Cultura

Google. Arte portuguesa à distância de uma simples aplicação

Google arts and culture museu dos coches

A presença da arte portuguesa cresceu no Google Arts & Culture. Há mais 22 museus portugueses para conhecer, sem sequer ser preciso sair de casa.

A colaboração entre as entidades portuguesas e o Google Arts & Culture foi feita de estreias. Foi a primeira vez que o braço sem fins lucrativos da Google, dedicado ao mundo das artes e cultura, emprestou a sua câmara robótica, a Art Camera, para que os museus pudessem escolher a sua forma favorita de fazer a digitalização das obras de arte.

Outro “cabo das tormentas” a ultrapassar foi a digitalização de uma obra em particular, os Painéis de São Vicente de Fora, do pintor Nuno Gonçalves. Os seis painéis criaram sérios desafios à equipa de profissionais da Google – atualmente, é a maior obra já digitalizada pelo projeto, com um total de 140 mil milhões de pixels.

O projeto Portugal: Arte e Património é um esforço conjunto entre a Google, o Ministério da Cultura e a Direção-Geral do Património Cultural, incluída no conjunto de medidas do programa Simplex. O resultado desta união é a digitalização em alta resolução de milhares de obras de arte e artefactos presentes nos museus portugueses, naquilo que é descrito como uma democratização do acesso à cultura. Bernardo Correia, country manager da Google para Portugal, sublinhou outro ponto: o privilégio da preservação. “Somos a primeira geração da humanidade a poder preservar o passado; a poder preservá-lo para as gerações que aí vêm.”

Já era possível ter acesso a algumas obras portuguesas através dos canais do Google Arts & Culture – o site e a aplicação móvel, disponível para os sistemas operativos Android e iOS. Com esta novidade, há mais 22 museus portugueses que passam a ter espaço neste projeto da Google. São 80 as mostras digitais, com 18 tours em realidade virtual, que podem ser feitas recorrendo à Street View da Google.

Há quem se questione se o facto de ter vários museus na palma da mão, recorrendo ao smartphone, não será uma forma de afastar as pessoas dos museus. Amit Sood, diretor do Google Arts & Culture, que começou como programador, explica que esse receio não existe. Frisa que “a tecnologia pode ter um grande impacto no mundo da cultura” e até “criar o desejo de ver [as obras] em pessoa”. Foi isso que aconteceu com Amit Sood, que destaca o Grande Panorama de Lisboa. Ao ver o resultado da peça digitalizada, diz que só ficou com mais vontade de apreciar os azulejos ao vivo. Em muitos casos, a digitalização das peças e dos quadros é feita numa resolução tão alta que é possível apreender pormenores que não são visíveis a olho nu. Fazer um movimento de aproximar na aplicação móvel ou no computador vai revelar pormenores como pessoas a passear cães ou até viagens de barco no Tejo.

Em alguns casos, esta ferramenta da Google será mesmo a única maneira de estar perto de obras centenárias. Das três mil peças que agora chegam à plataforma, algumas delas nem sequer estão atualmente em exposição nos museus portugueses.

A lista de parceiros é extensa. No total, são 22 as instituições que agora vão juntar-se aos museus de Serralves ou Museu Coleção Berardo, que já faziam parte do grupo de parceiros do Google Arts & Culture. Na lista figuram agora o Museu do Chiado, o Museu Nacional dos Coches, o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu Monográfico de Conímbriga ou os mosteiros da Batalha e de Alcobaça, entre tantos outros.

Portugal sob os holofotes

Por estes dias, quem for ao site do Google Arts & Culture, vai ver rapidamente que a arte portuguesa está em destaque. Como Amit Sood explicou, uma das missões deste projeto da tecnológica passa por mostrar aquilo que é cultura para cada povo – tanto a tangível como a intangível. No caso português, os conteúdos são variados: há espaço para contar a história de D. Inês de Castro, com uma análise pormenorizada do túmulo, que faz parte da coleção do Mosteiro de Alcobaça.

Graças à tecnologia, é possível viajar por toda a história do amor trágico de Pedro e Inês: desde o local onde se conheceram até tempos mais modernos, com imagens de graffiti catalogados pela Galeria de Arte Urbana.

Esta colaboração com o Google Arts & Culture é uma “viagem pela história do nosso país, pela identidade” portuguesa, refere Graça Fonseca. Mas a ministra estava preparada para deixar outros dois desafios à Google: “desenvolver a figura da mulher na história e ciências portuguesas” e também o “desenvolvimento de novas linguagens para as crianças”, aquilo que apelidou de Kids Arts & Culture.

Atualmente, este projeto cultural da Google já chegou a muitas salas de aula a nível global, onde os alunos usam o Cardboard, um dispositivo de cartão para realidade virtual, para conseguir fazer visitas de estudo sem sequer sair do lugar.

A saga do empréstimo da Art Camera da Google

Helena Martins, responsável de políticas públicas da Google para Portugal, é brasileira e há mais de dez anos que trabalha na Google. Há dez meses, mudou-se para Portugal, para acompanhar o projeto de digitalização do património português.

Como foi o desenvolvimento deste projeto com as entidades portuguesas?
Fechámos o acordo de colaboração em novembro de 2017, quando fizemos o anúncio, durante a Web Summit. Temos trabalhado com as mais de 20 instituições para lançar o projeto e a verdade é que trabalhar com estas instituições todas, com o tipo de conteúdo e tecnologias que disponibilizamos aos museus, pode ter bastante complexidade. A Art Camera é uma das tecnologias que disponibilizamos. Não é uma câmara normal que uma pessoa sem conhecimento possa operar. São pessoas treinadas que operam estas câmaras e uma das coisas inovadoras que fizemos em Portugal foi emprestá-la pela primeira vez aos museus. Antes deste empréstimo acontecer, os especialistas vieram para Portugal e treinaram os funcionários dos museus. E assim puderam capturar quantas imagens queriam, da maneira que mais sentido faz. E essa é uma das diferenças de quando somos nós a operar – a câmara está no local por um tempo limitado, o número de obras que conseguimos captar não é tão grande. Neste caso, a questão era quanto mais quadros conseguissem captar, porque a câmara ficou durante mais tempo do que geralmente fica num museu. E com um olhar especial, que é o da pessoa que trabalha no museu, que conhece o acervo.

Esse conhecimento torna a captura diferente?
Com certeza, nestas imagens de alta resolução os pormenores são incríveis. Se estiver a ver a obra à frente, talvez não os consiga perceber. E, do ponto de vista académico, ainda poderá gerar outras interpretações, abordagens ou visões sobre determinadas obras, encontrar coisas que ainda não tinham sido encontradas. Acho que há diversas maneiras de captar imagens em alta resolução que se tornam importantes hoje em dia.

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