Investimento estrangeiro cai, mas o das empresas alemãs disparou

A Autoeuropa é um dos maiores investidores em Portugal
A Autoeuropa é um dos maiores investidores em Portugal

Os estrangeiros estão a investir menos em Portugal. No ano passado, entre janeiro e novembro, o investimento direto estrangeiro (IDE) caiu para 3827 milhões de euros, uma quebra de mais de 23% em relação a 2013. A grande exceção foi a Alemanha - 2014 ficará, aliás, na história como o segundo melhor ano de investimento das empresas alemãs no nosso país nos últimos 19 anos, só superado pelo ano 2000.

Nos primeiros 11 meses do ano, o investimento direto alemão em Portugal atingiu 447 milhões de euros, um aumento de 37,6%. E, em termos acumulados, o valor total do IDE alemão em Portugal deverá ter ultrapassado, pela primeira vez, a barreira dos cinco mil milhões.

Portugal poderia tirar muito mais partido da disponibilidade de investimento dos empresários alemães, defende a Câmara do Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA). Mas, para isso, é preciso “colocar Portugal no radar” dos investidores. Particularmente em áreas como as tecnologias da informação ou na investigação e desenvolvimento.

Portugal, enquanto país descapitalizado, deveria olhar a atração de capitais estrangeiros “como a charneira do seu crescimento económico”, e desenvolver toda a sua linha política, quer fiscal quer laboral ou de ordenamento do território, “a pensar no investimento direto estrangeiro”, considera Bernardo Meireles, presidente da CCILA.

Bernardo Meireles recorda que a Câmara do Comércio e Indústria Luso-Alemã realizou, em 2013, um estudo sobre a última década de investimento direto alemão em Portugal e recomendou, então, a implementação de novas abordagens na dinamização do investimento estrangeiro, porque, conclui o trabalho, “Portugal tem estado fora do radar do IDE alemão”. Porquê? Não só porque os valores acumulados na última década se foram mantendo estáveis, em torno dos três mil milhões de euros, como um inquérito realizado junto de empresas alemãs mostrou que “a Alemanha, em geral, não (re)conhece os fatores de competitividade de Portugal”.

Autoeuropa, Bosch, Continental Mabor, Siemens, Leica ou a Mitsubishi Fuso, do grupo Daimler, são algumas das empresas alemãs que se instalaram em Portugal e que, ao longo dos anos, têm vindo a reinvestir sucessivamente nas suas fábricas.

Veja-se o caso da Volkswagen Autoeuropa, o maior projeto de investimento estrangeiro no país, cuja fábrica em Palmela foi inaugurada em 1995, mas que não tem parado de crescer. Ainda no ano passado foi assinado um novo contrato com o Estado, desta vez de 677 milhões de euros de investimento até 2019.

A Autoeuropa é um dos maiores exportadores portugueses. E já este ano, no decurso de uma visita do ministro da Economia à Bosch, na Alemanha, o responsável pela empresa admitia que o grupo viesse a acelerar os investimento no país. A Bosch Car Multimedia Portugal permitiu colocar Braga, onde são produzidos cerca de 50% dos autorrádios vendidos na Europa, na vanguarda da tecnologia de ponta a nível internacional

O estudo da CCILA reconhece que as empresas alemãs já instaladas em Portugal são “bons exemplos de investimento direto estrangeiro”, na medida em que apresentam “perspetivas de longo prazo”, dão um “forte contributo para as exportações” e “continuam a investir em tecnologia”, no entanto, destaca que, “em geral, a Alemanha não conhece os fatores de competitividade de Portugal, atribuindo-nos uma atratividade média ou baixa, essencialmente associada a setores tradicionais”.

Basta ter em conta que só 8% das empresas alemãs inquiridas consideraram o país como atrativo para a localização de investimento e, em 92% dos casos, para setores tradicionais, como a cortiça, os vinhos ou o turismo.

“Há uma falta de notoriedade do país, enquanto destino potencial do investimento, e os que nos conhecem têm uma visão tradicional, antiga, desatualizada. Precisamos de aumentar a notoriedade, sobretudo em áreas em que evoluímos imenso, como as das plataformas tecnológicas e as infraestruturas de desenvolvimento, nas tecnologias da informação ou na investigação e desenvolvimento”, diz Bernardo Meireles.

O presidente da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Alemã reconhece que foram feitas “algumas melhorias” desde então, mas que Portugal ainda está longe de atingir as metas que eram propostas neste trabalho.

“Não podemos ter a ambição de sermos atrativos em todos os aspetos, por isso temos de saber posicionar-nos de forma diferenciadora. O custo da investigação e desenvolvimento em Portugal é cerca de um terço do praticado na Alemanha. Temos bons engenheiros, bons gestores, mão-de-obra muito qualificada e a um preço muito interessante, o chamado value for money, e excelentes centros de inovação. Falta-nos criar equipas multidisciplinares mistas, muito focadas naquilo que o país tem para oferecer. Equipas que contem com a experiência de quem, na área privada, conhece bem o setor que se pretende atrair”, defende.

Pires de Lima reconhece que “há muito trabalho a fazer” no que à captação de investimento diz respeito, mas garante que essa tem sido e continuará a ser uma das grandes prioridades do governo.

O ministro da Economia lembra que a Alemanha tem constado dos sucessivos roadshows de promoção da economia portuguesa que o executivo de Pedro Passos Coelho tem realizado pelo mundo. E cita o caso da Autoeuropa, mas também os da Siemens, da Bosch e da Continental, “empresas alemãs que têm vindo a reforçar a sua posição em Portugal, com investimento muito qualificado”. Depois de anos em queda, o investimento direto alemão em Portugal até está a crescer novamente, defende.

“Estamos a fazer o caminho possível”, destaca o ministro, lembrando que a incerteza que se vive na Europa não ajuda e as adversidades com que a economia portuguesa se defrontou no verão passado, em referência a casos como o Banco Espírito Santo e a Portugal Telecom, “desiludiram os investidores”. “Há muito trabalho a fazer”, reconhece Pires de Lima, sublinhando que o investimento alemão “é um investimento produtivo que muito interessa a Portugal”.

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