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Como Portugal está a criar a joalharia do futuro

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A modernidade e a tradição, os desafios e o futuro do setor da joalharia em Portugal estiveram em debate esta sexta-feira, no Ministério da Economia.

A joalharia portuguesa é um setor que tem sobrevivido aos desafios das últimas décadas, fazendo parte de negócios centenários que passam o conhecimento de geração em geração. O setor tem reinventado os métodos tradicionais, colocando em diálogo a tradição e a modernidade.

Nesse sentido, a Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP), apresentou esta sexta-feira a exposição “Shapers 4.0”, no Espaço 560 do Ministério da Economia. A par da apresentação teve lugar o primeiro encontro de um ciclo de três seminários que querem debater a “joalharia 4.0”, moderado pelo Dinheiro Vivo. O painel contou com os nomes que marcam a história da joalharia em Portugal: Jorge Leitão, da Leitão & Irmão Joalheiros, Pedro Sousa da J. Monteiro e Sousa, e Augusto Seca, da Topázio.

A internacionalização, a modernidade, o design, o e-commerce e o impacto da tecnologia na joalharia do presente e do futuro, foram alguns dos tópicos abordados.

A inovação aliada à tradição

Pedro Sousa faz parte da quarta geração da J. Monteiro de Sousa, a marca mais antiga de oficinas de joalharia. O representante mais jovem do painel garante que a empresa tem combinado a inovação com a tradição, através da implementação de novas técnicas de produção, tais como a impressão 3D. “Criar uma peça nova é sempre um desafio, e ao criar uma peça nova conseguimos criar um processo novo”, sublinha. Por isso, os pedidos que recebem são muito variados e, garante Pedro Sousa, aceitam qualquer desafio.

A marca Topázio soma 140 anos de história, e para Augusto Seca, aliar a modernidade à tradição tem sido decisivo para garantir a continuidade da marca e a qualidade dos produtos. A manualidade na produção das peças, a preservação do “que é autêntico e genuíno”, são os fatores decisivos para a distinção da peças Topázio.

“O que estamos a tentar fazer é trazer esta imagem da Topázio como uma empresa centenária, com uma ligação bastante afetiva à casa dos portugueses, e trazê-la também às novas gerações”, sublinha.

“Não direi que há um desapaixonar [pela joalharia], mas direi que há uma mudança na vida das pessoas”, por isso a Topázio fez um esforço para ganhar notoriedade em outras gerações. “A Topázio soube num momento que era necessário fazer uma mudança”, e Augusto lembra o ano em que assinalaram 140 anos com uma parceria com 14 artistas portugueses.

As novas gerações na joalharia

A Leitão & Irmãos nasceu no Porto em 1873 e ainda hoje conserva o selo que os distingue como os “joalheiros da coroa portuguesa”. Para Jorge Leitão, as novas gerações fazem parte de um percurso natural no setor.

“Os jovens são indispensáveis e vejo dois caminhos distintos na ourivesaria em Portugal: a venda de mão-de-obra e a criação de algo próprio”.

Para além da integração dos jovens, também Jorge Leitão destaca a interação com diferentes setores das artes e lembra a colaboração com artistas como Rafael Bordalo, Graça Costa Cabral, pois “é isso que nos faz crescer, está intimamente ligado à nossa tecnologia”, refere.

Mercados internacionais e e-commerce

A joalharia portuguesa encontra mercado além-fronteiras, como alega Augusto Fonseca da Topázio, que revela que o maior mercado da marca são os Estados Unidos. A fidelização é maior no mercado judaico, que procura a prata por motivos religiosos. O mercado lusófono ainda não tem grande peso no setor.

A Leitão & Irmãos também exporta para o outro lado do Atlântico, mas destaca a crescente aposta no e-commerce, tanto da empresa como dos consumidores, pois acredita ser “o mercado do futuro”.

A crescente procura através da loja online deve-se à confiança dos clientes, garantida pela longevidade da marca. “Temos clientes dos EUA que compram anéis de noivado na loja online”, confessa. Contudo, acredita que as lojas físicas são uma marca que distingue o mercado português e continua a atrair estrangeiros, por isso confessa: “não vejo um futuro em que tudo é online”.

Por outro lado, a J. Monteiro e Sousa encontra o maior mercado em Portugal, muito impulsionado pela filigrana, que é muito utilizado para “souvenirs”, explicou Pedro Sousa.

Joalharia 4.0

A tecnologia tem sido bem integrada como fator de inovação de melhoramento do setor, mas pode ter um impacto negativo. Pedro Sousa, identifica a “massificação” como o maior desafio, e reforça que a solução está em continuar a conjugar harmoniosamente a tecnologia e tradição.

Para Jorge Leitão, a tecnologia poderá alterar a realidade até um ponto em que só fiquem fornecedores de mão-de-obra, “mas isso será sempre necessário”, alega. O representante acredita que é importante manter as características que conservem a identidade do grupo, para que consigam continuar a competir com a concorrência estrangeira.

Augusto Seca acredita que a tecnologia traz ainda outras vantagens, se for complementada com o trabalho manual dos artesãos. “Essa simbiose de fatores vai permitir no futuro sermos mais produtivos e mais eficazes no que fazemos”, ainda assim é importante “utilizar a tecnologia com ponderação”. Para Leitão, já é parte do dia-a-dia, mas acima de tudo aumenta a capacidade de acesso à informação e a capacidade de gestão.

O futuro do setor

“Faltam escolas que produzam mão-de-obra qualificada. Falta continuar a criar uma marca que seja nacional, afastando-nos da ideia de vender mão-de-obra, e cultivando a ideia de vender as nossas peças”, defende Jorge Leitão. Para Pedro Sousa, é necessário mudar o espaços das oficinas e torná-los “mais sedutores”.

Augusto Seca acredita que é necessário inverter tendências. O segredo está na complementaridade entre todos e na rejeição de uma posição que rivalize os diferentes atores no setor. “O mercado nacional tem uma capacidade finita de absorver aquilo que é a instalação das empresas portuguesas, e além disso começa a ser também apetecível para marcas estrangeiras. Precisamos de nos unir e de avançar para o mercado internacional”.

Para Ana Teresa Lehmann, secretária de Estado da Indústria, a joalharia é um setor que merece elogios. A joalharia está “em fase de renovação e crescimento”, a “apostar na internacionalização e numa nova atitude.

A joalharia portuguesa continua a ser mais procurada por países extracomunitários, como o Japão e a China. Em Portugal, o setor tem atualmente 600 produtores em quatro mil empresas, que têm vindo a mostrar a melhor forma de reinventar os métodos tradicionais, colocando-os em diálogo com a inovação e os avanços tecnológicos.

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