Engenheiros e ex-presidente do LNEC dão cartão vermelho a "remendo" Montijo

Bastonário dos Engenheiros e antigo presidente do LNEC defendem Alcochete como solução duradoura para novo aeroporto. Custo não chegaria a 2 mil milhões de euros, garante Carlos Matias Ramos.

O atual bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, e o seu antecessor, Carlos Matias Ramos, consideram que a Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) que o governo pretende que seja feita no quadro da expansão da capacidade aeroportuária de Lisboa, chega tarde. Críticos da opção Montijo, que a Ordem classifica de uma espécie de "remendo", não têm dúvidas que uma solução mais duradoura seria localizada no Campo de Tiro de Alcochete. O ex-líder do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) contesta valores mencionados para a construção de um aeroporto internacional, considerado que a opção Alcochete não chegaria a dois mil milhões de euros.

O regulador da aviação civil, a ANAC, colocou há dias um travão na transformação da base aérea do Montijo em aeroporto complementar. O governo vai assim avançar com a AAE a três soluções de infraestruturas: a que estava prevista - Portela e Montijo como aeroporto complementar -; a Portela conjugada com o Montijo mas com a infraestrutura na Margem Sul a ganhar "progressivamente" o estatuto de principal; e um aeroporto internacional no Campo de Tiro Alcochete (CTA).

O bastonário da Ordem dos Engenheiros diz ao Dinheiro Vivo que "uma vez que estamos a falar de um investimento de interesse e âmbito nacional", avançar com a AAE é uma "decisão que peca por tardia, uma vez que todo o processo devia ter começado por aí, o que não foi feito por quem o decidiu em 2015". Carlos Mineiro Aires nota, nomeadamente, que a "polémica" em torno do aeroporto se deve à "inesperada opção de ser utilizada a BA6 do Montijo como solução complementar ao aeroporto da Portela, em detrimento da solução prevista inicialmente". Em 2009, durante o governo Sócrates, a solução aprovada era um novo aeroporto internacional em Alcochete, tendo mesmo sido alvo de uma Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), que validou a opção, mas cuja validade "caducou em dezembro passado, o que obrigará a retomar todo o processo".

"É bom recordar que a utilização da BA6 nunca esteve prevista aquando da concessão dos aeroportos nacionais à Vinci, pois o que estava contemplado era o NAL, tendo o contrato, alterado três anos depois, em 2015, passado a contemplar esta possibilidade, mais barata, situação que o atual governo herdou e que tem de gerir", acrescenta.

Carlos Matias Ramos, antigo presidente do LNEC e ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, partilha da mesma ideia. E defende que a construção de uma infraestrutura de raiz em Alcochete "é uma solução muita mais favorável que o Montijo", que considera ser "uma solução de remendo sem qualquer futuro". Tendo liderado os trabalhos para estudo de AAE para a construção de um aeroporto em Alcochete, e que caducou, Matias Ramos defende que esta opção foi "avaliada tendo sete fatores críticos para a decisão", desde o espaço aéreo, passando pelos aspetos técnicos, financeiros e ambientais.

Questionado sobre os riscos que as três opções que a AAE vai analisar, determinada atualmente pelo governo, o atual bastonário prefere falar de duas soluções: Portela+1 e Alcochete. "Em relação à solução Portela+1, também é mais que sabido que a BA6 tem uma localização complicada para qualquer uso comercial com muito maior frequência de tráfego, não tem possibilidades de expansão e oferece sérios riscos de operação, nomeadamente pela possibilidade de embate contra aves de porte significativo, o que se agrava no caso de motores a reação", diz Mineiro Aires, acrescentando que o Montijo "trata-se evidentemente de um remendo, sem perenidade e que não serve ninguém".

Por isso, defende que a única solução que resultou da "única análise séria e fundamentada" foi a que levou à localização do novo aeroporto em Alcochete "cujo processo de AIA foi aprovado sem grandes contrapartidas de mitigação. Acresce que o processo de escolha deste local e o próprio AIA foram credíveis, transparentes e isentos, o que depois já não sucedeu".

Custos financeiros
O bastonário da Ordem dos Engenheiros sustenta que "o que é mais barato, nem sempre é o que convém, ou interessa" ao país. "É preciso perceber que a solução do Montijo é uma "não solução", com um prazo de vida relativamente curto, sem capacidade de expansão, mas que alguém vai ter de pagar, sejam os utilizadores, através de uma das mais altas taxas aeroportuárias da Europa, ou os contribuintes, através dos seus impostos, mas que em termos de futuro nada resolverá, continuando a solução adiada".

E, tal como o ex-presidente do LNEC, levanta dúvidas sobre os valores recentemente apresentados pelo presidente da ANA, José Luís Arnaut. O responsável da gestora dos aeroportos apontou que um aeroporto em Alcochete custa mais seis mil milhões de euros aos contribuintes" comparativamente com o projeto do Montijo. Defendeu que o investimento total seria de 7,6 mil milhões, dos quais cinco mil milhões teriam de ser injeção pública.

O ex-líder do LNEC cita os números obtidos no passado no âmbito da avaliação feita à solução Alcochete, para assinalar que os custos seriam na casa de 1,9 mil milhões de euros. Quanto aos prazos de execução, Matias Ramos sustenta que, ao contrário do que estimou o líder da ANA, que apontou a concretização do Montijo em cerca de três anos, a empreitada na base deverá demorar pelo menos quatro anos.

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