"Isto não é um incidente menor". O que explica o descarrilamento em Soure?

Veículo de inspeção de via não estava equipado com sistema de controlo de velocidade e terá entrado na linha de circulação indevidamente.

Pelas 15h35, o comboio Alfa Pendular número 143, com destino a Braga, estava prestes a passar pela estação de Soure e aproximava-se da paragem na estação de Coimbra-B. A automotora seguia num dos troços mais rápidos da Linha do Norte, podendo circular entre os 160 e os 220 km/h. Só que junto à localidade de Matas, já no concelho de Soure, o Alfa Pendular viu um veículo de inspeção de via da IP - Infraestruturas de Portugal a entrar na via, proveniente de uma linha de resguardo.

O maquinista do Alfa Pendular só teve tempo para acionar o freio de emergência, sair da cabine de condução e alertar os passageiros da primeira carruagem. O acidente provocou 2 mortos, trabalhadores da IP, que estavam no interior do veículo de inspeção. Dos 212 passageiros do Alfa Pendular, registaram-se seis feridos graves (entre os quais o maquinista) e 18 veículos ligeiros; não houve vítimas mortais.

Mas como se explica um acidente destes numa linha com duas vias, com os mais modernos sistemas de sinalização e considerando que o Alfa Pendular tem o sistema de controlo de velocidade (Convel)? O Dinheiro Vivo falou com o especialista em ferrovia Manuel Tão, investigador da universidade do Algarve, para tentar obter mais esclarecimentos sobre as circunstâncias do acidente.

"Isto não é um incidente menor", assinala Manuel Tão. Na Linha do Norte, "tal como nas restantes linhas", existe um sistema de sinalização que tem, "entre várias funções", garantir que os comboios circulam com a devida distância de segurança e que não colidem uns nos outros.

A sinalização na via é complementada pelo sistema Convel e pela existência de "balizas amarelas" (designadas de transponders). Essas balizas "dão informação às composições, em tempo real, sobre o tráfego existente na via". Além disso, "é fixada para a composição que está a circular uma velocidade máxima de segurança".

Sempre que essa distância de segurança está em risco, "o sistema Convel é ativamente automaticamente. Primeiro, soa um alarme junto do maquinista. Se o maquinista não conseguir travar (por doença súbita, por exemplo), o freio de emergência é ativado e imobiliza a composição" no menor espaço possível.

O veículo de inspeção, "em condições normais, deveria estar equipado com aquele sistema e teria detetado a existência de um veículo na via". Além disso, "é necessário saber se as informações do Convel estavam a ser bem captadas e bem reproduzidas pelo sistema instalado no Alfa Pendular". Só que o veículo de inspeção terá entrado inadvertidamente na linha principal e acabado por levar com a automotora.

Para Manuel Tão, o acidente desta sexta-feira traz à memória o choque de comboios ocorrido não muito longe, na estação de Alfarelos, em janeiro de 2013, entre um comboio Intercidades e um comboio regional. Na altura, os dois comboios não conseguiram para ao sinal vermelho devido a problemas nos carris. Não houve vítimas mortais deste acidente.

Mais de sete anos depois, o acidente desta sexta-feira perto de Soure já está a ser investigado pelo GPIAAF - Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários.

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