Incubadora de startups ajuda a internacionalizar marca Taguspark

A estrutura remonta aos anos 1990 e o unicórnio português Talkdesk está entre as 150 startups já apoiadas. Acabam de chegar mais seis empresas ao núcleo e aguardam-se os vencedores do Pitch at the Beach.

Converter humidade em eletricidade, desenvolver o LinkedIn da indústria do desporto e lançar uma plataforma de dados que mitiga os riscos de produção em aquacultura, são algumas das ideias de negócio desenvolvidas pelas seis startups que acabam de chegar à incubadora do Taguspark, após a call de novembro de 2021. A estas deverão juntar-se as vencedoras do Pitch at the Beach, que decorre nos dias 2, 3 e 4 de julho. A incubadora do Taguspark está a reposicionar-se como alavanca de negócios, é um dos pilares na estratégia de internacionalização da marca do parque de ciência e tecnologia de Oeiras.

Eduardo Baptista Correia, presidente executivo (CEO) do Taguspark desde 2018, conta ao Dinheiro Vivo (DV) que a incubadora, "não sendo o único, é um dos fatores que distingue o Taguspark", mantendo-se fiel ao desígnio de "estimular a aproximação entre ensino universitário, investigação científica, promoção do empreendedorismo e promoção dos jovens talentos".

Baptista Correia acrescenta que, "do ponto de vista estratégico, tinha de haver uma incubadora no Taguspark", com uma filosofia de "aproximar mundos diferentes" e alimentando uma "visão global" em linha com o "pioneirismo" do Taguspark e no "contexto mais alargado do Oeiras Valley".

Por isso, o CEO realça que a incubadora "é um investimento social e a principal atividade de responsabilidade social" do Taguspark, que procura hoje "continuar na senda da internacionalização".

"Esse é um dos principais desígnios estratégicos do futuro do nosso desenvolvimento e da nossa marca [Taguspark]", afirma o gestor, indicando que, também aí, a incubadora de startups tem um papel a cumprir.

"A ambição de uma startup é chegar a unicórnio [negócio avaliado em mil milhões de dólares]. É altamente improvável que uma startup portuguesa consiga atingir esse patamar trabalhando em exclusivo o mercado interno. Está obrigada a uma forte política de internacionalização. E, aqui, nós temos o nosso network internacional, e não me refiro apenas a conseguir investimento direto estrangeiro. É muito mais poderosa a internacionalização de marcas portuguesas, alavancando o conhecimento e a expansão da atividade em zonas com dimensão dezenas de vezes superior à nossa", argumenta.

Cidade do Conhecimento

Criado em 1992, o Taguspark apresenta-se como uma cidade do conhecimento, acolhendo 150 empresas, incluindo uma escola internacional (International Sharing School), uma escola universitária (polo do Instituto Superior Técnico), um centro de congressos, um museu de arte urbana e uma "oferta de restauração relativamente interessante", que será melhorada em breve com a "criação da zona Tagusboémio". A isto acresce a incubadora de startups.

Trinta anos volvidos, a atual gestão tem a "ambição ter uma rede internacional de cidades do conhecimento". Até já há "um manual de instruções sobre o que é uma knowledge city [cidade do conhecimento]".

A ideia é trabalhar a marca e o conceito do Taguspark a nível internacional, algo que a atual administração já tinha iniciado, mas que a pandemia veio atrasar. Ora, "obviamente que tudo e todos os que gravitam à volta do Taguspark sairão a ganhar com o acesso a redes de influência internacional mais alargadas", segundo Baptista Correia. Nesta lógica, entre outras áreas, "também a incubadora vai beneficiar [e ajudar]" do crescimento da marca Taguspark.

"Não tenho dúvidas de que esta incubadora, se não for a melhor, está entre as duas ou três melhores do país", afirma. Mesmo a nível internacional, o gestor assevera que o Taguspark "está num patamar muito interessante". Refere que não encontra "nada semelhante" em Espanha e desconfia do que há no Reino Unido quando comparado com o parque que gere. Admite que em Istambul, na Turquia, e na Coreia do Sul, existam casos "muito avançados".

Apesar da perceção do CEO do Taguspark, a incubadora, que remonta "a 1998 ou 1999", nem sempre foi uma aposta ou vista com bons olhos por antigas administrações do parque de ciência e tecnologia de Oeiras. Mas, agora, após ajudar 150 startups - incluindo o unicórnio luso Talkdesk -, os desígnios e objetivos daquele espaço são outros e parecem mais claros. E há uma premissa fundamental: encontrar e criar condições para quem quer mudar o mundo."Estamos constantemente à procura daqueles que querem mudar o mundo para melhor", afirma Baptista Correia.

A incubadora oferece dois mil metros quadrados, entre escritórios e laboratórios, além de planos de mentoria e, ainda, serviços de consultoria em diferentes áreas - desde o marketing a questões jurídicas. Segundo o CEO do Taguspark, o que os empreendedores mais precisam quando chegam é de um "espaço de trabalho de qualidade, é fundamental".

Incubadora acolhe seis novos negócios

Com a estratégia presente, e retomando a normalidade no pós-pandemia, a incubadora do Taguspark já acolheu este ano seis novos negócios, após a call de novembro do ano passado. O DV falou com os responsáveis de três delas e identificou um denominador comum: sem a incubadora, as metas que têm seriam mais difíceis e morosas de alcançar.

Afonso Ferreira e André Abreu, ambos formados em engenharia aeroespacial, criaram em 2017 a Sensaway, focada em desenvolver uma plataforma de data analytics que permita automatizar a gestão, torná-la mais preditiva e apoiar a tomada de decisão no setor da aquacultura. A ideia é aumentar a produtividade e mitigar riscos de produção. Chegam ao Taguspark já com um conjunto de investidores a observá-los de perto, depois de terem participado no programa de aceleração Hatch Blue (na Noruega), focado em negócios de aquacultura, e de terem sido admitidos no projeto europeu EEA Grant, no final de 2021.

Como surgiu a Aquacultura? Afonso Ferreira revela que trabalhava em private equity quando decidiu sair para ajudar num negócio de família relacionado com aquacultura. Aí começou a perceber que "as práticas estão longe de ser eficientes" e, mais tarde, juntou-se a ele André Abreu, que estava a trabalhar na área da aeroespacial.

O objetivo é encontrar soluções que "aumentem a eficiência das aquaculturas". "Acreditamos que a aquacultura vais ser um driver na produção de proteína a longo prazo", diz André Abreu. Qual o desafio, então? Afonso Ferreira refere que o mínimo erro pode matar toda uma produção de aquacultura, "em minutos". Acresce, segundo André Abreu, que, apesar de já existirem algumas soluções, há "uma dificuldade em gerir o mar de dados que existe". Por isso, apostam numa plataforma que unifica todos os dados necessários (como temperatura da água, níveis de oxigénio ou biomassa) para monitorizar, detetar anomalias, sinalizá-las e resolvê-las. Em Portugal, já têm projetos implementados na Ria de Alvor, com a Aqualvor, e nos viveiros da Espargueira, com a Natura Fish.

Curiosidade? A Sensaway está a ser procurados por empresas do setor de fornecimento de gás, porque a plataforma que criaram tem também utilidade nessa e outras áreas. "Todas as ferramentas que nós desenvolvemos podem integrar dados de todo o tipo de sistemas, fornecendo uma plataforma que permite localizar dados de várias localizações diferentes numa plataforma IoT", explica André Ferreira. André Abreu conta que a plataforma é flexível e capaz de integrar outros sistemas, já estabelecidos, que podem ajudar na leitura uniformizada de todos os dados gerados por uma operação.

Nesta incubadora, procuram ajuda a criar um modelo de negócio sustentável e a recrutar pessoas para o projeto. Esperam conseguir fazer uma ronda de investimento, no final do programa.

Outro negócio acolhido no Taguspark foi do brasileiro Eduardo Drapier e do norueguês Ole Martin Vebenstad. Ambos são formados em gestão do desporto e criaram a SportIn Global, que é basicamente uma espécie de LinkedIn do mundo do desporto. Trata-se de uma aplicação de recrutamento social que permite a desportistas e outras pessoas (formados ou não), com interesse em trabalhar na indústria do desporto, procurarem oportunidades de negócio ou trabalho ligando-se a agentes da indústria. A SportIn também fornece ligações a universidade com programas de desporto.

Atualmente, a SportIn já conta com mais de cinco mil pessoas na plataforma, tendo parceiros e clientes em 13 países. A Faculdade de Motricidade Humana (FMH), a Universidade do Real Madrid, o Johan Cruyff Instute e a Decathlon são alguns dos parceiros. No Brasil e em Londres, Inglaterra, também já têm parcerias. Vebenstad e Drapier descobriram o Taguspark na Web Summit, mas por causa da pandemia, só agora conseguiram entrar na incubadora.

Ao DV, Eduardo Drapier refere que a ideia surgiu de uma constatação: havendo "mais de 400 cursos de desporto nos EUA e mais de quatro mil na Europa - isto, sem sem contar com a indústria do fitness e de eSports" -, há espaço para criar uma rede profissional, "mais focada no negócio do desporto". Assim, criaram uma aplicação assente em inteligência artificial que não só ajuda quem procura emprego na indústria do desporto, como pode ajudar "as empresas a economizar tempo e dinheiro na hora de recrutar alguém".

"Fazemos um trabalho muito direcionado e específico. No fundo, oferecemos uma plataforma para empresas e utilizadores, criamos promoção para as universidades e conseguimos apoiar um estudante ou profissional a procurar vagas e a preparar-se para ela", acrescenta.

O que procuram no Taguspark? Mentoria, porque a "indústria do desporto é muito fechada, muito movida através da conexão", fazer contactos e ajuda no reforço da equipa. Atualmente, a SportIn tem dez pessoas envolvidas, dispersas pela Noruega, Portugal, Brasil e Índia. A ideia será trazer todos os elementos para Portugal e contratar mais cinco pessoas. Entretanto, a SportIn está "a meio de uma ronda de investimento", que poderá angariar 600 mil euros para a empresa, segundo Drapier. "As perspetivas são boas", diz.

Cascata da Chuva é outra startup a chegar à incubadora do Taguspark. Foi criada por Andriy e Sergiy Lyubchyk, dois irmãos ucranianos, a viver em Portugal há alguns anos, e doutorados em engenharia química e bioquímica, respetivamente. Contam que a startup surgiu por acaso, durante trabalhos realizados em laboratório. Que ideia querem desenvolver? Criar um aparelho que converta humidade em eletricidade.

A ideia é promissora e os irmãos Lyubchyk acreditam que poderá ajudar a resolver problemas de dependência energética e diminuir emissões de gases poluentes na produção de energia. A startup ainda tem muito que evoluir, apenas foi criada no final de 2021.

Andriy e Sergiy Lyubchyk explicam que são engenheiros e que não têm "conhecimentos suficientes noutros aspetos do negócio". Por isso, procuram "sobretudo mentoria. Chegam à incubadora depois de terem conseguido apoios do European Innovation Council Fund. "Temos um plano e vamos segui-lo estritamente", realça Andriy, indicando que no final do ano pretendem ser já uma equipa de quatro pessoas.

As outras três startups que também já chegaram ao Taguspark foram a Time View (videovigilância), a Clevidence (saúde) e a United to Remake (sustentabilidade).

Pitch at the Beach

A estas startups poderão juntar-se em breve também as três ideias vencedoras do Pitch at the Beach, que Eduardo Baptista Correia chama de "uma mini Web Summit", sendo já uma iniciativa no âmbito da internacionalização da marca Taguspark. O Pitch at the Beach tem origem no México e chega pela primeira vez à Europa. "O TagusPark é o parceiro português", refere o gestor. Os vencedores poderão ganhar um programa de incubação no Taguspark por dois anos, gratuito.

Será a primeira vez que a edição decorre fora das Américas. Em concurso estarão 30 startups que, entre 2 e 4 de julho, irão apresentar ideias de negócio a um grupo de investidores. Estarão 30 startups em competição, das quais 14 são portuguesas (incluindo a referida Cascata de Chuva).

O evento é organizado pelo Taguspark e pela Câmara Municipal de Oeiras, tendo os patrocínios da Altice Portugal e da Huawei. Por um lado, esta é uma forma de trabalhar a marca do Taguspark pela via do empreendedorismo internacional, segundo o CEO do Taguspark. Por outro, cria uma "porta de acesso e um ponto de atração" à Europa e à América Latina entre as startups dos dois lados do Atlântico.

No Pitch at the Beach serão conhecidas dez startups por dia. A cada dia selecionam-se três vencedoras e, no último dia, entre as nove finalistas, sairão três vencedoras.

Estas três startups vencedoras poderão embarcar nos programas da incubadora do Taguspark, a par das referidas seis startups que já chegaram a Oeiras.

Este será mais um marco no percurso do Taguspark. "Estamos muito bem posicionados em termos europeus, em termos do que é a nossa função mais importante: qualidade de vida em ambiente de trabalho num meio de ciência e tecnologia", afirma Eduardo Baptista Correia.

E no final dos programas, o que acontece às startups? Isso depende das startups, defende o gestor. "Há hipótese de transitarem para espaços próprios dentro desta cidade do conhecimento, continuando ligadas a nós, e normalmente com condições ultracompetitivas", afirma.

A incubadora do Taguspark apenas tem vaga para acolher 20 empresas de rápido crescimento. Desde 2019 já saíram 3 startups - Aumert, CreditResolv e Smartfreez - para espaços próprios no Taguspark. Neste momento, está a ser preparada a saída para espaço próprio no Taguspark de mais 4 startups.

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