Vinicultura

Há 20 anos com os pés na terra e as uvas nas mãos

Luísa Amorim na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, onde a experiência se iniciou. Foto: Rui Manuel Ferreira/Global Imagens
Luísa Amorim na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, onde a experiência se iniciou. Foto: Rui Manuel Ferreira/Global Imagens

A filha de Américo Amorim transportou para o Dão o conceito que imprimiu no Douro: vinhos de qualidade, para nichos de mercado.

Luísa Amorim cresceu entre conversas sobre os montados, as rolhas de cortiça e o vinho. Diálogos ligados ao campo e aos pequenos frutos das videiras nacionais e internacionais, que alimentam o negócio mais tradicional e histórico do grupo Amorim. A aventura com os pés na terra e as uvas nas mãos começou pouco depois da aquisição da Burmester, já lá vão 20 anos, e paulatinamente foi crescendo num ritmo marcado por uma estratégia de nicho de mercado, em que impera a ambição da qualidade e da diferenciação. À Quinta Nova, propriedade no Douro do grupo e o primeiro projeto que abraçou, seguiu-se a Quinta da Taboadella, no Dão, cujos primeiros vinhos sairão para o mercado em 2020.

A filha mais nova do clã Amorim, que detém, segundo a revista Forbes, a maior fortuna do país, viu potencial no Dão para recriar um negócio semelhante ao da Quinta Nova, alavancando experiência e sinergias. O Dão é talvez a região vinícola portuguesa com menos reconhecimento no mercado, mas isso não atemoriza Luísa Amorim.

“Acredito muito” no potencial deste terroir e “estou muito expectante quanto aos resultados”. No primeiro trimestre de 2020, o mercado terá as primeiras 70 mil garrafas (entre brancos e tintos), produção de “muito boa qualidade”, garante. Será o teste de estreia, num ano em que a adega e o centro de visitas deverão ficar concluídos.

Foi em 2018 que a Quinta da Taboadella, com uma história que remonta a 1255, foi adquirida pelo grupo Amorim por 1,25 milhões de euros. Nestes quase dois anos, os seus 48 hectares foram sujeitos a várias intervenções, com foco nas vinhas, na construção de equipamentos de vinificação e no enoturismo. Quando, no próximo ano, abrir as portas ao público, já com os vinhos em comercialização, Luísa Amorim admite divulgar o valor total do investimento. Para já, está concentrada em percorrer com a Taboadella o percurso iniciado há 20 anos com a Quinta Nova, negócio de nicho que ocupa o 11.o lugar (em valor) entre os produtores de vinho de mesa do Douro.

Trabalho e trabalho
“Todos os dias aparecem-nos novos negócios. Gostamos de saber o que está na praça, o que não quer dizer que se vai comprar, não estamos a colecionar quintas nem regiões”, sublinha. A Quinta da Taboadella “foi o passo certo, na hora certa”, “a vontade da família em ter mais exposição no vinho”, mas um negócio “que acrescenta valor”. Como frisa, “o sucesso não cai das árvores, é trabalho e trabalho”, é preciso implementar uma marca, diferenciá-la, vender e consolidar e “isso demora muitos anos”. O foco “é construir um negócio com um portfólio de qualidade, que venda bem e seja rentável. As empresas nascem para ser lucrativas”.

Na Quinta Nova, o trabalho está feito. Desde o início do projeto que as vendas apresentam um crescimento entre os 15% e os 20%, alavancado por um aumento de produção e de preço, com o mercado externo a valer 40%. No ano passado, a faturação atingiu os 4,6 milhões de euros, sustentada nas 600 mil garrafas produzidas e no negócio do enoturismo, que pesou 28%. Como recorda Luísa Amorim, a Quinta Nova foi das primeiras empresas do Douro a apostar no turismo vinícola, recebendo diariamente visitantes dos EUA, Brasil, Canadá e muitos europeus. Já o vinho está presente em 30 mercados, destacando-se na exportação Suíça, Canadá, Brasil, EUA e Benelux.
Numa esfera pessoal, explora 20 ha de vinha na herdade alentejana da Aldeia de Cima, “uma propriedade especial”, que em agosto libertou as primeiras cem mil garrafas.

Três perguntas:
“A nossa filosofia é perpetuar o negócio para as gerações vindouras”

Que futuro vê para o grupo Amorim?
Um futuro de continuidade. O grupo continua a crescer, os negócios da Corticeira Amorim estão a crescer. Somos uma família, sempre fomos um grupo familiar, e apostamos sempre nos negócios que nos parecem de futuro e rentáveis. Não vemos nenhum drama na cortiça, pelo contrário, o mundo do vinho continua a crescer, os produtos naturais continuam a crescer. Estamos a viver uma fase muito boa. Está tudo a nosso favor.
É uma grande responsabilidade pertencer à família mais rica de Portugal? Sente um peso nos ombros?
Quando se emprega pessoas, se tem empresas e se é criada neste espírito, há sempre mais responsabilidade. Há um peso acrescido e é isso que se deve sentir. Quem cresceu na indústria tem sempre uma filosofia diferente de quem tem uma empresa de serviços. A mão-de-obra, o crescimento, a verticalização, há todo um espírito de trabalho que é muito diferente. Nós já vamos na quarta geração e a nossa filosofia é de perpetuar o negócio para as gerações vindouras, para nós e para os nossos trabalhadores. Isso é uma grande responsabilidade. Só temos de dar continuidade, o que não quer dizer que se faça sempre tudo igual. É preciso fazer as apostas estratégicas nas alturas certas, por forma a não tornar os negócios frágeis. Mas tudo com vista a fortalecer o negócio da família. É sempre um processo de responsabilidade, com trabalho, a pensar no futuro.
O dinheiro traz felicidade?
[Risos] A felicidade não tem nada que ver com dinheiro. É muito mais do que isso!

Perfil
Mulher de raiz portuguesa e “sem teias de aranha”
Gosta muito de vinho, branco, tinto ou rosé. Mas torce o nariz se não tiver qualidade. Esse gosto transportou-o para o negócio, que há 20 anos tomou em mãos. Luísa Amorim nasceu em 1973 e, apesar de ter corrido meio mundo, inclusive para estudar, diz sentir-se muito portuguesa, com fortes raízes à nossa cultura, mas “sem teias de aranha”. Tem duas licenciaturas, em Marketing e em Gestão Hoteleira, a que acrescentou formações especializadas. Entre o negócio do vinho e a administração de empresas do grupo, acarinha a Associação Bagos d’Ouro, que promove a educação de crianças e jovens do Douro. Guarda-se para a família e para estar a par do mundo.

 

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Mário Centeno. Fotografia: Mário Cruz/Lusa

BdP: Tribunal da Relação é que pode ordenar levantamento do sigilo sobre BES

Ricardo Salgado

Banco de Portugal aplica nova coima a Ricardo Salgado

A ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Mariana Vieira da Silva TIAGO PETINGA/POOL/LUSA

Governo. Mudanças de horários são “cirúrgicas” e não preveem turnos

Há 20 anos com os pés na terra e as uvas nas mãos