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“Gastam-se milhões em investigações de aplicabilidade muito reduzida”

Paulo Gaspar considera que a investigação feita nas universidades devia ter uma orientação mais comercial e orientada à resolução de problemas reais.

Paulo Gaspar, Chief Information Officer (CIO) da Lusiaves, criou o fundo Casper Ventures, e está apostado em investir em startups com projetos disruptores.

Tendo conhecido outras realidades europeias, nomeadamente a inglesa, como vê o empreendedorismo em Portugal?

A evolução tem sido muito positiva. O início da Startup Lisboa trouxe uma nova dinâmica à temática do empreendedorismo e das startups. O tema começou a ficar, cada vez mais, presente na mente dos portugueses e isso provocou um efeito de sensibilização e uma alteração cultural muito importante. O trabalho que o João Vasconcelos, ex-secretário de estado da indústria, fez foi muito interessante ajudando a promover Portugal e os seus empreendedores, e mudar mentalidades no sector privado e público. Iniciativas como a do Fundo 200M, o fundo de apoio a Business Angels, ou o Startup Visa e o Startup Voucher, são soluções que Portugal importou de países como os EUA, Alemanha e Inglaterra. Ou seja, aproveitámos os melhores exemplos do que se faz ao nível mundial e colocámos Portugal no top europeu. Mas há ainda um longo percurso para fazermos catchup às grandes capitais empreendedoras. Exemplo disso são as grandes startups a deslocalizarem-se para Lisboa ou grandes conglomerados tecnológicos como a SAP e a Siemens a reforçarem presença em Portugal, e empresas como a Mercedes, a Natixis, ou até a SIBS Processos a criarem centros de competências e de inovação em Portugal.

O que está a faltar neste grande ecossistema que liga inovação, empreendedores e grandes empresas, para Portugal ter uma economia realmente inovadora?

Estamos no bom caminho: temos o talento, já temos financiamento, temos uma das melhores infraestruturas tecnológicas da Europa e os empreendedores portugueses já têm o mindset necessário. Faltam-nos mais casos de sucesso e ter esses casos de sucesso a alimentar novos casos de sucesso. Por exemplo, uma das coisas que torna Silicon Valey num lugar tão mágico é o facto dos vários “founders”, que foram fazendo as suas “exits”, pegarem nesse dinheiro e injetarem-no de volta na comunidade empreendedora, alimentando novos projetos de sucesso. Este efeito bola de neve dura há muito tempo, no entanto, em Portugal ainda não começou. Talvez quando começarmos a ter grandes startups portuguesas a ter esta mentalidade e a fazer os seus exits reinvestindo o seu tempo e dinheiro no ecossistema empreendedor português, nós possamos ver uma aceleração ainda maior no ecossistema.

Por outro lado, também fazem falta alguns fundos internacionais a apostarem em Portugal para colmatar o chamado “funding gap”. Vemos em Portugal muitos Angel Investors e fundos de VC, no entanto que não estão a cobrir todo o espectro de necessidades de financiamento das startups. Se por um lado, temos uma enorme quantidade de investidores early stage, que investem montantes entre os 50 mil euros e os 500 mil euros, por outro temos muitos fundos de VC focados em etapas mais tardias, onde já investem em empresas mais maduras, acima dos 2 milhões de euros. Mas no intermédio, a quantidade de investidores é bastante reduzida, e se não fosse a persistência e dedicação de fundos (público-privados) como a Portugal Ventures o gap seria ainda maior.

Por fim, diria ainda que é raro em Portugal vermos as grandes empresas de mãos dadas a startups de sucesso e a incorporarem-nas nos seus grupos. Este é também um dos passos que está em falta: que a mentalidade “startup” nasça também nas grandes empresas fomentado ainda mais a inovação e colaboração entre os dois mundos.

O que pensa da qualidade da inovação promovida em Portugal?

Acho que existe excelente qualidade na inovação made in Portugal, mas não necessariamente na que é promovida. Existem projetos extremamente inovadores que a maioria das pessoas não conhece, nem faz ideia do impacto que têm na vida dos portugueses, e além-fronteiras. Falamos de tecnologias desenvolvidas por empresas como a Graphenest e a Feedzai.

Acredita que a ligação entre o conhecimento académico e a comunidade empresarial está a melhorar cada vez mais? Ou seja, há cada vez mais interesse por parte das empresas em incorporar investigação desenvolvida nas instituições de ensino?

O interesse das empresas em incorporar investigação útil sempre existiu, mas existem dois problemas que continuam a retrair muito o envolvimento entre empresas e a comunidade académica: por um lado, as universidades e outras instituições de investigação ainda não conseguiram adaptar-se ao ritmo das empresas. É normal os projetos demorarem anos a iniciar, anos a desenvolver, e mais anos a darem os primeiros resultados. Isto tudo devido a um sistema extremamente burocrático que vigora nesses institutos. O facto da maioria destes projetos de investigação assentarem em investimento co-financiado por fundos europeus também não ajuda.

Por outro lado, falta a estas instituições um sentido prático e objetivo. É muito normal, gastarem-se milhões em investigações de aplicabilidade muito reduzida e de impacto económico potencial muito baixo. Há investigadores ainda muito focados na carreira académica e na quantidade de estudos publicados, que deviam ter uma orientação mais comercial e orientada à resolução de problemas reais das empresas. Apesar disto, a evolução é grande, e estamos a caminhar na direção certa. É preciso acelerar o passo e destruir as barreiras que ainda existem a estas colaborações.

E como avalia o mercado de investimento em startups nacionais? Muito embrionário ainda, em fase de arranque? O que se perspectiva?

O que tenho visto no mercado é mais uma falta de bons projetos do que propriamente de financiamento. No entanto, como referi atrás, há também um intervalo onde existe alguma falta de investimento.

Em que fase está a constituição do fundo Casper Ventures e em que sectores quer apostar?

A Casper Ventures é um fundo de investimento próprio, financiado por capitais próprios. Focamo-nos em investimentos em startups que estejam a criar inovação e disrupção nos sectores do futuro da alimentação, do futuro empresarial (economia dos algoritmos, inteligência artificial, tecnologia blockchain), e futuro do entretenimento (realidade virtual e aumentada, new media, entretenimento experiencial), e temos vários investimentos realizados como a Funnyhow – uma das mais disruptivas agências de publicidade do país, a Hubble HQ – o airbnb de escritórios líder em países como Inglaterra, Code Kingdoms – jogo para crianças que as ensina a programar, a Permutive – plataforma de personalização de experiências online em real time, a Echobox – uma empresa que utiliza inteligência artificial para criar os conteúdos que geram os melhores resultados online, entre outras. Temos um portfólio de startups que nos orgulhamos, e estamos constantemente à procura de novos projectos onde possamos aportar valor e ajudá-los a crescer.

De que forma irá pôr em prática os seus conhecimentos e experiência adquirida na Hoxton Ventures? Que experiência foi essa?

Foi na Hoxton Ventures, em Londres, que tive oportunidade de contactar mais de perto com um dos ecossistemas empreendedores lideres mundiais, interagindo com projetos fantásticos e inovadores que me permitiu ganhar o know how necessário para melhor detetar projetos vencedores, e quais as melhores formas de escalar rapidamente uma startup para o sucesso. Exemplos disto são o excelente portefólio que a Hoxton Ventures tem, como a Deliveroo que já usufrui do raro estatuto de startup “unicórnio”.

 

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