Gonçalo Lobo Xavier: "Subida de preços na cadeia de produção vai refletir-se no cabaz"

Secretário-geral da APED considera inevitável que o encarecimento de matérias-primas, energia e logística chegue ao consumidor. E espera um novo governo "não dificulte a vida às empresas".

A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) representa mais de 4 mil lojas e 130 mil trabalhadores. Em 2020, as vendas caíram 1,5%... mas a pandemia atingiu de forma diferente os vários setores: se o vestuário recuou mais de 30%, o retalho alimentar subiu 8%.

A Autoridade da Concorrência (AdC) tem acusado algumas das principais marcas da distribuição de fixação de preços, de comportamentos de cartel ou próximos disso. O setor da distribuição lida mal com o mercado livre?
Não, pelo contrário. Somos um setor bastante regulado e auditado e vivemos com tranquilidade com a livre concorrência. A prova mais cabal disso é que continuamos a mostrar muita vontade e apetência para investidores, a abrir lojas, a receber novas insígnias: a APED já vai em 170 associados. E ainda valida mais esta atitude o facto de estarmos hoje a fazer a transposição de uma diretiva para a qual demos enormes contributos junto do Ministério da Economia, a Unfair Trading Practices; temos ainda um código de práticas comerciais subscrito pela maioria dos associados. Não comentamos casos específicos, mas há muita tranquilidade e recetividade; toda a nossa atividade é muito transparente e está constantemente a ser auditada - e não vemos problemas nisso.

Então como se explica que nos últimos anos isto aconteça de forma repetida?
É uma pergunta que teria de ser feita à AdC. Esses processos, tanto quanto sabemos, não tiveram ainda consequências práticas, estão a ser investigados. E enquanto setor vemos com muita naturalidade que sejam investigados e se verifique que não há más práticas.

E de que forma é que isto afeta a imagem do setor?
Os últimos 20 meses vieram ajudar a valorizar muito a visão de um setor que tem sido fundamental para a economia portuguesa e para a manutenção de alguma normalidade na vida das pessoas. Foram 20 meses muito difíceis, com grandes desafios, e quer o retalho alimentar quer o especializado deram provas de resiliência e capacidade de reinvenção que resultaram no bem-estar das famílias, ao assegurar que não lhes faltaram bens essenciais. É a melhor resposta que podemos dar em sustentabilidade do setor e representatividade para Portugal, os portugueses e a economia.

Nesta sexta-feira foi a Black Friday, segunda é a Cyber Monday. Como vê os avisos da Direção-Geral do Consumidor, que pede prudências e dá dicas para evitar que as pessoas sejam enganadas?
É importante que as entidades competentes façam esse papel. No universo dos nossos associados, há enorme transparência. Há legislação em vigor e a ASAE está todos os dias a visitar-nos e a verificar se, no que respeita a promoções, cumprimos. Está em consulta pública uma alteração à lei dos saldos e promoções que visa sobretudo atualizar as práticas e o que é razoável com benefício para o consumidor - e nós demos contributos. Por exemplo, temos obrigação de indicar o valor mais baixo dos últimos 90 dias antes da promoção, para que se tenha noção do benefício real. E não tenho registo de qualquer incumprimento dos associados da APED. Há melhoria e constante fiscalização, contacto com Secretaria de Estado do Comércio e a Direção-Geral de Atividades Económicas. Tudo isto nos permite olhar essas questões com enorme tranquilidade. São recomendações normais que decorrem da atividade das instituições e vemos isso como algo importante.

Essa melhoria permitirá reduzir as multas? Nos últimos dois anos a ASAE aplicou 1,5 milhões de euros de coimas a cerca de 1800 situações irregulares...
Tenho esses dados e do milhão e meio de coimas, que foram contestadas pelos associados, só 10% se concretizaram.

90% foram invalidadas?
Mostraram-se injustificadas porque ficou provado que não havia esse dolo. Isso é um sinal muito positivo - e de que às vezes à mulher de César não basta ser, é preciso parecer.

E não é sinal negativo sobre a ação da ASAE?
Não. Nós temos uma relação muito próxima com a ASAE, que nos ajuda, há muita legislação que do ponto de vista operacional é de aplicação difícil ou dúbia e frequentemente fazemos em conjunto um trabalho de perguntas e respostas para que quem está a aplicar a lei possa consultar o que pode ou não fazer. Isso resulta dessa relação de proximidade, que tem de haver. Olhamos para a ASAE não como polícia de costumes mas como instituição que cumpre o seu papel de moralização. Nós representamos parte substancial da economia, 11% do PIB, mas não são todos associados da APED. E muitas dessas coimas estão fora do nosso universo - no nosso, estamos satisfeitos com o trabalho desenvolvido. O resultado dessa redução na concretização das coimas é sinal de que há cooperação e entendimento e que certas questões levantadas não faziam sentido.

Há pouco mais de seis meses afirmou que receava uma queda do emprego no setor em 2021. Como conta terminar o ano?
Há um sinal positivo. Nos primeiros seis meses, abrimos mais 39 lojas e nos segundos, não tendo ainda dados oficiais, entre retalho alimentar e especializado temos indicadores muito positivos sobre aberturas. O que significa que continua a haver investimento e vontade de apostar em Portugal - insígnias nacionais e internacionais. Depois de passar esta tormenta e de um período de alguma dúvida - qualquer investidor olha para o futuro com um grau de incerteza grande -, felizmente vemos no setor uma recuperação. Nos últimos seis meses, mantivemos um nível de faturação e crescimento no alimentar muito semelhante ao do ano anterior - muito condicionado pela pandemia e confinamentos - e desde setembro que assistimos à recuperação do especializado. Há uma mudança comportamental interessante: há menos idas aos espaços comerciais, mas quando se vai o ticket de compra é muito maior do que antes.

Compra-se mais coisas?
Compra-se mais de uma vez e faz-se uma preparação para a experiência de compra com uma conjugação do online com a presença em loja.

Estão também a sentir dificuldades em contratar mão-de-obra?
Fazemos parte desse grupo. Não vou entrar em questões de análise sociológica ou política que ouvimos muito a comentadores sobre ser mais vantajoso para muitas pessoas estarem nos subsídios do que a trabalhar. Os setores têm de fazer o seu próprio caminho na valorização do trabalho que representam - nós estamos a fazê-lo. É preciso dar condições às pessoas para que possam fazer uma carreira no retalho, valorizar esse percurso profissional, que se perceba o benefício que podem ter numa carreira, em vez de estarem parados - os apoios sociais são fundamentais, mas é muito melhor estar a trabalhar e ter uma perspetiva de futuro. Nós estamos a fazê-lo valorizando a carreira, dando melhores condições. E isso não passa só pelo salário de entrada acima dos 705 euros que vamos ter em 2022.

Esses 705€ então não serão problema para a distribuição?
O SMN é uma referência para muitos contratos coletivos de trabalho. Nós estamos numa negociação que já vai longa com os sindicatos do setor, mas sempre a tentar inovar. E defendemos que a negociação de um contrato coletivo não se esgota no SMN ou nas questões salariais - que têm um peso importante, mas há outras temáticas que devem ser valorizadas, como a regulação do teletrabalho, os apoios à família, à formação, o cumprimento da lei em termos de condições de trabalho, questões ligadas a perseguições em relações laborais. Julgo que estamos numa fase decisiva desse processo com os sindicatos e espero ter notícias boas nos próximos meses. Não sou irritantemente otimista como o primeiro-ministro mas sou-o relativamente em termos do que se deve apresentar para valorizar carreira e setor junto dos sindicatos.

As compras online cresceram muito em 2020. Continuam?
Houve nos primeiros meses da pandemia um crescimento notável no online: fechámos 2020 com 300% ou 400% a mais e obrigou-nos a avançar quase cinco anos na valorização dessa compra. As plataformas nacionais foram notáveis a apresentar soluções tecnológicas e de eficiência e equilíbrio para o consumidor. Agora como estamos? Houve muitos consumidores a optar e ficar no online, muitos que o descobriram e usam para a tal experiência de investigar o que existe e fazer a preparação, outros para explorar um serviço que passou a ser massificado - e com as restrições em perspetiva e o aproximar do inverno cresceu o click & collect. Este equilíbrio que o online oferece, este omnichannel online/físico, trouxe crescimento que veio para ficar no online, mas que está agora a abrandar face à oportunidade de o mercado estar aberto. Os consumidores estavam ávidos de voltar à vida normal, com ida aos espaços físicos. E isto nota-se sobretudo em áreas que sofreram bastante, como moda, calçado, mobiliário ou brinquedos. Mas o crescimento do online veio trazer também uma nova dimensão, um maravilhoso mundo novo para quem está a preparar a compra com tecnologia desenvolvida em Portugal com startups. Trouxe um ecossistema de inovação muito interessante.

E o peso mantém-se?
Nós fechámos o online em 2019, no alimentar com 2% da faturação total, e em retalho especializado nos 8%. Em 2020, mais do que duplicou - só no alimentar foram 6%. Isto é um caminho que vai continuar.

Com os números da pandemia a piorar, pode crescer mais?
Pode. O online não é apenas um mercado de venda, é de exposição de produto, e muitos players com operações mais pequenas descobriram que é possível estar em parceria, em marketplaces que lhes proporcionam oportunidade de negócio. A pandemia trouxe para o ecossistema muitos retalhistas que tiveram de procurar oportunidade de se mostrarem, venderem noutras geografias. Mas a experiência em loja continua a ser muito interessante.

Sobretudo no Natal.
Sim. Nós dissemos desde sempre e os factos demonstraram-no: não é nem será nunca num espaço comercial que se transmite o vírus. Tivemos sempre espaços covid free. Mantivemos as precauções todas - o nosso interesse principal é proteger os colaboradores e assim também os clientes. Não há memória de uma cadeia de transmissão ter começado num espaço comercial, alimentar ou especializado. Estamos tranquilos com o aumento de tráfego nas lojas, que estão preparadas para isso e seguras. Não queremos é filas à porta, que essas sim geram problemas de saúde pública.

Que expectativa tem para este ano? O setor vai recuperar o volume de negócios de 2019?
Há áreas de negócio que já estão, em termos mensais, like for like, com resultados muito próximos de 2019. Setembro, outubro e a primeira quinzena de novembro já trazem recuperação. O retalho alimentar tem tido uma performance muito interessante - lembro que os três primeiros meses deste ano foram dificílimos, sem restaurantes abertos, com consequências no retalho alimentar e as pessoas a abastecer noutro tipo de compras, para casa, a ter uma alimentação mais cuidada. Houve um crescimento enorme no consumo de vinho - e desde que moderadamente consumido não tem mal nenhum. No alimentar continuámos a ter níveis de faturação comparáveis a 2020, que foi um ano excelente, mas no não especializado, desde setembro, já temos semanas comparáveis a 2019, quando estávamos a crescer significativamente. Ainda não vamos ter um ano como 2019, apesar da recuperação neste último quadrimestre, mas há uma tendência de maior satisfação.

A subida de preços de energia, combustíveis e logística e a escassez de matérias-primas estão a impactar muito a distribuição?
Estamos a ser afetados e mais do que uma crise de confiança diria que há enorme preocupação sobre como isto vai evoluir. Os preços da energia, elétrica e gás natural, estão a ter uma subida inusitada e a resposta a isso é muito difícil: Portugal, enquanto Estado-membro, nessas duas dimensões não pode fazer muito, tem de ser uma resposta europeia. No que respeita aos combustíveis fósseis, já é diferente, somos mais autónomos, e a questão tem que ver com a fiscalidade. Se me pergunta se o cabaz de preços vai aumentar, sou obrigado a dizer que naturalmente vai, porque está a aumentar toda a cadeia: energia, transportes, logística, matérias-primas, tudo. Somos um setor que procura sempre a eficiência, queremos ser eficazes na logística, sustentáveis do ponto de vista das emissões, mas este equilíbrio torna-se impossível de sustentar com custos incomportáveis nos transportes, combustíveis, etc. Tarde ou cedo, por muita eficiência que haja, vamos ter de refletir no consumidor final o valor. É inevitável. E acredite que não é pelo aumento das margens.

A distribuição tem feito investimentos consideráveis na autogeração a partir de fontes renováveis. É um caminho para reduzir custos ou ser sustentável?
É a combinação entre o desafio da sustentabilidade e o da independência energética. O ambiente é algo que diz muito a esta direção da APED, esse era um desejo fundamental deste mandato, e estamos a assistir a muitos esforços dos nossos associados para contribuírem para a diminuição das emissões. Isto faz-se com muitas ações. Por exemplo, há associados que premeiam motoristas que gastam menos gasóleo aos 100km, os camiões entram e saem dos entrepostos totalmente carregados... podem parecer ações pequenas mas têm valor relevante para a sustentabilidade. Estamos a fazer um estudo que será apresentado no primeiro trimestre sobre o roteiro da descarbonização do setor e isto importa a grandes associados como a mais pequenos, porque estas boas práticas é que nos podem ajudar a atingir as metas definidas.

Que expectativas tem para o governo que sair das eleições de dia 30 de janeiro?
Espero que seja um governo equilibrado, que olhe para a economia como algo importante para a sociedade, para as empresas como entidades que criam e distribuem riqueza, que pagam salários e impostos. Precisamos de um governo que, no mínimo, não incomode nem atrapalhe, que não aumente impostos nem crie dificuldades às operações. Que torne Portugal mais atrativo ao investimento.

Esse perfil seria atingível com um entendimento ao centro?
O centro faz sempre diferença. Sobretudo, tem de haver bom senso para entender que não crescemos nos últimos anos e não podemos continuar a ritmo lento, sob pena de hipotecar os próximos 20 anos e a geração que aí vem. Seria um desastre.

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