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Mars. “Se queremos ser um negócio sustentável temos de mudar a agricultura”

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Barry Parkin, responsável global pela sustentabilidade da Mars, explica em entrevista como a Mars está a mudar o seu negócio e a ganhar com isso

Mudar o negócio em uma geração. É o desafio que a Mars tem em cima da mesa. E o gigante dono da M&M’s, da Snickers ou da Uncle Ben’s está pôr dinheiro onde está a fazer as suas promessas: mil milhões de dólares para transformar a sua operação.

Para isso, está a mexer em toda a sua cadeia de valor, não só nas cerca de 150 fábricas que tem espalhadas pelo mundo, como junto aos seus fornecedores e o cerca de 1 milhão de agricultores que produzem matérias-primas base para o negócio da multinacional alimentar.

Barry Parkin, Chief sustainability, health & wellbeing Officer da Mars, em entrevista ao Dinheiro Vivo explica como a companhia está a mudar o seu negócio e ainda a ganhar com isso.

A Mars está a investir mil milhões de dólares para tornar a companhia sustentável em uma geração. Que balanço faz desta iniciativa?
Estamos a acelerar o que pretendemos fazer dentro da nossa operação. Temos cerca de 150 fábricas pelo mundo e comprometemo-nos a ser carbono zero nessas operações. Temos vindo a acelerar na área das energias renováveis, fazendo vários acordos, como fábricas de vento construídas por nós. Temos já 14 países com 100% de eletricidade com origem em energia renovável.

Temos também muito trabalho a ser desenvolvido a jusante, na agricultura. A Mars é um negócio alimentar, com cerca de 1 milhão de agricultores a produzir matéria-prima para nós. Se queremos ser um negócio sustentável temos de mudar a agricultura. Muitos projetos foram iniciados em diferentes matérias-primas: arroz, menta, baunilha, óleo de palma, cacau, peixe… Começámos projetos no terreno que visam gerar benefícios mútuos, onde o agricultor obtém um benefício, por norma, um grande aumento no seu rendimento, onde o planeta sai beneficiado, por exemplo, através do uso de menos água, e onde nós obtemos um benefício em termos de segurança das matérias-primas.

Por exemplo, o Uncle Ben’s tem arroz Basmati, que vem do Paquistão. Nesse país, falámos com centenas de agricultores e colocámos em marcha melhores práticas agrícolas, que resultaram numa redução de 30% do uso de água; em 30% de aumento do rendimento do agricultor e 30% de redução de custo. É o tipo de projeto, com essa escala, que estamos interessados.

Que outras ações estão a levar a cabo para ajudar a comunidade de agricultores?

Há três anos lançámos o Livelihood Fund for Family Farming, fundo que vai gerir uma série de ações ao longo da cadeia de fornecedores. Fizemos um co-lançamento com a Danone e o objetivo é atingirmos 200 mil agricultores nos próximos 10 anos. O objetivo é duplicar o rendimento dos agricultores e, ao mesmo tempo, sequestrar mais carbono e reduzir o impacto no consumo de água.

Em 2017, em Madagáscar, avançámos com um projeto em torno da baunilha. Madagáscar é um dos países mais pobres do mundo, com preços muito voláteis na baunilha. Entrámos, assumimos um compromisso a longo prazo de compras com a comunidade, estabelecemos um preço mínimo da baunilha, garantimos-lhes um rendimento para os próximos 10 anos. Além disso, fornecemos melhor material de plantação, práticas agrícolas. Também construímos com a comunidade uma unidade de processamento. Com isto, não só obtêm um preço garantido no seu produto, como com esta unidade podem avançar na cadeia de produção, permitindo triplicar o seu rendimento. Ao mesmo tempo conseguimos melhorar a situação ambiental e garantirmos o fornecimento de produto.

Estes projetos mudam a vida das pessoas. Pegamos em comunidades em que as crianças mal podem ir à escola, para uma situação em que podem enviar os filhos para a universidade. Estamos a replicar este tipo de projetos pelo mundo, 3 a 4 por ano, com diferentes produtos, em diferentes geografias. Ainda temos de cobrir a maioria da cadeia de fornecedores com este tipo de projetos.

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Houve muita polémica em torno do negócio de petcare da Mars, e não só, por causa da pesca não regulamentada e trabalho forçado na Ásia, mercado fornecedor de matéria-prima. O que está a ser feito para garantir que os produtos não têm origem nestas fontes, como se comprometeram?

As condições de pesca, em particular na Ásia sudeste, são de trabalho escravo. É um problema endémico em toda a indústria de pesca dessa região. Todo o sector da pesca tem um desafio, com pesca não regulamentada, tráfico de trabalho forçado. Estamos a trabalhar com os nossos fornecedores e com outras empresas que estão a comprar na região para mapear as mudanças que têm de ocorrer. Muito passa por transparência: por saber a origem da matéria-prima e chegar aos trabalhadores, ouvir a sua voz. Colocámos tecnologia de satélite nos barcos de pesca, que permite aos trabalhadores estar em contacto com terra – antes ficavam meses em mar alto -, monitoriza onde está o navio, quem está a bordo e as capturas. Tudo tem de ficar registado.

Quando tens transparência podes começar a identificar os bons e os maus operadores, podemos dar informação às autoridades e começar a resolver o problema. Mas isto é realmente difícil de resolver, temos de trabalhar em conjunto com os governos. No final, é um desafio de direitos humanos e é a principal responsabilidade dos governos resolvê-los. O nosso papel é trabalhar com o governo para fazer o mais rápido que conseguirmos progressos nestes temas.

Já ocorreram situações em que detetaram um problema e decidiram não trabalhar mais com este fornecedor?

Sim. E o mesmo com fornecedores que fornecem as nossas fábricas. Se identificamos um problema, damos ao fornecedor a oportunidade de o resolver, caso decida não o fazer escolhemos não trabalhar com ele. Não queremos trabalhar com negócios que não partilhamos os nossos valores.

 

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Já têm fábricas em 14 países que usam apenas energia renovável na produção. Qual o próximo passo?

Chegar a todos os países, porque temos o compromisso de ter 100% de energia renovável até 2024. Vai levar uma geração. Começamos com os grandes países com mais fábricas, como os Estados Unidos (40), os próximos serão China, Rússia. Em Portugal, temos de encontrar uma solução para a peugada de carbono deste escritório. Vamos encontrar uma solução em Portugal nos próximos anos.

Muito importante relativamente a este tema da energia: estamos a poupar dinheiro com cada acordo. Estamos a comprar energia renovável mais barata do que eletricidade produzida por energias fósseis. E isso é crucial. Isto não é caridade, filantropia, isto é negócio. Não há motivos para que qualquer companhia não possa fazer isto.

Que poupanças estão a obter?

Estamos a poupar milhões em cada projeto que fazemos.

Muitos grupos multinacionais têm promovido mensagens de sustentabilidade, por exemplo, em torno do plástico. É suficiente? O que mais pode ser feito?

Se olhar para o sector da alimentação e bebidas e para empresas como a Mars, a Unilever ou a Danone são boas companhias, têm valores fortes. Em geral, diria que estão a fazer as coisas certas. Estamos a trabalhar coletivamente em pôr cobro à desflorestação, nas embalagens de plástico, no desperdício alimentar e no tema do trabalho forçado. Esse nível de colaboração não existia há 10 anos. Há empresas a trabalhar sozinhas, mas empresas a trabalhar em conjunto é realmente poderoso. Mas, o ator crucial que precisa de trabalhar connosco é o governo. Parcerias fortes com os Governos é o que permite acelerar a mudança. É um trabalho duro e, por vezes, difícil. Tivemos alguns casos de sucesso, como mo cacau. A África Ocidental produz 70% de cacau no mundo, em dois países, Costa do Marfim e Gana, conseguimos uma forte parceria público-privada entre a indústria e esses dois governos nos últimos dois anos, sob a bandeira do cacau, que acabou com o desflorestação nesses países.

Além do plástico, qual o próximo tema a unir a indústria?

O plástico é um tema complicado de resolver. Tem sido um material fantástico para a indústria: do ponto de vista de segurança alimentar, como é incrivelmente leve, não aumenta a pegada de carbono; é super conveniente para o consumidor, é fácil colocar a marca. Toda a indústria tem crescido em cima das costas do plástico. O desafio é que muito pouco plástico é reciclado e muito acaba ou em aterros ou nos oceanos. Toda a indústria está a correr para transformar o plástico numa economia mais circular.

É o desafio da indústria, mas, como em tudo o resto, requer cooperação dos governos, porque a maioria dos sistemas de reciclagem no mundo são geridos por governos. Temos de fazer o nosso trabalho em termos de design da embalagem, para que possa ser recuperada, e depois teremos de trabalhar com os governos, em termos do investimento necessário na infraestrutura, e com os consumidores para os ajudar fazer escolhas acertadas sobre o que compram (uma embalagem com material reciclado) e sobre o que fazem mais tarde com a embalagem.

Há objetivos de redução muito ambiciosos.

Muitas das nossas embalagens são tecnicamente recicláveis, o problema é que são muito pequenas e não são separados corretamente num processo de reciclagem industrial. O segundo problema é que não valem nada: são tão leves, porque levamos 50 anos a fazê-los mais finas. Já uma embalagem PET da Coca-Cola vale alguma coisa. Temos de encontrar soluções diferentes, o que poderá passar por materiais diferentes e até é possível que regressemos ao papel. Há 40 anos esses chocolates (aponta para vários chocolates da Mars) eram embalados em papel. Não estou a dizer que essa é solução, mas estamos olhar para tudo, porque a atual solução não é sustentável.

Para quando uma solução?

Temos o compromisso de que 100% das nossas embalagens sejam recicláveis em 2025. Não quer dizer que 100% das nossas embalagens sejam recicladas até lá, isso dependerá da infraestrutura, mas a parte que podemos controlar é como desenhamos a embalagem.

Temos alguns desafios por resolver, mas conseguimos ver o caminho, os desafios de trabalhar com o resto da indústria e com o governo para desenhar e construir os sistemas de reciclagem que precisamos.

 

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Em Portugal, apenas 40% dos materiais são reciclados, longe dos 100% que ambicionam. Que desafios a Mars enfrenta neste mercado?

Reciclagem convencional não será a resposta total. Não podemos assumir que todos os consumidores vão colocar os materiais nos sítios próprios para reciclagem. Estamos a olhar para um conjunto de soluções: desde materiais biodegradáveis até novas tecnologias para recuperar os materiais de formas diferentes. Ainda não sabemos qual é a resposta certa. Estamos a investir a fazer pilotos com os nossos concorrentes para encontrar novas soluções. Penso que vamos ter mudanças muito significativas ao modelo de negócio. Não sei onde iremos parar, mas iremos resolver isto.

Com marcas tão conhecidas como a M&M’s, Snickers… De que modo estão a usar o poder das vossas insígnias para sensibilizar os consumidores para a sustentabilidade?

Temos feito várias iniciativas. Com o arroz do Uncle Ben’s fizemos uma ação em loja em cerca de 9 países europeus, com o Metro. Com essa única atividade no Paquistão poupamos dois copos de água para toda a gente no planeta. E falamos disso em loja e vendemos mais produtos. É um bom exemplo de win win. É bom para o retalhista, para nós, mas também para os consumidores que se sentiram bem em comprar Uncle Ben’s porque fazia bem ao planeta e aos agricultores. É esse tipo de exemplos que temos de continuar, em que os consumidores podem ter um papel ativo na compra: podem comprar produtos mais sustentáveis e sentir-se bem por isso.

Penso que vai acontecer algo através da embalagem, é algo muito tangível. É por aí que nos iremos ligar aos consumidores nos próximos anos. Temos o programa Lion’s Share em que, cada vez, que usamos um animal num anúncio, colocamos de parte algum dinheiro para conservação. Só para fazer uma ligação muito direta de que estamos a beneficiar destes lindos animais a vender produtos e temos de devolver algo. Se podermos escalar isso, envolver mais empresas, é um mecanismo muito direto para obter mais financiamento para a conservação da vida selvagens. Somos um dos membros fundadores, mas há outros parceiros a serem recrutados.

Mais e mais companhias estão a ver o benefício deste tipo de atividades. Esta é uma estratégia que ou traz um benefício direto para o negócio, pode gerar um benefício ao ativar com os consumidores, reduz os custos na cadeia de produção ou, então, torna a tua marca corporativa mais atrativa. Sabemos que para as gerações que queremos atrair isto é significativo para eles: querem trabalhar para empresas que estão seriamente a fazer a coisa certa.

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