IKEA. O império da mobília que é de todos mas não é de ninguém

Morte do fundador da maior cadeia de móveis do mundo criou problema de sucessão. Os três filhos de Kamprad controlam partes do império, mas não o todo

Peter, Jonas e Mathias. Os nomes são bíblicos e a responsabilidade que herdaram também. Desde 27 de janeiro que os três suecos são os novos donos de um império global de mobília descartável conhecido como IKEA. Resta saber o que vão fazer com ele.

Tal como o pai, o empresário Ingvar Kamprad, os três irmãos dispensam as luzes da ribalta. Todos rondam a casa dos 50 anos. É-lhes conhecida uma única entrevista, dada em 1998, que consta no livro The IKEA Story. De resto, pouco se sabe sobre a vida de cada um.

Peter é o mais velho e seria, por isso, o sucessor natural do homem que em 1943, com apenas 17 anos, começou por vender lápis e sementes. Casado e com dois filhos, Peter vive na Bélgica e preside ao grupo Ikano, uma empresa que gere a fortuna familiar. Durante 12 anos foi o responsável pelas finanças do IKEA.

Com 51 anos, Jonas é o filho do meio. Estudou Engenharia Industrial e Desenho de Mobiliário na Suíça e faz parte da administração da Ingka, uma holding que gere o grupo IKEA.

De Mathias, o mais novo, diz-se que é dos três o que tem mais talento para os negócios. Fala cinco línguas e nunca frequentou o ensino superior. Vive em Londres e foi responsável, entre 2004 e 2008, pela gestão da filial da gigante dos móveis na Dinamarca. Em 2016 renunciou à presidência da Inter IKEA, a empresa que geria os franchisings da marca sueca, para se dedicar a outros projetos.

Qual dos três irá ocupar o trono com vista para o reino das estantes? Provavelmente nenhum. Ou então todos ao mesmo tempo. “Não quero que os meus filhos compitam uns contra os outros pelo direito de gerir a empresa. Mais cedo ou mais tarde terei de nomear um”, afirmou o fundador do IKEA na entrevista que deu em 1998. Mas nunca chegou a nomear ninguém.

Em vez de designar um sucessor direto, Ingvar Kamprad foi, ao longo dos anos, desmontando o IKEA como um puzzle. A empresa é hoje formada por uma estrutura labiríntica, como se de uma das suas lojas se tratasse. Não há manual de instruções e é difícil distinguir quem manda em quê.

A holding Ingka, que tem sede na Holanda, é o centro do universo IKEA. Os braços do grupo estendem-se ainda por Luxemburgo e Liechenstein, através da Fundação IKEA e da Fundação Stichting Ingka. Esta última não é controlada pela família e tem como missão “apoiar projetos de inovação” na área do design e fazer doações a instituições sociais.

O património multimilionário construído por Kamprad ao longo de 75 anos divide-se entre estes e outros ramos. O objetivo do fundador com estas manobras era assumido: garantir que a marca IKEA seria perpetuada muito após a morte do homem que lhe deu origem, independentemente que quem assumisse a sua gestão.

Mas foi também devido ao milagre da multiplicação de empresas que o empresário sueco saiu da lista dos mais ricos do mundo da Forbes a partir de 2010. Em 2006, Kamprad chegou mesmo a constar no quarto lugar do ranking dos milionários, com uma fortuna avaliada em 23 mil milhões de euros. Em 2016 saiu definitivamente da lista, após ter passado todos os seus bens para o nome dos filhos.

Apesar dos contornos difusos da gestão, quem conhece de perto a família e o império garante que quem manda no reino azul e amarelo são os irmãos Kamprad. É o caso de Johan Stenebo, que foi diretor executivo do IKEA durante 20 anos e em 2010 publicou o livro A Verdade Sobre o IKEA.

“Eles não foram criados pelo seu pai para entregarem o controlo do IKEA a alguém de fora da família. O pai desconfiava de qualquer pessoa que não fosse familiar. Diria que o Mathias é o homem do leme”, contou o autor a um jornal sueco.

Logo após a morte de Kamprad, os três sucessores emitiram um comunicado. “Nós, os filhos, prometemos ao nosso pai que vamos manter o seu legado e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para assegurar que os valores e o conceito único do IKEA terão continuidade no futuro”, podia ler-se numa mensagem enviada a um número restrito de órgãos de comunicação suecos.

O legado que Peter, Jonas e Mathias carregam aos ombros é um dos mais pesados do mundo. O IKEA tem 412 lojas em 49 países e emprega mais de 190 mil pessoas, das quais 2300 em Portugal. Em 2017 faturou 38,3 mil milhões de euros.

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