Federação Europeia de Editores pede ao governo que deixe livrarias abrir e que livros voltem aos supermercados

Numa carta enviada ao governo português, a Federação Europeia de Editores pede que "reconsidere a sua posição em relação à reabertura de locais de venda de livros em Portugal"

A Federação Europeia de Editores enviou uma carta ao governo português onde apela que o Executivo recue e permita a venda de livros neste período de confinamento nas livrarias ao postigo e em outros espaços que estejam autorizados a estar abertos. Reconhecem que tempos excecionais, como os que a Europa e Portugal atravessam, exigem também medidas excecionais mas notam que não permitir aos portugueses comprar livros agrava a difícil situação do setor e coloca em risco a diversidade cultural.

"Hoje, editores de toda a Europa respeitosamente pedimos-vos que reconsiderem a vossa posição em relação à reabertura de pontos de venda de livros em Portugal. Infelizmente, o setor livreiro em Portugal já sofreu quebra de vendas de quase 20% em 2020, enquanto o setor dos livros na maioria dos países europeus registou quedas bem menos severas", diz a Federação Europeia de Editores na carta ao governo português.

"Estamos totalmente conscientes que a situação sanitária é dramática e que todos os esforços têm de ser feitos para travar o contágio de covid-19. Em circunstâncias excecionais, decisões excecionais têm de ser tomadas. Mas impedir que os cidadãos portugueses de comprarem livros nos pontos de venda que continuam legalmente a ter autorização para continuar abertos, num país que já sofre de falhas de leitura sistémicas, [representa] um risco de agravar o impacto económico no setor, enquanto desnecessariamente coloca em risco a diversidade cultural", acrescentam, de acordo com o documento enviado às redações.

A Federação manifesta ainda a sua preocupação com o facto de que esta decisão do governo se vá traduzir numa quebra no número de livros publicados e menos autores possam estrear-se. "Isto terá consequências duradouras para a literatura e leitura, colocando todo um ecossistema em risco", alertam.

E vão mais longe: "Um país que se orgulha da sua cultura e em especial da sua literatura não devia proibir o acesso total aos livros, mesmo que as livrarias tenham de manter-se fechadas por questões sanitárias. Impedir os cidadãos de comprar livros onde poderem e permitir apenas que os canais online opererem num país onde a venda de livros online representa apenas 8 a 9% do total de venda de livros é uma séria restrição ao acesso universal a bens essenciais".

E recordam que outros governos europeus, devido à pandemia, determinaram o encerramento de livrarias e outros espaços que vendem livros, mas apoiaram o setor injetando fundos através de compras elevadas de livros através de livrarias locais para melhorar as coleções das bibliotecas. "Infelizmente, os fundos até agora alocados pelo o vosso governo falharam em apoiar adequadamente o setor que representa dezenas de milhares de empregos" dizem e alertam: "se os escritores, editores e leitores não tiverem autorização para vender e comprar nos pontos de venda que continuam abertos, Portugal arrisca-se a assistir à maior queda de editoras e livrarias desde o 25 de abril de 1974".

"Pedimos-vos que permitam que as livrarias façam vendas sem muito contacto, às suas portas e permitir a venda de livros através de outras lojas que continuem abertas. Pedimos-vos que dê financiamento adequado para apoiar o setor livreiro e ajudar todos os atores da cadeia de valor do livro para que ultrapasse esta crise", rematam.

APEL alerta para falência iminente

Esta missiva enviada ao governo de António Costa surge depois de, nesta segunda-feira, a APEL ter alertado para a situação do setor. À Lusa, o vice-presidente da APEL, Pedro Sobral, ter acusado o governo de ter uma atitude "proibitiva e censória" sobre o livro, promovendo a venda clandestina típica do Estado Novo, e avisa que o setor está à beira da primeira falência massiva.

Este entendimento da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) decorre da sua incompreensão e surpresa perante a decisão do Governo de manter a proibição da venda de livros, no novo decreto do estado de emergência, contrariando assim aquilo que terá sido a "vontade mostrada pelo Presidente da República" e por "vários partidos com assento parlamentar".

"Nunca imaginei no século XX ver livros por baixo de sacos de plástico como se fossem lixo ou bens tóxicos. As pessoas ligadas ao setor sentem-se violentadas por essas imagens, mais ainda quando o Presidente da República deu possibilidade que fosse diferente. Mas o Governo não seguiu as recomendações do Presidente da República, o que é estranho, mantendo-se o livro inacessível a 80% da população", disse à Lusa.

Segundo o responsável, o argumento da venda "online" não é justificação, porque praticamente só acontece nos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, "fora das grandes cidades as pessoas não têm acesso, a capacidade de compra "online" ainda é muito baixa".

"As tabacarias que também vendem livros, podem vender revistas, jogos de azar e pastilhas elásticas, mas não podem vender livros. Temos relatos de livros vendidos debaixo do balcão. Voltámos ao Estado Novo. Estamos a falar de um livro, não de armas ou de drogas", lamentou Pedro Sobral.

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