Turismo

Falência da Thomas Cook deixa dívidas a hotéis portugueses

Fotografia: REUTERS/Henry Nicholls
Fotografia: REUTERS/Henry Nicholls

Algarve e da Madeira são as mais afetadas pela falência do operador britânico. Vila Galé, Pestana e AP Hotels em risco de não receber as reservas

A falência da Thomas Cook, o segundo maior operador turístico europeu, já está a ter implicações em Portugal e não se limitam aos 500 turistas estrangeiros que estão retidos no Algarve. Grupos hoteleiros como o Vila Galé, Pestana e AP Hotels estão em risco de não serem ressarcidos das vendas realizadas no verão ao operador britânico. A nível mundial, a insolvência da Thomas Cook vai obrigar ao repatriamento de 600 mil turistas, 150 mil dos quais para a Grã-Bretanha.

Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagem e Turismo, admitiu que “é de prever que a Thomas Cook tenha dívidas aos hotéis pelo menos no que se refere ao verão”. A insolvência da operadora “não é uma hecatombe” para o turismo do Algarve e da Madeira, mas “pode ser uma catástrofe para algum grupo hoteleiro”, alerta.

“Agosto e setembro ainda não foram pagos”, já que os contratos entre as operadoras e os grupos hoteleiros preveem um prazo de pagamento de 60 a 90 dias, confirma também João Fernandes, presidente da Região de Turismo do Algarve. Embora ainda não seja possível contabilizar o valor das faturas em falta, as associações hoteleiras da região estão já “a trabalhar para saber quem são os principais credores da Thomas Cook e o montante da dívida” para que haja uma “representação conjunta e assim terem mais força” para serem ressarcidos, adiantou. Mas a liquidação dessas dívidas não será fácil, até porque os credores são muitos.

Valores elevados
Para Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, a falência da Thomas Cook tem “um impacto negativo enorme” na região, de “milhões de euros” em dívida. “Será feito um levantamento para apurar com rigor” a situação, “mas não temos dúvidas que os montantes serão elevados”, adiantou, recordando que “50% da faturação do ano é feita nos dois meses do verão”.

Esta “não é uma falência qualquer, a Thomas Cook é uma companhia de aviação, mas é também um operador, comercializa férias, pacotes integrados, e 50% dos hotéis trabalham com operadores turísticos”. O presidente da RTA reconhece, no entanto, que a Thomas Cook tem um peso relativamente diminuto na região, sendo responsável por apenas 0,2% dos movimentos de passageiros no aeroporto de Faro, ou seja cerca de 10 mil turistas por ano.

A administração do AP Hotels estava ontem reunida para avaliar a situação e o impacto da falência da Thomas Cook no negócio. Segundo foi possível apurar, o grupo português tem clientes da operadora nos seus hotéis e a prioridade estava em saber como lidar com a situação. Contactados, os grupos Vila Galé e Pestana não quiseram comentar a falência da operadora britânica.

Paula Cabaço, secretária regional do Turismo da Madeira admitiu que receia o efeito de contágio da falência da Thomas Cook, que vendia anualmente cerca de quatro mil pacotes turísticos para a Madeira. Isto porque o grupo britânico é acionista da companhia aérea Condor, que liga oito vezes por semana o arquipélago à Alemanha, e do voo semanal de ligação a Copenhaga, na Dinamarca. Este voo acabou ontem por ser cancelado.

Liquidação imediata
A Thomas Cook entrou ontem em liquidação imediata, após não ter conseguido assegurar 227 milhões de euros (200 milhões de libras) em fundos reivindicados pela banca para garantir a sua sobrevivência. A operadora, que conta 178 anos de atividade, previa assinar esta semana um pacote de resgate com o grupo chinês Fosun (dono da seguradora Fidelidade e maior acionista do BCP, entre outros interesses em Portugal). O plano previa a entrada de 1023 milhões de euros, mas foi adiado devido às exigências de bancos como o Lloyds e o RBS de que o grupo tivesse novas reservas para o inverno.

“É a maior falência que já se verificou no turismo. A Thomas Cook foi praticamente a inventora do turismo como o conhecemos”, disse esta segunda-feira Adolfo Favieres, embaixador do World Travel & Tourism Council (WTTC).

Desde o ano passado que a operadora britânica acumulava dificuldades financeiras, que pareciam ir ficar resolvidas com o apoio da Fosun. Tal não sucedeu e 600 mil turistas ficaram com a corda ao pescoço, alguns deles a terem de pagar pela segunda vez o seu pacote de férias para poderem sair dos hotéis onde estavam hospedados.

Em Espanha, a situação é mais dramática, já que a Thomas Cook é um dos maiores operadores turísticos para as ilhas Canárias e Baleares. O governo de Madrid convocou de urgência os responsáveis do turismo e das Comunidades Autónomas para gerir a crise. Em causa estão quatro milhões de turistas… e mais de 40 unidades hoteleiras com créditos por receber.

Os hoteleiros pediram já a Madrid que tente renegociar com a Ryanair, de modo a evitar o anunciado encerramento de três bases da companhia low cost irlandesa em Espanha, e reclamam a descida de 40% nas taxas aeroportuárias “para atrair novos operadores” capazes de salvar “a difícil situação de que se adivinha, sobretudo nas Canárias”.

A Thomas Cook emprega 22 mil pessoas, nove mil das quais no Reino Unido. É detentora de 105 aviões e 200 hotéis.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
dbrs-1060x594

DBRS mantém rating de Portugal em ‘BBB’ e perspetiva estável

O primeiro-ministro, António Costa, intervém durante a cerimónia de assinatura de declaração de compromisso de parceria para Reforço Excecional dos Serviços Sociais e de Saúde e lançamento do programa PARES 3.0, no Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, em Lisboa, 19 de agosto de 2020. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

“Na próxima semana podemos chegar aos 1000 casos por dia”, avisa Costa

App Stayaway covid

App Stayaway Covid perto do milhão de downloads. 46 infetados enviaram alertas

Falência da Thomas Cook deixa dívidas a hotéis portugueses