Seguros

Falsos acidentes triplicaram em cinco anos

Acidente automóvel no top das fraudes
Acidente automóvel no top das fraudes

Alguém lhe bate no automóvel e danifica o para-choque, mas
quando vai reclamar à seguradora tenta ser indemnizado por outros
danos que o carro já tinha antes do acidente.

Tem um eletrodoméstico avariado há semanas, mas uma inundação
que entretanto ocorreu em casa dá-lhe argumentos para tentar incluir
os custos da reparação da televisão no seguro. Ou então aproveita
uma trovoada como argumento para acionar o seguro multi-risco que
cobre o risco elétrico em caso de descargas elétricas anormais.

É um trabalhador por conta própria e magoa-se a jogar futebol
com o seu filho, mas diz que a lesão aconteceu no trabalho e aciona
o seguro por acidentes de trabalho. Trabalha numa empresa que sente
dificuldades económicas e combina com o seu patrão que vão acionar
um seguro por acidente ou lesão de modo a “poupar” o seu salário
à empresa, garantindo que continua a receber rendimento.

Estes são alguns exemplos de fraudes no setor dos seguros cuja
incidência têm vindo a aumentar de forma muito significativa,
sobretudo com o agravamento da crise financeira e económica.

Não existem dados oficiais sobre a dimensão do fenómeno em
Portugal, mas um estudo realizado pela seguradora Liberty a partir da
sua atividade nacional revela que a fraude duplicou em cinco anos,
passando de 1% dos sinistros totais em 2007 para 2% em 2012.

O ramo automóvel será um dos mais vulneráveis a este fenómeno.
Comparando os resultados dos anos de 2007 e 2011, por exemplo,
nos sinistros auto houve um aumento de 112% das fraudes detetadas.

Será isto apenas o resultado da crise? “Parece não haver
dúvidas que a crise em que Portugal “mergulhou” tem os seus
reflexos não só económicos mas também sociais. A fraude aos
seguros não ficou imune aos efeitos desta crise e verificamos que
houve sem dúvida um aumento do número de fraudes detetadas, em
todos os ramos”, responde Alda Correia da Unidade Especial de
Investigação da Liberty Seguros.

Ainda mais expressiva é a subida de 240% na deteção de fraude
nos seguros multirrisco para habitação e comércio que garantem o
risco elétrico. Estes números refletem um procedimento mais
rigoroso da seguradora na análise dos processos, “mas também ao
impacto da crise no dia a dia das pessoas”.

O forte aumento das práticas fraudulentas foi confirmado ao
Dinheiro Vivo por um especialista na investigação de sinistros. Na
sua estimativa, entre 15% a 20% das ocorrências casos que investiga
têm origem em fraudes, sendo que em média os casos detetados serão
de 5%. O ramo automóvel, mas também os acidentes de trabalho, em
que a seguradora é chamada a substituir a empresa ou o rendimento do
próprio em caso de trabalhador por conta própria, estão entre as
áreas onde a fraude mais cresces. Ainda de acordo com este
testemunho as regiões onde se verificam mais casos são o Vale do
Sousa, em redor do Grande Porto, a margem Sul de Lisboa e a região
Oeste.

Nas chamadas pequenas fraudes, onde os valores reclamados são
inferiores a 500 euros, o número de casos detetados disparou 582%
desde 2007. É também um sinal da crise já que “significa que se
arrisca mais por menos dinheiro”, realça Alda Correia.

O empolamento de danos num sinistro que efetivamente ocorreu será
o caso mais comum de fraude, tendo-se verificado um crescimento de
413% nos casos identificados nos últimos cinco anos, segundo dados
da Liberty que está entre as dez maiores seguradoras a operar em
Portugal.

Mas mais significativo é o aumento em 211%, o que corresponde ao
triplo no número de sinistros fictícios. Mas também o nível de
sofisticação é preocupante. Se em 2007 eram detetados sinistros em
que os veículos já batidos eram colocados à socapa em determinado
local, onde se reclamava ter acontecido o embate, hoje há relatos em
que os automóveis são preparados para circular até ao lugar do
suposto acidente e chocam intencionalmente, de preferência com
testemunhas idóneas, tornado muito difícil refutar a veracidade e
acidentalidade desses sinistros.

Para Alda Correia, o grau de cuidado nos detalhes nos casos mais
recentes “levam-nos a refletir muito seriamente na crise de valores
que vivemos”.

Um dos casos mais conhecidos que já foi levado a julgamento é o
da Rotunda de Santo Ovídio (Vila Nova de Gaia) onde 43 pessoas foram
acusadas de terem provocado 138 acidentes automóveis, entre 2000 e
2006, com o objetivo de burlar as seguradoras. Os automóveis eram
equipados com pelas danificadas para agravar os custos de reparação.
As indemnizações pedidas pelas empresas lesadas rondavam um milhão
de euros.

Mais recentemente, a revista Sábado divulgou um caso em que uma
rede envolvendo 28 arguidos a operar na zona de Lisboa que se
dedicava a comprar carro em leilões e depois provocar acidentes para
receber as indemnizações das seguradoras que terão chegado aos 700
mil euros.

A maior atenção das entidades judiciais na investigação destes
crimes é uma das respostas à crescente dimensão do fenómeno, mas
também se tem apostado na prevenção, designadamente pelo reforço
da deteção prévia das tentativas de fraude antes de ocorrer o
pagamento. No caso da Liberty, as situações detetadas nesta fase
subiram 94%.

Não são só as empresas de seguros que saem a perder. Segundo
estatísticas internacionais, os segurados prémios 10% a 15%
superiores por causa do aumento do número de sinistros provados por
fraudes.

Alda Correia, que também está na Comissão Técnica de Fraude da
Associação Portuguesa das Seguradoras, entidade, defende que o
reforço de meios de combate passa, também, pelas campanhas de
sensibilização no combate à fraude. “Deixou de ser um assunto
para especialistas”.

A fraude vai ser um dos temas do III Congresso “Prevenir e
Reparar: Acidentes em tempo de crise que a Liberty Seguros vai
promover no dia 1 de Junho na Culturgest em Lisboa.

Exemplo de tipos de fraude correntes:

1. Nos acidentes de trabalho, para além da tentativa de inclusão do
trabalhador na garantia da apólice após o sinistro, detetamos com
frequência que os sinistrados, não respeitam o período de
incapacidade temporária definido pelos serviços médicos. Continuam
a trabalhar (agravando a lesão e correndo o risco de sofrer novos
acidente). Durante este período (inatividade laboral definida
clinicamente para recuperação) ganham a indemnização do segurador
e também do produto do seu trabalho

A incapacidade financeira de suportar os custos de tratamentos
médicos, leva a que lesões produzidas na vida privada, sejam
participadas como se de acidente de trabalho se tratasse de modo a
garantir os tratamentos necessários. Em alguns casos, o sinistrado
nem sequer trabalhava para o tomador de seguro.

2. Os transportes de carga inexistente, mas para a qual se fez um
seguro, são também uma forma de burlar seguradores, quando se
participa o furto da carga do camião, ou incêndio total deste.

3. Mas os incêndios e furtos são também usados muitas vezes para
participar sinistros em instalações comerciais e industriais, em
especial quando se faz um reforço de capital seguro previamente.

4. Nos seguros de habitação e de automóvel, é frequente, a
tentativa de imputar danos decorrentes da falta de manutenção, a um
sinistro que ocorra.

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