Espanha admite acabar com comboios noturnos e complica regresso do Lusitânia e Sud Expresso

Secretária-geral dos Transportes e Mobilidade de Espanha alega que a rede de alta velocidade local é tão competitiva que põe em causa a valia dos comboios noturnos como uma forma adequada de viajar. Governo português diz que a CP está a estudar "possíveis modelos de operação" em articulação com Espanha.

Está cada vez mais difícil o regresso dos comboios noturnos entre Portugal e Espanha. Uma representante do ministério espanhol dos Transportes admitiu na quarta-feira que o país vizinho poderá deixar de ter comboios noturnos mesmo depois do fim da pandemia do coronavírus. Uma decisão desta magnitude terá impacto direto nos comboios Lusitânia (para Madrid) e Sud Express (para Hendaye, em França).

A culpa é da qualidade da rede de alta velocidade espanhola, segundo as declarações citadas pela agência Europa Press. "Se entre Madrid e Barcelona ou Sevilha o trajeto é de duas horas e meia, não é razoável pensar que os comboios noturnos possam ser competitivos ou atrativos para os utentes", referiu a secretária-geral dos Transportes e Mobilidade, María José Rallo, durante uma comissão da câmara baixa do Parlamento espanhol.

Do lado português, "o Governo refere que está a estudar, com a CP, possíveis modelos de operação ferroviária internacional com a devida articulação com Espanha". Ao Dinheiro Vivo, fonte oficial do Ministério das Infraestruturas e da Habitação atenta que " que está em causa não é uma proibição dos comboios noturnos em Espanha, mas uma eventual decisão de abandonar a oferta desses serviços por parte da Renfe".

O gabinete liderado por Pedro Nuno Santos lembra ainda que "tem mantido uma cooperação positiva como o governo de Espanha nos assuntos relacionados desenvolvimento da rede ferroviária e continua a fazer esse trabalho de articulação, incluindo sobre os serviços ferroviários".

Nos últimos anos, a Renfe (congénere espanhola da CP) registava prejuízos anuais de 25 milhões de euros com os comboios noturnos. Além das duas rotas operadas em conjunto com a CP, a empresa espanhola tinha quatro rotas domésticas (Barcelona-Corunha; Barcelona-Vigo; Madrid-Vigo; e Madrid-Ferrol).

Algumas das carruagens que a Renfe deixou de utilizar foram incluídas no lote de 50 unidades compradas pela CP em meados de 2020, por 1,6 milhões de euros.

A ideia desta responsável espanhola choca com os anúncios dos governos de França, Alemanha, Áustria e Suíça, que estão a recuperar material circulante para voltarem a operar comboios noturnos a partir do final de 2021, já com a pandemia sob controlo.

No início deste ano, foi apresentado o projeto Trans Europ Express 2.0, que pretende recuperar a rede transeuropeia ferroviária para ligar as principais cidades europeias através de comboios de elevada qualidade para serviços diurnos e noturnos.

Partindo de Lisboa, só para chegar a Madrid, eram necessárias mais de 10 horas de viagem, com o comboio a partir de Lisboa e a seguir pela Linha da Beira Alta a partir de Pampilhosa, entrando em Espanha através de Vilar Formoso. O Lusitânia seguia em conjunto com o Sud Expresso até Medina del Campo. Aí. o Lusitânia rumava à capital espanhola; o Sud Expresso seguia até Hendaye, em França.

Dado o tempo de viagem, estes comboios funcionavam com camas em algumas das carruagens-cama (wagon-lit) e serviço de restaurante. A CP dividia as despesas com a congénere espanhola (Renfe) no Lusitânia mas mesmo assim tinha prejuízos de dois milhões de euros por ano; a CP fazia sozinha o Sud, alugando material a Madrid, e com prejuízos de três milhões de euros.

Um serviço diurno entre Lisboa e Madrid só poderia ser competitivo por causa das ligações intermédias, como por exemplo o troço entre Guarda e Salamanca.

Apenas depois de 2023 será possível ligar as duas capitais ibéricas durante o dia de forma competitiva: nessa altura, ficará pronto o troço de 110 quilómetros entre Évora e Elvas, para velocidades de até 250 km/h. Conjugado com os desenvolvimentos na linha do lado espanhol, será possível viajar entre Lisboa e Madrid em cerca de cinco horas.

A última viagem do Lusitãnia e do Sud Expresso foi em 17 de março, na véspera de Portugal entrar no primeiro confinamento. O serviço não mais voltou nos últimos 12 meses. Em setembro, a CP devolveu mesmo as duas composições alugadas à Talgo para o Sud Expresso. As carruagens ao serviço do comboio para Espanha estão guardadas em Toledo há praticamente um ano.

(Notícia atualizada às 19h09 com declarações do Ministério das Infraestruturas e da Habitação)

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