conter planos de investimento. A análise da Iberinform admite mesmo uma “desaceleração significativa em 2019 e 2020, resultante das ameaças que se foram acentuando tanto em termos de procura interna como em termos de procura externa”.

Ainda assim, Paulo Deus considera que é preciso criar um “círculo virtuoso” com o investimento que seja possível aplicar – nomeadamente, apoiado pelos fundos europeus do quadro comunitário da próxima década e com um esforço de capitalização que tradicionalmente não se verifica.

Para o economista, será possível investir mesmo num cenário de recuo das vendas ao exterior ou no consumo interno. “Não temos de investir em capacidade de produção, em quantidade, temos de investir em qualidade. Temos de mudar as estruturas produtivas. Se os empresários tiverem noção do que é importante – nomeadamente, face às restrições que existem na procura -, podemos ter restrição da procura mas aumentar quota de mercado.”

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