Indústria quer mudar bitola na ferrovia. Mas há problemas mais urgentes

Associações industriais querem que Portugal mude de bitola no longo prazo. Só que a AICEP e a empresa de transporte de mercadorias Medway lembram que é preciso, primeiro, eletrificar toda a rede ferroviária nacional e permitir comboios maiores.

Portugal precisa de mandar mais mercadorias para o estrangeiro pela ferrovia (em vez das estradas) com custos mais baixos. Neste ponto, a indústria e a logística estão de acordo. Só que há soluções diferentes para os dois lados deste debate: a indústria defende, acima de tudo, a mudança da bitola ibérica para a bitola europeia (de carris mais estreitos); a logística considera que há mudanças mais urgentes do que os carris.

O debate sobre a ligação de Portugal à restante rede ferroviária europeia foi organizado esta terça-feira pela associação de transportes ADFERSIT e realizou-se em formato remoto, devido à pandemia.

A proposta da indústria

Começamos pela posição da indústria. As associações CIP e AEP (com sede em Lisboa e Porto, respetivamente) entendem que os carris em Portugal devem ter a mesma largura da restante Europa. "É necessária uma língua comum para uma circulação perfeitamente fluída de comboios", defendeu o ex-líder da AEP, José António Barros.

"Devemos começar a planear tudo em bitola europeia, de forma séria, que deverá ser executada em uma ou duas décadas", entende este dirigente. José António Barros entende que como "transitórias e não economicamente viáveis" soluções como introduzir comboios com eixos variáveis (para mudarem da bitola ibérica para a europeia sem parar) e ainda a troca de bogie (estrutura que liga a caixa ao carril).

Do lado da CIP, José Couto considera que "a falta de aposta na ferrovia pode levar à deslocalização de empresas para o centro e leste da Europa". O também líder da associação de fabricantes de componentes para a indústria automóveis sentencia que "perpetuar a bitola ibérica é impor às gerações futuras condições comparativas inferiores aos dos seus concorrentes, de terem que ser mais competitivos no mínimo no valor do custo do transporte, ou sacrificar a margem do negócio".

Postura semelhante foi defendida pelo moderador deste debate, Martins de Brito. Este antigo presidente da CP entende que Portugal "deveria começar a desenvolver soluções de interoperabilidade plena, de articulação entre bitola ibérica e bitola europeia", para lá da colocação de travessas polivalentes, como tem acontecido nas obras do programa de investimentos Ferrovia 2020, que ficará concluído no final de 2023.

A proposta da logística

Só que há forma de reduzir mais depressa o custo de transporte de mercadorias de Portugal para a Europa. Desde logo, Espanha não deverá apostar na bitola europeia para o transporte de mercadorias "nas próximas décadas", assinalou o responsável pela gestão dos parques industriais da agência de investimento AICEP, Filipe Costa.

Este responsável da AICEP lembrou ainda que há mais fatores que impedem a redução dos custos de transportes pela ferrovia: a existência de troços não eletrificados - que só ficará resolvida até 2030 -; a limitação de comprimento dos comboios - que só no final de 2023 permitirá comboios com até 750 metros de comprimento em vez dos atuais 400; e ainda as limitações na carga máxima que pode ser rebocada por circulação.

A estes pontos, o líder da Medway, Carlos Vasconcelos acrescentou outros problemas na rede ferroviária nacional, como a "reduzida velocidade média dos troços", a existência de "pendentes elevadas" e ainda a falta de resguardos, sobretudo em linhas de via única, que permitam que os comboios aguardem uns pelos outros com maior segurança.

O debate, com o título "A Interoperabilidade ibérica e a interoperabilidade europeia. O corredor atlântico", contou ainda com a participação de José Ramalho, em representação da empresa de sistemas tecnológicos em transportes Thales.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de