debate sobre saúde

“A tecnologia tem de dar inteligência à informação”

Nuno Vasco Lopes, CEO da Glintt - Global Intelligent Technologies
Nuno Vasco Lopes, CEO da Glintt - Global Intelligent Technologies

É para as tecnologias da informação para a saúde, que já representam cerca de 75% do seu volume de negócios, que a empresa portuguesa Glintt quer continuar a orientar-se. Prepara-se para contratar 200 colaboradores até ao final de 2017 e investir 15 milhões de euros em I&D nos próximos cinco anos.

Reflexão sobre cenários de futuro na saúde

Pela primeira vez este ano, a Glintt lançou o evento HINTT – Health Intelligent Talks & Trends para debater a Saúde 4.0, o estado do setor da saúde a nível nacional e internacional, com foco no cidadão e na tecnologia. Teve lugar no dia 4 de outubro na Fundação Champalimaud e trouxe a Portugal um convidado de referência internacional, Bertalan Mesko. O autodenominado “Futurista da Medicina” partilhou a sua visão inovadora e disruptiva sobre a transformação digital na saúde e promoveu um debate entre profissionais de saúde, gestores, indústria, academia e cidadãos. No mesmo dia, John Rayner, diretor regional do HIMSS para a Europa, apresentou um estudo sobre a Maturidade Digital nas Unidades de Saúde em Portugal e na Europa.

O Dinheiro Vivo esteve à conversa com Nuno Vasco Lopes, CEO da Glintt – Global Intelligent Technologies

Com mais de 20 anos de experiência em resultado de um processo de fusão, as suas soluções são hoje usadas em cerca de 80% das unidades de saúde em Portugal. “Os grandes hospitais nacionais têm pelo menos uma solução Glintt – entre soluções integradas ou apenas módulos”, explicou-nos Nuno Vasco Lopes, CEO da Glintt – Global Intelligent Technologies.

As suas soluções dão resposta a vários serviços de uma mesma unidade hospitalar, da admissão do utente, prescrição, registo de atos e medicamentos, à faturação e relação do utente com a unidade a partir da sua casa. Onde quer chegar esta organização ibérica gerida a partir de Lisboa, num momento em que o que conta é a experiência ou jornada do paciente desde que entra até que sai de uma unidade de saúde?

A Glintt diz ser líder na área das tecnologias de informação específicas para a saúde em Portugal. Quais são as vossas soluções estrela?

O grande desafio de hoje é o processo clínico. Ou seja, encontrar soluções que permitam que os profissionais de saúde e os responsáveis pela gestão possam tomar as melhores decisões, as mais informadas. Este é o grande tema nesta altura. Tanto afeta as soluções de gestão como as de suporte ao processo clínico.

Fundamental é ainda garantir uma maior eficiência das nossas soluções nos hospitais. Hoje, como as restrições orçamentais são tão significativas, procuramos soluções mais eficientes. A tendência global é que o investimento em Tecnologias da Informação (TI) seja cada vez maior. Tudo o que contribua para a melhoria dos cuidados de saúde é uma prioridade para as unidades de saúde. O nosso papel é oferecer soluções que garantam mais e melhor informação, bem como maior eficiência na gestão.

Onde é que os hospitais estão a investir mais?

Na melhoria da experiência dos pacientes. Todos trabalhamos para que seja o próprio paciente o maior beneficiário da inovação que produzimos.

Como?

Através de soluções de mobilidade, garantindo que a tecnologia está o mais perto possível da sua cama no internamento, por exemplo, ou, quando sai da unidade, mantendo a experiência e o contacto através de dispositivos que o ligam ao hospital sem que tenha de se deslocar.

A outra área em que reconhecemos haver grande aposta por parte dos hospitais é a melhoria da eficiência de toda a operação através da disponibilização da informação em tempo real – esta permite tomar decisões com informação atualizada, tanto de cariz generalista como adequada a cada contexto específico. O aspeto que hoje é crítico nas unidades hospitalares é a informação. A tecnologia tem de dar inteligência à informação.

A atenção que têm dado à logística aplicada às farmácias tem gerado frutos. Como conseguem reduzir a despesa nas farmácias hospitalares?

A solução com maior sucesso, em que somos líderes destacados, é a da logística das farmácias. Como é uma área que tem muito impacto na despesa dos hospitais, a Glintt é procurada no sentido de propor a melhor opção para cada hospital, mediante as suas necessidades. Atualmente, 90% das farmácias portuguesas têm soluções Glintt. Em Espanha são cerca de 55%. Somos o maior operador ibérico no circuito do medicamento. Ao todo, na Península Ibérica, temos 14 mil farmácias que usam as nossas soluções. Vemos a adaptação ao regulamento espanhol como uma oportunidade.

A Glintt tem uma visão transversal da saúde e consegue acompanhar a jornada do doente: desde o seu estado saudável, com aplicações móveis, por exemplo, até aos cuidados de saúde primários e domiciliários. Todo este conhecimento faz com que possamos acrescentar valor ao nível da tecnologia e dos processos de trabalho dos prestadores de saúde.

Como assim?

Estamos a investir na consultoria de negócio. Esta área trata dos processos de trabalho, da forma como as coisas são feitas. Além de sermos fornecedores de tecnologia, olhamos para os processos e introduzimos metodologias com vista à melhoria contínua. Temos já boas experiências em projetos de otimização de blocos operatórios e em farmácias, em que implementámos processos novos de marketing, gestão financeira, gestão de recursos humanos e físicos e logística. Em todos os casos conseguimos medir, mostrar vantagens económicas e satisfação dos utilizadores.

Qual o peso do investimento em I&D e inovação que a empresa tem feito?

A Glintt é dona dos seus produtos. Em vez de integrar soluções de terceiros como muitas tecnológicas fazem, desenvolve e implementa as suas próprias criações. Este ano estamos a investir cinco milhões de euros apenas na nossa solução hospitalar. Nos próximos cinco anos vamos investir mais de 15 milhões de euros em I&D.

Para que projetos estão a orientar essas verbas?

Para projetos de experiência do utilizador e de construção de novas funcionalidades. Temos parceiros fortes na tecnologia, sendo que a nossa preocupação é responder às novas necessidades da saúde a nível do processo clínico e da capacidade do profissional em decidir melhor. Os sistemas hoje alertam para riscos e danos colaterais sobre determinada decisão, por exemplo, na prescrição de medicamentos. A nossa solução MedH tem essa função e está implementada em 12 hospitais públicos. Já a solução Easy Hospital, orientada para melhorar a jornada do paciente, pretende garantir que se move no hospital de forma informada, bastando para isso possuir e saber usar um smartphone. Está a ser implantada, em fase de projeto – piloto, num hospital do Norte de Portugal.

Qual é a vossa estratégia para continuar a liderar?

Queremos diferenciar-nos pela qualidade e não pelo preço. Para isso temos de investir em inovação e em pessoas qualificadas. Mas temos um desafio. A procura de recursos competentes em tecnologia é maior do que a oferta. Como cerca de 60% do investimento nas organizações é digital, há muitas empresas à procura de quadros competentes.

Através da Academia Glintt contratámos 100 novos colaboradores dos 1400 candidatos. Mas este número não chega para cobrir as nossas necessidades para um ano. Precisamos de 200 colaboradores no total. A retenção é outro desafio. E aqui temos investido muito. Alterámos profundamente as carreiras e os esquemas de remuneração – estão mais agressivos e dinâmicos.

Quanto tempo levam a lançar uma nova solução?

Como temos mais de 20 anos na área da saúde, nunca partimos de uma folha branca. Conhecemos os clientes. Todos os anos atualizamos as nossas soluções e levamos cerca de um ano para lançar uma nova solução, ou update de uma anterior.

Como é que a Glintt prepara os desafios da saúde 4.0?

Focando-se na área da saúde e nas suas duas famílias de produtos: soluções de farmácia e soluções para o mercado de cuidados de saúde.

O investimento que fazemos dirige-se à adaptação das soluções que temos à realidade da cloud, à mobilidade e à interoperabilidade com outras soluções. Um bom exemplo é a nossa parceria com a Samsung, que, na Europa, selecionou a Glintt para desenvolver software para os seus equipamentos na área da saúde. Estamos ainda a criar uma nova solução de cloud para o mercado da saúde, desta vez com a Oracle. Garantimos aos clientes uma redução sobre o investimento no armazenamento dos dados, bem como a integridade e a localização dos dados no espaço português.


GLINTT

Global Intelligent Technologies

Fundação: a Glintt nasce em 2008, mas tem um historial com mais de 20 anos, porque resulta da fusão de várias empresas do setor

Setores onde atua: desenvolvimento de tecnologia e consultoria nas seguintes áreas: Serviços Financeiros, Telecomunicações e Administração Pública

Volume de negócios: 66 milhões de euros (2016)

Centro de I&D: localizado no Porto, emprega 200 colaboradores que só pensam software para soluções hospitalares globais e para farmácias em Portugal.

Colaboradores: 950 (mais 200 pessoas que serão contratadas até final de 2017)

Mercados onde está presente: possui 10 escritórios em seis países: Portugal, Espanha, Angola, Brasil, Reino Unido e Irlanda.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Ministro das Finanças, Mário Centeno. Fotografia: REUTERS/Rafael Marchante

Finanças cortam 11% na verba para descongelar carreiras em 2019

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte REUTERS/Alessandro Bianchi

Itália não cede a Bruxelas e mantém orçamento

Fotografia: JOSÉ COELHO/LUSA

Vieira da Silva admite que 600 euros são “ponto de partida”

Outros conteúdos GMG
“A tecnologia tem de dar inteligência à informação”