Exportar ajuda à economia. Mas exportações portuguesas têm cada vez menos tecnologia

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Nas últimas décadas, Portugal reforçou a aposta em investigação e desenvolvimento (I&D) numa tentativa de alcançar os países mais desenvolvidos do Mundo. Mas, desde que a crise começou, em 2009, o investimento em I&D já caiu 10% e corremos o risco de entrar em retrocesso.

Manuel Mira Godinho, economista que se tem dedicado ao estudo da inovação e da I&D em Portugal, alerta para o perigo de “deitarmos a perder todo aquele esforço de décadas” e, em vez de registarmos melhorias económicas graças ao contributo da I&D, “acabarmos por retornar ao modelo dos anos 80, baseado em baixa tecnologia e baixos custos de produção”. Este é, também, o aviso que o economista deixa no livro “A Inovação em Portugal” que lança, amanhã, na fundação Francisco Manuel dos Santos, onde será orador na conferência “Ciência, Economia e Crise”.

De acordo com o autor, o investimento em I&D em Portugal, público e privado, em 2009, era, em média, de 267 euros por habitante; o que compara com a média europeia, próxima dos 500 euros, e com a dos países do Norte da Europa, que supera os 1.000 euros por habitante. No ano passado, em Portugal, aquele valor desceu para 234 euros.

“É natural que a crise tenha desacelerado o investimento em I&D por parte do Estado e das empreas, mas é preciso ver que há uma capacidade instalada nas universidades, fruto do investimento de décadas, que corre agora o risco de se tornar insustentável”, aponta Manuel Mira Godinho.

E, com a falta de investimento para projetos de investigação, surge outro problema: “Ainda não é um fenómeno em massa, mas os jovens muito qualificados que estão a emigrar para a Alemanha, para o Reino Unido, para os EUA ou para o Norte da Europa são uma enorme perda para o país, depois do sacrifício que foi feito para os formar”.

As exportações têm sido apontadas como “solução para a crise, e bem”, refere o economista. “Mas as nossas exportações só se têm baseado no fator custo, e muito no custo laboral, tendo vindo a perder valor nas exportações de média e alta tecnologia que, em 2007, representavam 12% das exportações e, hoje, segundo os dados mais recentes, representam apenas 7%”, adianta Mira Godinho.

Para o economista, há duas possibilidades para inverter a situação rapidamente. “Os fundos do QREN e as novas políticas estruturais para 2013-2020 podem contribuir para termos políticas mais ajustadas. Não é que as políticas atuais estejam erradas, mas há problemas que as políticas atuais não conseguem resolver e que têm a ver com os comportamentos dos agentes económicos ou dos consumidores, por exemplo”, considera Mira Godinho.

A melhoria do clima social por via da educação será, na perspetiva do economista, o segundo passo a tomar. “Se a sociedade não acarinhar a criatividade, se a desconfiança instalada nas pessoas continuar a minar o potencial de colaboração que é necessário para a inovação, não haverá melhorias a nível da I&D. E, atualmente, a sociedade portuguesa está mais fragmentada e dividida do que nunca. Temos um baixo capital social”, conclui.

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