Eugénio Fernandes: "Apoio que o Estado está a dar à TAP distorce a concorrência e não é justo"

CEO da companhia aérea euroAtlantic, que realiza voos transporte de carga e voos charter, mostra-se preocupado com a falta de apoios à aviação privada. Admite que apoio previsto para a TAP não chegará dada a conjuntura atual.

A euroAtlantic foi fundada em 1993 na Madeira. Tem oito aviões, duas centenas de trabalhadores e opera em nichos de mercado como transporte de carga e voos charter. No início da pandemia fez voos de repatriamento e transporte de equipamentos médicos, o que ajudou a atrasar a chegada da crise à empresa. Mas tal como o resto da aviação enfrenta a quebra da procura e o CEO, Eugénio Fernandes, não esconde que está "preocupado" com a falta de respostas do governo.

- Em 2020 a companhia pediu apoio ao governo para enfrentar a crise. Já tem resposta?
Até ao momento, não tenho qualquer tipo de resposta. Tem havido muitos contactos desde que nos apercebemos que a primeira linha de apoios seria coordenada através da autoridade de aviação civil. Encetamos os contactos, tivemos uma primeira reunião com o ministro das Infraestruturas em outubro e, até à data, continuamos à espera de desenvolvimentos. Agora até estamos a tentar passar outros patamares porque já reparámos que através do ministério das Infraestruturas não vamos ter respostas.

- Outros patamares? Como assim?
Ir ao ministério da Economia. Já fizemos duas insistências. Até ao momento, não tivemos qualquer tipo de resposta, o que nos deixa muito preocupados.

- Em que moldes essa ajuda faria sentido?
Tivemos a oportunidade de, na altura, apresentar um conjunto de medidas. Naturalmente, sem irmos ao que normalmente é mais agradável para as empresas, que é os apoios financeiros a fundo perdido, há uma série de medidas que podem ser implementadas como: a isenção da taxa social única, a isenção dos pagamentos por conta de IRC, a majoração de custos que determinado tipo de empresas têm - no caso da aviação, custos com rendas de aviões e com manutenção.

- Não pretenderiam injeções diretas?
Se houver injeções diretas serão bem-vindas. Mas, como sabemos que as injeções diretas a fundo perdido são difíceis, apresentamos uma panóplia de opções para podermos alcançar as necessidades de apoios que precisamos.

- Quais são as necessidades nesta altura?
No início da pandemia fizemos uma projeção. Acreditávamos que a recuperação não seria nem a um nem a dois, mas sim a três ou quatro anos, e fizemos uma projeção de que necessitaríamos de um apoio entre 40 a 50 milhões de euros com esse tipo de iniciativas - o alargar o prazo para a recuperação dos prejuízos fiscais, o alargar o prazo para todas estas componentes fiscais que o governo tem na sua posse como medidas que pode implementar.

- A euroAtlantic tem créditos sob moratória nesta altura?
Temos crédito sob moratória.

- As moratórias vão terminar em setembro. Como é que antecipa esse momento?
Se as moratórias terminarem antes de haver uma recuperação, diria que é catastrófico para qualquer empresa, não só para a euroAtlantic, porque o problema atual não é uma crise. O problema atual é que não há mercado e, ao não haver mercado, as empresas não têm capacidade de continuar a operar. Tem de haver uma ação concertada das autoridades para que este tipo de moratórias comece a ser extinto à medida que houver recuperação da atividade. Por isso, se tivermos uma recuperação no segundo semestre como já algumas pessoas dizem, e começar a haver atividade, sim aí poderá começar a haver um alívio, não digo total mas parcial.

Vídeo. Crise obrigou a cortar quase metade do pessoal e sem recuperação podem ser mais

- No ano passado, e sem ajudas, a euroAtlantic reduziu o número de trabalhadores de 350 para 200. Essa redução de postos de trabalho já terminou ou poderá continuar?
Essa redução que, realmente para a nossa dimensão é muito grande, foi um processo duro porque falámos com todas as pessoas. A grande maioria da redução foi por não renovação contratual. A redução de efetivos foi por acordo e foi uma margem mínima. Estamos a falar na casa dos 10%, na altura 40 pessoas. Temos um plano de não renovar, e se não houver recuperação, é natural que até abril tenhamos mais alguma redução de mais algumas dezenas de pessoas.

- Há forma de cortar custos para a euroAtlantic sem ser através de despedimentos?
O grande desafio das companhias de aviação é numa situação destas trazermos o nível de custo para o nível das receitas que temos.

- Nesta altura as receitas são praticamente zero. Essa lógica levaria ao fim da empresa?
Depende. As empresas que estavam bem antes da pandemia e tinham caixa conseguem aguentar-se um par de meses, um par de anos. Olhar para uma companhia de aviação - e isto podemos extrapolar para os outros setores - é muito fácil de analisar. Se a companhia de aviação não tiver dinheiro em caixa e tiver muitas dívidas de curto prazo, é uma empresa falida a prazo. E a euroAtlantic em finais de 2019 tinha dinheiro em caixa e tinha poucas dívidas de curto prazo e daí termos de trazer os custos ao nível das receitas, o que é muito difícil. Mas, como temos tido algumas receitas, tanto pelos voos ad hoc que temos feito, bem como pelas operações regulares onde estamos inseridos - como é o caso de São Tomé e Bissau -, conseguimos trazer algum equilíbrio ao nível de custos, usufruindo naturalmente das moratórias, do lay-off, da negociação com os fornecedores de redução de dívida. Uma série de medidas que nos fizeram conseguir reduzir custos. Se tivermos uma redução de vendas de 70%, os custos tiveram de reduzir 70%.

- Conseguiram reduzir os custos em 70%?
Ainda não conseguimos reduzir os custos em 70%, mas estamos quase lá.

- Diria que os custos laborais representam que fatia dessa redução?
Os custos laborais representam talvez 20%.

- O resto é sobretudo o quê?
Essencialmente rendas de aviões. A renda do avião não é só a renda do avião; é a renda do avião e a contribuição que fazemos para a manutenção futura. Por isso, a grande componente de redução foi na parte operacional com os aviões, com os equipamentos.

- Sem apoio público, a euroAtlantic corre o risco de não resistir?
Se continuar a não haver um mercado, sim, corre o risco de deixar de existir, como qualquer companhia privada que se vê aliada da máxima que somos um setor estratégico.

Vídeo: Sem apoio público, a euroAtlantic "corre o risco de deixar de exitir"

- Que perspetivas a companhia tem para este ano de 2021?
O ano de 2021 vai ser mais difícil que 2020. Em 2021, as empresas já estão mais stressadas por causa da falta de negócio. Estão muito mais pressionadas por questões de tesouraria porque todos os fornecedores começam a colocar muita pressão e não vejo uma recuperação do mercado de forma a trazer uma lufada de oxigénio à caixa das empresas por forma a aliviar, porque o que está para trás tem de ser pago.

- Como é que a euroAtlantic vê o plano de reestruturação da TAP e os acordos de emergência com os trabalhadores?
É difícil falar sobre o plano de reestruturação da TAP quando não o conhecemos. A mim parece-me, enquanto cidadão, que esse plano de reestruturação tinha de vir de dentro para fora e o que é do conhecimento do público, em geral, é que foi de fora para dentro. Um plano de reestruturação para ter sucesso, tem de ter as bases. Só quando vier informação da União Europeia é que poderemos opinar melhor sobre o plano de reestruturação. O que acho que não é justo é que, temos um Executivo que diz que o setor da aviação é estratégico, mas esse setor da aviação foi esquecido no plano de apoio ao turismo em geral. O turismo tem feito um excelente trabalho, tem tido imensos apoios, mas o setor da aviação ficou completamente esquecido. Sem contar com a TAP.

- A TAP recebeu uma ajuda de 1.200 milhões de euros. Nos próximos anos o apoio público pode ir até quase quatro mil milhões de euros. Como é que olha para estes números?
Esses números vão ficar muito aquém das necessidades.

- Vai ser preciso mais?
Acredito que sim.

- Consegue adiantar um valor?
Não consigo adiantar um valor. Mas veja, quando esses números começaram a ser falados nem tínhamos em miragem uma terceira vaga. No momento em que temos uma terceira vaga, e que temos uma companhia com 93% da sua frota no chão num mês, multiplique isto por milhões, e vamos chegar rapidamente à conclusão que vai ser preciso muito mais. A questão é que deveria haver um teto de ajuda que é para depois se ver se é possível haver recuperação ou não, porque com uma ajuda infinita qualquer reestruturação é possível.

Vídeo: "2021 vai ser ainda mais difícil que 2020"

- Há um desequilíbrio no tratamento que o Estado dá aos públicos e aos privados?
Não tenho dúvidas disso. O apoio que o Estado está a dar à TAP distorce a concorrência e não é justo para o setor da aviação na sua componente privada. Nós, euroAtlantic e os demais, concorremos com as empresas públicas e a grande questão é: afinal, o setor da aviação é estratégico ou não?! É porque não foi tido em conta no apoio que foi dado ao turismo. Que mensagem estamos a transmitir para o exterior por estarmos a tratar o setor da aviação desta forma, inclusivamente para os investidores estrangeiros?! E se o processo da TAP não funcionar e não correr bem?! Queremos privados ou não queremos privados?! Contam connosco, ou não contam connosco?! E por isso quando há um apoio não proporcional isto traz imensas dúvidas aos investidores. Se não temos respostas por parte do nosso Executivo, as empresas vão ter de começar a subir escalões para obter respostas.

- Subir escalões é ir até onde? Bruxelas?
Ir até à Cochinchina se me permite a expressão. Não podemos estar à espera de morrer na praia. Temos de lutar até ao fim porque achamos que temos razão. Se não temos resposta por parte do nosso Executivo teremos de ir até onde conseguirmos ir. Não é simpático as empresas nacionais terem de se recorrer de instituições internacionais para tentar repor uma coisa que não achamos que é justa.

- No passado já defendeu uma cooperação entre a euroAtlantic e a TAP. Como é que essa cooperação poderia acontecer?
Para bem da euroAtlantic, da TAP, e de todo o setor, incluindo outras companhias, diria que a cooperação entre as companhias de aviação nacionais era fundamental.

- Isso inclui a SATA?
Inclui a SATA naturalmente. Não podemos ter um País da nossa dimensão com três empresas públicas. Não temos uma política de aviação em Portugal. Estamos há 11 meses em pandemia e não há uma política para apoiar o setor. A cooperação entre as companhias para promover uma retoma era fundamental. Poderia dar pequenos exemplos: o voo do São Tomé parceria entre a euroAtlantic e a TAP; a compra conjunta de fuel, a compra conjunta de seguros de aviação, que para a TAP pode não fazer diferença, agora para todas as outras empresas poderem usufruir de taxas melhores por causa do peso seria fantástico. Aí sim, o poder político, através de uma empresa em que é acionista, estava a ajudar o setor na totalidade.

- A IATA prevê que apenas em 2024 a aviação recupere para níveis de 2019. Acredita nesta projeção? E para a euroAtlantic, para quando essa retoma?
Acredito que 2024 já é relativamente medianamente aceite. A euroAtlantic demorará um bocadinho mais. Diria que demorará mais meia dúzia de meses, por isso 2025.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de