Hermann Simon

Hermann Simon: “A maior barreira ao crescimento em Portugal é cultural”

Hermann Simon, escritor alemão e especialista em gestão, esteve no Porto. Fotografia: João Manuel Ribeiro/Global Imagens
Hermann Simon, escritor alemão e especialista em gestão, esteve no Porto. Fotografia: João Manuel Ribeiro/Global Imagens

Especialista de gestão veio dar a conhecer às PME portuguesas as razões do sucesso do Mittelstand, o tecido empresarial de excelência alemão

Ambição e foco, para serem os melhores entre os melhores. Agir de forma global para que o mundo seja o seu mercado. Inovação e proximidade ao cliente não devem ser esquecidos e muito menos a necessidade de ter funcionários qualificados e motivados.

É essa a lição que as pequenas e médias empresas portuguesas devem aprender com o Mittelstand alemão, o tecido empresarial de excelência, das pequena mas sobretudo médias empresas que “dominam a tecnologia e promovem o modelo de qualidade absoluta” que caracteriza a indústria alemã.

Para Hermann Simon, especialista em gestão e autor dos livros Hidden Champions e Confessions for the Pricing Man, e que esta semana esteve em Portugal, numa organização conjunta da Embaixada da Alemanha, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, das Católica Lisbon e Católica Porto Business Schools e da PSO Comunicação Estratégica, para participar nas palestras nas palestras em Lisboa e Porto precisamente sobre esta realidade do Mittelstand alemão e de como este modelo de organização económico-empresarial pode ajudar as empresas portuguesas a afinarem uma estratégia de maior sucesso, “é sobretudo uma questão de ambição e coragem”.

“Não são as grandes companhias, as Mercedes, Siemens, BMW ou Bosch que toda a gente conhece. São as empresas de média dimensão que fazem a diferença e que explicam a excelente performance das exportações alemãs.”

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, este responsável explica que o chamado Mittelstand é a grande força da economia alemã. “Não são as grandes companhias, as Mercedes, Siemens, BMW ou Bosch que toda a gente conhece. São as empresas de média dimensão que fazem a diferença e que explicam a excelente performance das exportações alemãs”, garante. Empresas que chama de “campeões escondidos” porque são líderes europeus ou até mundiais no seus sectores, mas que “continuam a ser praticamente desconhecidas do público em geral, até na Alemanha”.

E qual é a razão do seu sucesso? A internacionalização precoce, garante, e que reside em razões de cariz histórico. “Até há 100 anos, a Alemanha era um conjunto de pequenos estados. Até 1918, tínhamos 23 monarquias e três repúblicas. E até 1871 estes eram mesmo estados independentes.

Portanto, um empreendedor que estivesse baseado em Munique e quisesse fazer negócios com alguém em Estugarda ou em Frankfurt, embora a apenas algumas centenas de quilómetros, estava a fazer negócios internacionais. E para crescer, os empresários tinham mesmo de se internacionalizar. Hoje, isso faz parte do ADN do empreendedor alemão, que parte para o crescimento externo muito mais cedo do que nos restantes países”, explica Hermann Simon.

Para o especialista alemão, a razão por que as pequenas e médias empresas portuguesas crescem tão pouco comparativamente às suas congéneres alemãs reside precisamente no facto de tirarem pouco partido da globalização, um motor de crescimento muito eficaz se devidamente aproveitado, argumenta.

E apresenta números: “Se olharmos para o tal universo dos campeões escondidos, eles são hoje, em média, seis vezes maiores do que eram há 20 anos. Quando escrevi o meu primeiro livro sobre o tema, em 1996, usei como referência o universo dos mil milhões de dólares de faturação. O que já era uma dimensão significativa para aquele tempo. Ainda nem havia euro. No terceiro livro, em 2012, avancei para os cinco mil milhões. O mundo, economicamente, é muito maior do era. Pode-se ir para a China, pode-se vender na Índia, pode-se ir para onde se quiser”, defende.

Competências e know how seculares em muitas regiões do país a par de um sistema de educação hoje que aposta muito no ensino vocacional são outras das razões apontadas pelo especialista para explicar o sucesso do modelo alemão.

“Na Floresta Negra, no sul da Alemanha, havia uma tradição de séculos de fabrico de relógios, os famosos relógios de cuco. O que significa que se desenvolveram ali competências mecânicas muito finas. Esta indústria desapareceu, mas surgiu outra. Hoje há 450 firmas nesta região de equipamentos médicos, nomeadamente cirúrgicos, para os quais são necessárias as tais competências mecânicas finas. E há milhares de outros exemplos. No norte da Alemanha, há uma universidade muito antiga, de Gottingen que, durante séculos, foi líder no mundo na área das matemáticas. Hoje, nessa cidade, que é o equivalente à vossa Coimbra, temos 39 empresas de tecnologia de medição. Muitas delas líderes globais de mercado na sua área de especialidade. Esta descentralização de competências regionais, que tem sido trazida para o presente e para o futuro, é o que em grande medida explica a força do Mittelstand“, afirma Hermann Simon.

Que se refere ainda à importância do sistema dual de ensino, em que os aprendizes de uma determinada profissão, seja ela qual for, desde que implique uma atividade prática, na indústria ou nos serviços, são contratados e pagos por uma empresa que lhes fornece o ensino mais prático ao mesmo tempo que, dois dias por semana frequentam a parte de ensino teórico a cargo do Estado.

“Acredito que temos os trabalhadores mais bem qualificados do mundo graças a este sistema dual, vocacional e teórico. E grande parte do treino do ensino dual é feito por empresas do Mittelstand: 9% dos funcionários dos chamados campeões escondidos são aprendizes”, afiança. A média nacional das restantes empresas é de 6%.

E como pode Portugal tirar partido do exemplo alemão? Para Hermann Simon, a “maior barreira”, está na cabeça dos portugueses. “É cultural”, garante. E explica: “Tive um jantar e houve uma enorme discussão à mesa. Pelo menos metade dos presentes argumentou que é tudo mais difícil de fazer a partir de Portugal, porque se trata de um país pequeno e que não está no centro da Europa como a Alemanha. Mas na mesma mesa estava uma senhora da Carfi, que produz moldes por injeção, uma empresa extremamente internacionalizada, que produz na Polónia e com negócios na Alemanha. E houve vários exemplos de empresas de muito pequena dimensão. Hoje, até a mais pequena das empresas pode fazer negócios globais, com os sistemas de informação e a internet. Qualquer um, em qualquer parte do mundo, pode aceder à sua homepage e ela tem acesso a todos os sistemas logísticos para transportar os seus produtos para onde precisa”, defende o especialista alemão, sublinhando que a barreira efetiva está só e apenas na cabeça das pessoas.

Para Hermann Simon, a questão do crescimento e da competitividade das PME resume-se a ambição e coragem. “Ou se tem ou não se tem, não há forma de a criar”, frisa. E sem ambição nada mais funciona.

“Precisam de ambição para crescer e serem os melhores ou um dos melhores. Esse é o ponto de partida. Como é que o conseguem? Focando-se. É isso que vos distingue dos demais e vos torna únicos. E se o foco torna o mercado pequeno, alarguem-no atuando de forma global”, defende, acrescentando que há que não esquecer coisas que parecem óbvias mas são fundamentais: a inovação, a proximidade ao cliente e a qualificação dos recursos humanos. Mas não se esqueça, se tiver trabalhadores bem qualificados, se os treinar, tem de os conseguir reter. “Não lhe serve de nada estar a formar os trabalhadores se depois os deixar fugir para a concorrência. O que significa que tem de pagar bem aos seus funcionários”, defende.

Quanto aos poderes públicos, Hermann Simon recomenda iniciativas ao nível da educação e do sistema vocacional. E, claro, que “internacionalizem mentalmente a sociedade portuguesa, promovendo programas de trocas internacionais em todos os níveis de ensino, a partir dos 10 ou 12 anos”. Tudo em nome de uma recomendação final que quis deixar ao país, para que Portugal volte “ao seu glorioso passado de potência internacional no comércio global”.

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