Mobilidade partilhada

Fábrica de bicicletas Órbita nega saída de trabalhadores e máquinas

A esmagadora maioria dos trabalhadores da Órbita Bikes pediram a rescisão de contrato com base nos salários em atraso, garante o sindicato.
(Tony Dias/Global Imagens)
A esmagadora maioria dos trabalhadores da Órbita Bikes pediram a rescisão de contrato com base nos salários em atraso, garante o sindicato. (Tony Dias/Global Imagens)

Empresa de Águeda atravessa “uma fase de grande crispação”, assume o proprietário. Sindicato dos Metalúrgicos de Aveiro relata uma realidade diferente.

A Órbita, a conhecida marca de bicicletas da Miralago, em Águeda, está a um passo da falência. A empresa tem “meia dúzia” de funcionários, “se tanto”, porque, nas últimas duas semanas, “quase todos rescindiram o contrato de trabalho por salários em atraso”, alerta o Sindicato dos Metalúrgicos de Aveiro, Viseu e Guarda. Rodrigo Lourenço, dirigente sindical, garante que eles “estavam já sem trabalho”, porque a empresa já não tem máquinas para laborar. O Dinheiro Vivo tentou falar com o proprietário da empresa, mas sem sucesso. Por escrito, Jorge Santiago reconhece que a Miralago atravessa “uma fase de grande crispação”, mas garante que “não é verdade que não tenha trabalhadores e muito menos máquinas, que se encontram todas nas nossas instalações”.

“Há praticamente dois anos que estamos a reestruturar as instalações fabris, centrando as nossas atividades nas operações que fazem a diferença e que têm maior valor acrescentado, o que tem sido reconhecido pelos nossos clientes”, acrescenta Jorge Santiago, sublinhando que a Órbita e a Miralago “estão disponíveis para cumprir o contrato com a EMEL, bem como os compromissos que têm com os seus clientes”.

Há meses que as notícias da falta de bicicletas do sistema Gira, a rede de bicicletas partilhadas do concelho de Lisboa, indiciavam que algo não estava bem. Em outubro de 2018, a autarquia lisboeta falava em “dificuldades operacionais” da Órbita “quer na reposição do equipamento avariado, quer no fornecimento de novas bicicletas” e, esta semana, a EMEL, a empresa municipal de mobilidade de Lisboa, anunciou a rescisão de contrato invocando “sucessivos incumprimentos contratuais”.

Ontem, a Órbita, revelou, em nota à imprensa, que “não recebeu qualquer comunicação formal por parte da EMEL no sentido de tal decisão”. Reconhece que “existem problemas”, e assume a sua “quota parte de responsabilidade, mas “jamais” aceita “ser o bode expiatório de um problema que tem mais responsáveis”. Alega que a EMEL já tem em seu poder uma proposta de resolução da situação, que “passa pela substituição da empresa sub-contratada pela Órbita para proceder à operação logística do sistema e à reparação das bicicletas”.

Da parte do sindicato a versão é outra. “É uma questão de tempo até que um credor, se não a própria empresa, avance para tribunal com o pedido de insolvência”. Rodrigo Lourenço garante que não será o sindicato a fazê-lo, até porque a maior parte dos trabalhadores que rescindiram “tinham já perspetivas de trabalho”. O setor das ‘duas rodas’, que sempre teve grande tradição no concelho, “tem crescido muito e os trabalhadores serão todos absorvidos”, garante.

Rodrigo Lourenço lamenta é que “uma empresa com nome como a Órbita, que foi uma das pioneiras dos projetos de mobilidade autárquica, chegue a este ponto. Os problemas começaram há cerca de um ano, com atrasos pontuais nos salários, que a empresa justificava com falta de pagamento de clientes e atrasos na liquidação de faturas por parte das instituições públicas. A situação agudizou-se com o final do ano e o pagamento dos subsídios de Natal. Os atrasos foram-se acumulando e, nas últimas duas semanas, a quase totalidade dos trabalhadores que ainda restavam, cerca de 50 ou 60, rescindiram contrato”, diz o dirigente sindical. “Nos últimos meses as máquinas começaram a sair”, pelo que a empresa “não está em condições” de laborar, assegura.

Esta é uma história com quase cinco décadas. A Órbita foi criada, em 1971, por Aurélio Ferreira e as suas bicicletas conquistaram o mundo a partir de Águeda. Em 2016, já depois de comprada por Jorge Santiago, o atual proprietário e presidente executivo, de ter ganho o concurso da EMEL, em Lisboa (um contrato de 23 milhões de euros), e de ter montado o primeiro sistema só com bicicletas elétricas com capacidade de carregamento automático em Oliveira de Azeméis, dava emprego a 145 pessoas e exportava 80% da sua produção para França, Espanha, Reino Unido, países do Magrebe e Angola, mas também, para o México. Em setembro do ano passado, a empresa já só tinha 95 trabalhadores e dizia ter uma capacidade produtiva de 15 mil bicicletas ao ano.

 

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