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Fernando Guedes. “O vinho é a vida”

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O patriarca da Sogrape faleceu, no Porto, aos 87 anos. Deixou a maior empresa de vinhos em Portugal, com presença em três continentes

“O vinho é a vida” era a máxima de Fernando Guedes, filho do fundador da Sogrape, mas o grande impulsionador do crescimento internacional da empresa, que hoje é a maior do negócio vitivinícola em Portugal, com negócios nas principais regiões vitivinícolas nacionais, mas, também na Argentina, na Nova Zelândia, no Chile e em Espanha. O patriarca da família partiu aos 87 anos, deixando um legado imenso. Marcelo Rebelo de Sousa destaca-lhe o cariz “inovador e lutador”, Rui Moreira lembra o “humor inesquecível” e a visão de promover uma sucessão atempada e planeada, e Ana Lehmann destaca o “orgulho” com que contava a história do Mateus Rosé, criado pelo seu pai e a base do sucesso da Sogrape. Francisco Olazabal sublinha que foi um “grande homem, com uma vida cheia e repleta de coisas boas”.

“O vinho é a vida” é, também, o título do livro que os filhos lhe dedicaram, em 2017, aquando dos 75 anos da Sogrape, e escrito por Ana Sofia Fonseca. Na introdução pode ler-se: “Salvador, Manuel e Fernando. Os filhos quiseram contar uma história ao pai. A sua. Cresceram com os seus feitos e contos, queriam registá-los. Deixá-los em papel para o tempo não os apagar. Também descobrir mais sobre o homem que é o seu exemplo. Fernando desafiou então a jornalista Ana Sofia Fonseca para investigar e escrever sobre a vida do pai. Ele nunca soube do livro. Eles nunca souberam o que seria o livro. O resultado são estas histórias”. A Sogrape vende hoje 135 garrafas por minuto em todo o mundo, e o mercado nacional vale, apenas, 25% de uma faturação de mais de 215 milhões de euros. Mas o Mateus Rosé permanece como o campeão de vendas além fronteiras.

Um sucesso que Fernando Guedes atribuiu sempre ao génio do pai, Fernando van Zeller Guedes, o fundador da empresa, e que estava apostado em lançar um vinho diferente. Foi o primeiro rosado a surgir no mercado, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial e com uma garrafa original, inspirada nos cantis da tropa. Mateus Rosé é o legado do fundador. Já este ano, a terceira geração, lançou a última criação de Fernando Lobo Guedes, um vinho a que chamaram Legado, um “tributo aos fundadores e à herança dos sucessores”.

Tributos

Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, e amigo íntimo da família, destaca o papel do empreendedor, mas, também, do homem, “com valores” e um “humor inesquecível”. Sobre a companhia, considera que Fernando Guedes “teve o grande mérito” de continuar a obra do pai, apontando a compra da A.A.Ferreira, em 1987, aos herdeiros de Dona Antónia Adelaide Ferreira, vulgarmente designada por a Ferreirinha, como o momento que marca o início da transformação da Sogrape na maior empresa de vinhos nacional.

“Uma empresa que cresceu, com operações em três continentes, mas que conseguiu sempre manter a tradição. No fundo, uma empresa com dimensão multinacional, mas um cunho familiar”, destaca Rui Moreira. Que elogia, ainda, a coragem de ter sabido passar o testemunho cedo. Foi em 2000 que Fernando Guedes se reformou e entregou ao seu filho primogénito, Salvador da Cunha Guedes, a presidência executiva do grupo. “Soube ‘sair do caminho’ e ficar, apenas, como patriarca, no bom sentido da palavra, e fê-lo a tempo e de uma forma planeada, o que é raro em Portugal”, frisa. Mas manteve-se, sempre, no ativo e era, ainda, o presidente do conselho de administração do grupo.

Salvador Guedes conservou e ampliou o legado, com nova onda de aquisições, desta feita a nível internacional. Em 1997, a Sogrape compra a Finca Flichman, na Argentina, em 2007 a Framingham, na Nova Zelândia, e, em 2008, a Los Bodos, no Chile. Em 2017, e já sob a liderança do irmão mais novo, Fernando da Cunha Guedes – Salvador sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica – a Sogrape compra 25% da Liberty Wines e “consolida a parceria estratégica” que mantinha com aquela distribuidora de vinhos no Reino Unido.

Francisco Vito Olazabal liderou a operação de venda da Ferreira, mas Fernando Guedes convidou-o a permanecer no grupo, o que fez até avançar com a Quinta de Vale Meão, o seu projeto familiar. Destaca a “surpresa”, mas, também, “a enorme satisfação” por a melhor oferta pela empresa criada pela Ferreirinha ter sido da Sogrape e não das multinacionais, permitindo que se mantivesse portuguesa. “E, embora não houvesse qualquer compromisso nesse sentido, convidou-me a ficar e a integrar a administração. Uma norma que seguiu nos vários negócios que fez, com excelentes resultados. Foi uma integração harmoniosa e pacífica, um exemplo do espírito que imprimia à empresa”, diz Francisco Olazabal. George Sandeman, o primogénito da sétima geração da família da Casa Sandeman, é ainda hoje membro da direção da Sogrape, que adquiriu a empresa, em 2001, às multinacionais Diageo e Pernod Ricard. É apenas um dos muitos exemplos.

Prémio Dona Antónia

Na sequência da compra da A.A.Ferreira, a Sogrape e os descendentes da família Ferreira criaram, em 1988, o prémio Dona Antónia que, anualmente, distingue “uma mulher portuguesa que se destaque pelo espírito empreendedor e pelas características de organização e gestão empresarial reconhecidas à Ferreirinha”. Um galardão que já distinguiu personalidades tão distintas como Ana Lehmann, atual secretária de Estado da Indústria, Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, Purificação Tavares, professora Catedrática de Genética Médica, ou Leonor Beleza, presidente da Fundação Champalimaud, mas, também, jovens revelações como a engenheira bioquímica Raquel Oliveira ou a cineasta Leonor Teles, entre outras.

Ana Lehmann sublinha que a perda de uma “referência incontornável” da indústria portuguesa, que deixa um “grande legado”, um “exemplo ímpar”, e o “colosso global” que é o grupo Sogrape, presente desde Avintes à Nova Zelândia. Destaca o “grande Senhor”, e o seu “sorriso carinhoso”, a “enorme afabilidade e serenidade”. “Aprendi muito com este grande empresário. Nunca me esquecerei da nossa primeira longa conversa, a 4 de julho de 2003, na noite em que me entregou o Prémio D. Antónia Adelaide Ferreira. Um dos dias mais importantes e simbólicos da minha vida, seguramente”, escreveu a secretária de Estado no Facebook, destacando o “orgulho” com que narrava a história de como o pai lançou e afirmou o Mateus Rosé no mundo. “Cada ano esperava por esse 4 de julho. Este ano estarei lá, mas sem si será muito diferente. Será sempre um grande referencial de ética e de valores para todos nós. Obrigada, Senhor Fernando Guedes”, termina Ana Lehmann.

O Presidente da República foi dos primeiros a reagir à notícia, endereçando “sentidas e muito amigas condolências” à família. Em nota de pesar publicada na página da Presidência da República na Internet, na qual Marcelo Rebelo de Sousa destaca o cariz “inovador e lutador” do empresário, que apostou “com sucesso na internacionalização das suas marcas”. E lembra que, entre muitas outras distinções, Fernando Guedes foi agraciado, em 2017, pelo chefe de Estado, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Valores

De facto, uma das maiores preocupações de Fernando Guedes era a preservação dos valores. Quase pedia desculpa “quando explicava que o bem-sucedido percurso da Sogrape assenta nos valores da educação de uma família antiga, que viveu sempre da agricultura e sempre cultivou o respeito pelo próximo como forma de estar, recusando-se a encarar o lucro como objetivo primeiro”, lê-se na nota biográfica elaborada pela empresa.

“Costumo dizer que os acionistas a quem só o dividendo interessa não se sentirão bem na Sogrape. Porque a nossa aposta na criação de valor visa, acima de tudo, fazer crescer o negócio e valorizar o património humano. Sempre fomos assim: é uma questão de educação e de cultura”, cita a mesma nota.

Mas estava tranquilo quanto ao futuro do grupo e achava que, após a sua aposentação aos 70 anos, a empresa iria ficar em boas mãos – “até mesmo em melhores mãos” -, já que considerava os seus filhos mais bem preparados tecnicamente para assumir o comando das operações – prossegue a nota biográfica.

A pensar no longo prazo, deixou outra orientação. Segundo a empresa, não perdia a esperança de que a maioria doo capital da Sogrape permanecesse na família e que algum dos seus dez netos ingressassem no grupo. No entanto, deixou bem claro: “As pessoas da família devem exercer funções pelos seus méritos e não por herança”.

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