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Entretenimento digital: Indústria milionária passa ao lado de Portugal

Festival de recrutamento para entretenimento digital Trojan Horse Was a Unicorn realiza-se pela segunda vez fora de Portugal na edição de 2019. (Foto: THU)
Festival de recrutamento para entretenimento digital Trojan Horse Was a Unicorn realiza-se pela segunda vez fora de Portugal na edição de 2019. (Foto: THU)

Há portugueses por detrás dos maiores sucessos de bilheteira de sempre no cinema só que tiveram de emigrar para aprender e construir carreira.

Apple, Netflix, CBS e Disney vão investir um total de 60 mil milhões de dólares (54,306 mil milhões de euros) em conteúdos nos próximos anos. Só que Portugal não vai receber qualquer cêntimo porque não há indústria de entretenimento digital – de produção de filmes, séries e jogos – e os únicos portugueses a trabalhar nesta área tiveram de ir para o estrangeiro aprender por sua conta e risco. Este é o retrato das pessoas que contribuem para alguns dos maiores sucessos de bilheteira de sempre e que geralmente só vemos na ficha técnica.

Duarte Victorino ajudou Avengers: Endgame a tornar-se no filme mais rentável de sempre em bilheteira: 2,796 mil milhões de dólares (2,529 mil milhões de euros). É especialista em efeitos visuais e digitais na DNEG. “Sou responsável por simular todo o tipo de elementos reais ou mágicos, que não podem ser criados na realidade, como destruições e simulações de fluidos – explosões, fumo e fogo”, descreve ao Dinheiro Vivo a partir do Canadá. Duarte tirou Design Industrial no IADE mas teve de tirar no estrangeiro um curso especializado em efeitos visuais para construir uma carreira.

João Moura é artista de visual development para filmes e séries de animação. Trabalha na McGuff, em Paris, e já ajudou a produzir filmes. “Faço parte da equipa de pessoas que desenham os elementos visuais do filme ou série (como personagens, cenários, adereços e até mesmo desenvolvimento de cor).” Com um mestrado em arquitetura, João só ganhou tração depois de ter passado pelo festival de recrutamento Trojan Horse Was a Unicorn (THU), que tornou-se numa referência nesta área e que começa na segunda-feira em La Valetta, Malta.

Estes portugueses, como todos os outros neste ramo, tiveram de ir para o estrangeiro aprender e construir tudo. O problema, em Portugal, começa logo nas escolas. “Existe um grande desconhecimento sobre o que se faz nesta área. Os próprios estudantes nem pesquisam por isto. Os vícios começam no secundário, porque os professores recusam-se a mostrar caminhos para lá da pintura e da escultura mais tradicionais. Temos de começar a explicar o que é esta indústria”, sustenta André Lourenço, fundador do THU.

André Lourenço é o fundador do Trojan Horse Was a Unicorn. (DR)

André Lourenço é o fundador do Trojan Horse Was a Unicorn. (DR)

O entretenimento digital não passa só pelos filmes e séries, também inclui videojogos. É nesta componente que João Silva tem trabalhado nos últimos anos, como freelancer. “Sou um artista conceptual, sobretudo na parte de pré-produção. Estou na direção de arte dos filmes ou jogos, como por exemplo, o design inicial de moods, ambientes e personagens.”

Mariana Galiano é ilustradora e vai ao THU – que começa segunda-feira em Malta – para encontrar o primeiro emprego nesta área. Por se ter tornado autodidata, ganhou uma bolsa de estudo para a escola italiana IDEA, em Roma, e começou a fazer alguns trabalhos como freelancer.

“Sempre desenhei, mas só tive a noção do que era a arte digital quando me juntei a uma comunidade online há alguns anos, por causa de um amigo. Depois da escola, ficávamos a aprender tudo. Quando o THU apareceu, tudo começou a fazer sentido. Aprendi quase tudo o que sei graças ao evento e à Internet.”

Catarina Loja nunca viveu fora de Portugal e apenas conheceu o mundo 3D há um ano. “Há cada vez mais pessoas interessadas, e a verdade é que, por força de eventos como o THU, os artistas portugueses têm lentamente começado a quebrar esta ideia de que os trabalhos na indústria são intangíveis.”

Como pôr Portugal no mapa?

André Lourenço entende que a produção audiovisual pode adaptar-se a esta realidade e também apostar em filmes com mais efeitos especiais. “A única expressão que o cinema português tem no estrangeiro são os prémios nos festivais. Mas o que isso traz para a economia portuguesa? Quem está nesta indústria não pensa em prémios. Pensa em vendas, visualizações, compras de produtos.”

O fundador do THU dá mesmo um exemplo. “O Fast & Furious não é qualquer obra-prima mas tem efeitos especiais incríveis. Se aquilo fosse feito por uma produtora portuguesa, teríamos 300 milhões de euros na economia nacional.”

João Moura entende que “Portugal precisa de começar a reconhecer os talentos e as condições que tem para oferecer” e lembra que, “em Espanha, já existem estúdios a fazer competição com os grandes estúdios americanos.

Duarte Victorino assinala que o Estado tem um papel muito importante nesta área. “Vancouver, Montreal e Adelaide são exemplos de como uma cidade pode trazer tanto investimento numa só indústria.

Este especialista considera “essencial um investimento na Educação de forma que as grandes empresas, desta industria, possam garantir mão-de-obra suficiente antes de se estabelecerem numa cidade. Se analisarmos, todos os grandes hubs mundiais de Visual Effects ou jogos têm excelentes escolas privadas ou cursos universitários e começaram por fazer trabalhos de menor complexidade como anúncios publicitários ou séries de televisão”.

Mariana Galiano corrobora a posição de Duarte Victorino e lembra que “Portugal precisa de uma melhor educação na área das artes e das tecnologias”.

João Silva defende a “captação de estúdios internacionais para criarem sucursais em Portugal”, de forma a “motivar e dar a conhecer aos portugueses mais jovens as diferentes opções de trabalho nesta indústria”.

Que outros portugueses estão nesta área?

Lourenço Abreu lidera o departamento de criação de ambientes em filmes na MPC; ao longo da carreira, já esteve em projetos como Piratas da Caraíbas, Wonder Woman e o mais recente Jumanji.

Ricardo Alves ajuda a criar as caras (facial modeller) na Weta Digital e conta com cerca de uma dezena de filmes no currículo, como o remake de O Rei Leão, os episódios VII e VIII de Star Wars e 007: Spectre; e ainda o jogo Hitman.

Fonzo Romano faz animação na Industrial Light & Magic e também contribuiu para o sucesso de Os Vingadores: Endgame, O Rei Leão e O Livro da Selva.

Afonso Salcedo é produtor criativo sénior e realizador na CG Lighting Artist. Tem mais de 20 anos de carreira na produção de filmes, fotografia, supervisão de pós-produção, liderança criativa e cargos de responsabilidade em gigante como a Disney, Pixar e DreamWorks.

Made in Portugal: Jogos e figuras para colecionar

José Alves da Silva e Pedro Potier são duas figuras de referência que trabalham nesta área a partir de Portugal. José é o escultor principal da QMX e desenha figuras para colecionar de personagens como o Homem-Aranha, Batman e Mulher-Maravilha. Tudo certificado pela DC Comics, a editora onde nasceram estas personagens e que licenciou os direitos de comercialização para a QMX.

Pedro é o diretor de arte do estúdio britânico de jogos Marmalade em Lisboa. A Marmalade já criou jogos para smartphones como Cluedo, Call of Duty, Risco, Scrabble, Monopólio Dash e Battleship. Já recebeu uma nomeação para os prémios BAFTA, que distingue os melhores trabalhos na área
de jogos eletrónicos.

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