François Baudienville : "NB é um parceiro histórico mas queremos estender os canais de distribuição"

A Mudum, antiga seguradora do BES, tem conversas em curso para alargar a sua oferta a outros canais além dos balcões do Novo Banco. O CEO da empresa revela que as vendas estão a crescer 25%.

A antiga seguradora do BES e depois do Novo Banco, que hoje é controlada a 100% pelo grupo francês Crédit Agricole Assurrances, quer alargar os seus canais de distribuição. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, François Baudienvillhe, CEO da Mudum, explica os planos da seguradora para reforçar a sua presença.

Como correu o ano de 2021 para a Mudum, ainda foi muito impactado pela pandemia?
Do ponto de vista geral, foi um ano que ainda não atingiu os resultados pré-pandemia, mas já foi de retoma da atividade. Para a Mudum, foi muito visível [a retoma económica], excepto, obviamente, o primeiro trimestre, que foi extremamente difícil. Em termos de prémios, registámos um crescimento de cerca de 2%. Mas, no que diz respeito a 2021, é importante sublinhar que, além do crescimento ao nível do negócio, o que importa para nós é ter um crescimento sustentável. É fácil ter crescimento, o desafio para nós é ter um crescimento rentável e seguro, mantendo a nossa solidez, e isso conseguimos claramente fazer.
2021 foi também o ano que marcou a mudança de identidade da seguradora, até então denominada GNB Seguros, para Mudum...
Sim, 2021 foi um ano de transformação extremamente importante para a companhia. O mais visível foi provavelmente a mudança de nome que ocorreu no mês de setembro. Foi um momento importante e que marcou uma nova dinâmica com os nossos parceiros de negócios. Mas isto é a parte mais visível para fora. Dentro da Mudum aconteceram também muitas coisas que são parcialmente visíveis nas contas.


De que acontecimentos estamos a falar?
Nos últimos cinco anos, antes da pandemia, havia uma incerteza estratégica muito forte para a companhia, o que resultou num nível de investimento que não era suficiente para fortalecer o desenvolvimento da empresa. O nosso desafio nos últimos três anos foi mesmo esse, estamos a investir nas pessoas e tecnologias para sermos capazes de suportar a nossa estratégia de desenvolvimento.


Estamos a falar de um investimento de quanto por ano?
É difícil responder dessa maneira. O que se pode ver nas contas é o crescimento dos gastos gerais. Em termos de pessoas, tínhamos 58 no final de 2018, hoje temos 75. E até ao final do ano vamos ter 87 pessoas se tudo correr bem. Em termos de investimentos concretos, também mudámos os nossos data centers e investimos na melhoria do sistema operativo core, uma mudança importante no nosso núcleo de integração com os nossos parceiros. E, como última nota em termos de investimento, não podia deixar de referir o tema do omnicanal. O modelo de negócio da Mudum era e continua a ser extremamente forte no modelo de distribuição física nos balcões do Novo Banco. Mas temos um desafio pela frente de conseguir proporcionar uma experiência omnicanal aos clientes, usando os vários pontos de contacto que pudermos. Isso é um investimento que estamos a fazer em conjunto com o Novo Banco [com o objetivo] de a Mudum ser capaz de ir propondo uma experiência mais adaptada às necessidades e vontades dos nossos clientes.


Portanto, o objetivo é continuarem a vender em exclusivo nos balcões do Novo Banco? Não pensam alargar a outros sítios?
Sim, mas estamos a pensar alargar também. O Novo Banco faz parte da nossa história. É um parceiro histórico e é também um parceiro de futuro para a companhia. [...] Do lado do Novo Banco temos um contrato de longo prazo [até 2042] de distribuição exclusiva no segmento de retalho e negócios, e o tema para nós é continuar a crescer a atividade com eles e temos muito espaço para continuar a crescer. Além do Novo Banco, obviamente, o objetivo do grupo Crédit Agricole Assurances - que passou a ser acionista único da companhia em 2020 - não é trabalhar só com um parceiro, mesmo que seja um parceiro de qualidade. O tema para nós é crescer o nosso negócio, estender os nossos canais de distribuição.


Para onde? Para outros bancos?
A nossa especialidade é o mundo banca/seguros, é isso que sabemos fazer e é esse o modelo do grupo Crédit Agricole Assurances. Então, se houver uma oportunidade de crescer nas atividades de banca/seguros é algo que sabemos fazer.


Mas é algo que está em estudo? Já estão em conversações com alguma instituição financeira?
Temos várias discussões em curso além do mundo da banca/seguros. A nossa vontade é também trabalhar com parceiros além deste mundo, por isso, estamos também a capacitar a nossa empresa além da banca/seguros. Pode ser algo como trabalhar com outras instituições do mundo financeiro ou alargar os canais de distribuição fora deste mundo. Isso será uma questão, em primeiro lugar, interna, de capacitar a companhia para ser capaz de fazer isso e, em segundo, vai ser uma questão de aproveitar as oportunidades. Por isso, temos um conjunto de discussões em curso.


Com bancos e outras entidades fora dos sistema financeiro? Pode detalhar o nome de algumas das empresas?
Estamos a avaliar várias hipóteses mas não posso dizer mais nada porque são discussões em curso.


Mas haverá desfecho este ano ou ainda não?
Ainda não sei dizer, estamos a trabalhar para isso.


Voltando aos resultados, qual foi o valor das vendas em 2021 e quais foram as áreas de atividade com maior crescimento e, pelo contrário, as que estão a ter mais dificuldades em crescer?
Em termos de prémios, estamos a falar de 76,1 milhões de euros. [Quanto às áreas], a companhia hoje tem quatro pernas: automóvel, casa, saúde e proteção de crédito. Estes são os ramos com maior contributo para os resultados. No que diz respeito a 2021, concretamente, o maior crescimento foi no mundo da proteção de crédito e [a evolução] foi altamente ligada à retoma da atividade do nosso parceiro Novo Banco. O desafio que temos pela frente, e estamos a trabalhar com Novo Banco para conseguir relançar a Mudum nesse caminho, passa por conseguir retomar a nossa posição quase natural no contributo do mundo da saúde. E foi por isso que reformulamos a nossa oferta nessa área. Há espaço para a companhia propor uma solução com valor para os clientes, em termos da cobertura e serviços no ramo da saúde. Reformulámos esse produto mas, em 2021, não foi visível em termos de vendas.


Mas por causa da concorrência? É muito forte neste campo?
Há concorrência, mas estamos convictos que temos um produto de qualidade a propor aos clientes. Basicamente, os seguros de saúde são os contratos de seguros que as pessoas querem usar. Os outros [contratos de seguro] habitualmente têm-nos como segurança, mas preferem não utilizar. No caso da saúde, em particular, houve um trabalho importante com os nossos parceiros para propor um produto em termos de cobertura, assistência e qualidade da rede, para que sejam os melhores standards do mercado. O desafio era passar essa mensagem para ser uma realidade em termos de vendas. E é isso que estamos a conseguir fazer este ano.


A saúde é uma das principais apostas para este ano?
Faz parte dos temas de crescimento este ano, mas também nos futuros, porque, qual é o papel das empresas de seguros? Responder aos desafios das pessoas e ser úteis. E já sabemos, foi visível com a pandemia, que o tema da saúde passará a ser uma grande preocupação para cada um de nós.


Nos produtos de proteção de crédito à habitação sentiram aumento da procura com o efeito das moratórias e agora com o aumento das taxas Euribor?
Não há assim um aumento de procura evidente, mas sente-se que há uma propensão dos clientes para ouvir propostas desta natureza. Contudo, estamos com bons ritmos de venda de produtos associados ao crédito. E mesmo os produtos que não associados ao crédito, mas que protegem o orçamento familiar, também estão a ter um bom desempenho.


Consegue dar números desse crescimento?
Por exemplo, um produto que nós temos, que é o proteção salário, este ano, está a ter crescimentos na ordem dos 13% ou 14%. São crescimentos interessantes.


O setor tem lançado vários produtos para acompanhar a evolução dos tempos. Nesse sentido, pensam lançar produtos direcionados para alterações climáticas, como para catástrofes naturais e outros riscos sistémicos?
O tema da sustentabilidade e responsabilidade social é importante e é um dos pilares de desenvolvimento estratégico da companhia. E no que diz respeito a este tema temos três frentes. A primeira é na maneira de gerir a nossa carteira de investimento, [...] há alguns setores onde não queremos estar presentes como aconteceu no ano passado, quando vendemos as ações que tínhamos no setor do tabaco. A segunda vertente é na tomada de decisão enquanto empresa [...], este edifício [nova sede da empresa], por exemplo, [cumpriu] critérios ambientais. Por fim, e para responder à questão, estamos a aplicar a mesma lógica do ramo dos investimentos na nossa oferta e a desenvolver uma avaliação ESG [Ambiental, Social e Corporativa].
Recentemente foi noticiado que os agricultores têm pedido um seguro contra a seca, mas as seguradoras têm recusado. Porquê?
Neste caso específico não vou ser capaz de responder, porque não estamos a atuar no setor agrícola em Portugal. Há um contributo muito forte deste setor em França, faz parte da história do Grupo, mas em Portugal não é um ramo que estamos a desenvolver.


E não pensam vir desenvolver no futuro?
Não faz parte do acordo que temos com o Novo Banco e não tem sido pedido, por isso, não é algo que estejamos a estudar. São temas complicados em termos técnicos que obriga a um entendimento muito forte entre o Estado e as empresas de seguros.


Recentemente tinha dito que não punham de parte a hipótese de crescimento inorgânico, estando atento a potenciais aquisições de seguradoras no mercado nacional. Já têm algumas na short list? Como está processo?
Isso é um tema mais ao nível do Crédite Agricole Assurances e não da Mudum. O meu foco é trabalhar no crescimento interno com os parceiros que temos. Se houver uma oportunidade de mercado, sem dúvida que posso propor ao grupo e eles vão avaliar. Não acho que de maneira direta seja uma oportunidade para a Mudum. Mas se houver uma oportunidade de mercado, claramente iremos avaliar.


Depois do impacto da pandemia e com a atual incerteza económica, com a alta inflação e o agravamento da crise energética, poderá haver algum desinvestimento da casa-mãe?
Não posso falar pelo acionista, mas claramente não são as conversas que temos com o acionista. O grupo tomou a decisão, em 2021, de investir, de ter controlo total na companhia, e isso é uma vontade de crescer o negócio para capacitar a companhia no seu desenvolvimento. As conversas que tenho com acionista são mais essas.


Quais são as estimativas para este ano? Como tem corrido a atividade até agora?
Em termos gerais, no primeiro semestre, estamos num caminho de crescimento na nossa atividade comercial com o Novo Banco. Ao nível das vendas, estamos a crescer mais 25% em comparação com o ano passado. Em termos de prémios, estão a crescer também em 1,6% ou 1,7%, o que está a confirmar a tendência do ano passado.


Tendo em conta esta evolução, podem fechar as contas com níveis pré-pandemia?
Vamos ver. Recentemente [na publicação dos resultados e plano de investimento a médio prazo], o Crédit Agricole disse que era mais fácil prever as tendências dos próximos 10 anos do que o que vai acontecer nos próximos seis meses. E é um pouco isso a nossa realidade. Vai depender muito dos impactos na economia de maneira geral, da evolução da inflação...... há muitas coisas que são difíceis de prever.

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