Javier Goyeneche: "O importante é parar com a sobreprodução, promoções contínuas e Black Friday"

Para tornar a indústria da moda sustentável é preciso mudar a forma como consumimos e os grandes retalhistas de fast fashion têm de mudar o seu modelo de negócio, defende o presidente da Ecoalf.

O fundador e presidente da Ecoalf, Javier Goyeneche, está em Portugal para promover a sua marca de moda, que tem a particularidade e ser feita apenas com materiais recicláveis. Uma parte é obtida de plástico recolhido do mar por pescadores, no âmbito do programa Upcycling the Oceans, lançado primeiro em Espanha, e depois na Grécia, Itália, França e Tailândia. Em Portugal, a marca é vendida em 46 lojas de dez retalhistas multimarca, mas é ainda pouco conhecida.

Quais são os vossos planos para Portugal. Abrir uma loja própria?
Adoraríamos ter uma loja em Lisboa. Abrimos cerca de uma por ano, temos lojas em Madrid, Barcelona, Berlim, Tóquio e, este ano, em outubro, vamos abrir em Paris. As nossas próximas opções serão Milão, Londres e Lisboa. Olhamos sempre para muitos sítios ao mesmo tempo, e depende onde encontramos o espaço certo. Porque procuramos sempre espaços com "alma". Às vezes aparecem, outras vezes não.

Em Lisboa, para que zonas estão a olhar?
Para o Chiado, toda essa zona, é fantástica, mas em Paris é em Marais, que é uma zona cool em Paris, não é onde estão as lojas de luxo. Em Berlim estamos em Mitte e em Madrid estamos em Malasaña, portanto, tentamos abrir em zonas cool.

E quem é o vosso público-alvo?
Temos sorte em dizer que vendemos 50/50 para homens e mulheres. Em algumas estações é 50/48, outras vezes 51/49. Começámos com um target de 32 a 45 anos, mas agora temos vindo a investir bastante em reciclar algodão, com qual fazemos muitas sweat shirts e T-shirts, e também ténis, que são agora 24% das nossas vendas, portanto, para um público-alvo muito mais jovem.

Que tipo de roupa produzem? Roupa desportiva?
Temos muito outdoor, muitos casacos, mas sim, é uma coleção de sportswear. E depois temos a outra linha que é 1.0, que é a nossa linha premium.

E quem têm em mente. Consumidores preocupados com o ambiente?
A Ecoalf nasceu com a ideia de fazermos produtos intemporais, portanto, nunca vamos ser a empresa da moda, não acredito em produtos que durem três meses.

Não se trata de fast fashion...
Não, e do ponto de vista do design queremos que seja intemporal, porque acreditamos que um design intemporal é muito mais durável e é um sinal de sustentabilidade. Não somos conduzidos pela moda.

As novas gerações está mais conscientes das questões ambientais?
Sinto que as novas gerações são muito contraditórias. Eu vou a muitas escolas e universidades falar sobre o ambiente, aliás, na semana passada estive numa, e vejo que as novas gerações querem ser muito sustentáveis, mas no final do dia querem continuar a comprar 20 t-shirts a cinco euros cada. Mas isso já não é possível. Não podem protestar à sexta-feira e ao sábado comprar quatro t-shirts. Eles perguntam, o que fazemos? Comprar menos, não precisam de 20 t-shirts, têm de comprar menos e melhor.

Mesmo sendo 20 t-shirts feitas com material reciclável?
Sim, mesmo assim. Algumas pessoas pensam que só porque usam tecidos sustentáveis estão a ser sustentáveis. Mas não é verdade. O que está a destruir a indústria da moda, e a razão por que é a segunda mais poluente do mundo, é o modelo de negócio que está por trás. É um modelo de negócio de comprar e deitar fora, comprar e deitar fora, descontos, promoções, Black Friday, biliões de peças de roupa a irem parar aos aterros. Houve um artigo há uns meses, terrível, sobre a maior empresa de plantação de algodão do mundo, a queimar quatro mil hectares de floresta para plantar algodão. Portanto, estamos a queimar a floresta, para plantar algodão, para fazer t-shirts de cinco euros, que vão parar ao aterro, em grande percentagem, em menos de dois anos. Isso já não é possível. Com mais 150 mil pessoas todos os dias no mundo, vamos ser mais dois biliões de pessoas em 2050, não há floresta suficiente, não há água suficiente - cada t-shirt usa 2500 litros de água -, não há aterros suficientes para isso tudo. Por isso temos de mudar a forma como consumimos. Penso que a nova geração tem um problema de consumo.

As grandes cadeias de roupa podem ter um papel importante na transformação da indústria? Por exemplo, a Primark anunciou na semana passada que até 2030 todos os seus produtos serão de materiais recicláveis.
Vou ser um pouco duro... Em primeiro lugar, não é preciso esperar até 2030 para ter toda a roupa sustentável. A Ecoalf tem todos os seus artigos sustentáveis, não é preciso esperar nove anos, é demasiado longe, demasiado confortável.

Mas há a tecnologia, materiais disponíveis, capacidade produtiva, para tornar isso possível já hoje?
Há muita capacidade e houve muita evolução desde que começámos, em 2010. Nós desenvolvemos mais de 150 tecidos reciclados. Quando começámos, não havia nada, a qualidade era muito má, e agora a indústria mudou muito. Há muitas opções, é claro que é muito mais caro, mas as opções existem. Portanto, a Primark, quando diz isso, é preciso ver que, em primeiro lugar, o desafio é muito fácil; em segundo lugar, a Primark tem outro problema, que é não ser sustentável enquanto empresa. Porque está a criar uma quantidade enorme de desperdício. Eles deviam mudar o seu modelo de negócio se querem ser sustentáveis. E, por outro lado, a grande mudança tem de vir dos grandes players. Eles têm o volume, as equipas, os recursos, para fazer esta mudança. Mas tem de ser séria. E isso significa mudar, em primeiro lugar, o modelo de negócio.

Há ainda muito a fazer para a sustentabilidade da indústria da moda?
Há muito a fazer, e penso que temos de ir juntos, para irmos mais depressa. É muito importante colaborar, partilhar know how, partilhar tecnologia, penso que temos alguns desafios. O final do ciclo de vida de um produto é muito importante, a circularidade. Temos estado a investir em investigação, quando começámos, em 2013, fizemos um grande erro, porque lançámos um fio que era 50% algodão reciclado e 50% poliéster reciclado, que pensávamos que era fantástico, era fio 100% reciclável, mas no fim de vida é muito difícil reciclar aquela t-shirt, porque tem dois fios. Por isso já não misturamos fios. Portanto, para pensar em como ser sustentável, antes, é preciso desenhar a pensar em como vou reciclar de novo aquela peça dentro de alguns anos. É algo que tem de começar com as equipas de design. Portanto, esse é um desafio enorme, e também torna mais complicado o design, porque às vezes temos de misturar para os tecidos terem melhor aspeto. Temos também o problema dos microfilamentos, que é também um desafio enorme. Não só de tecidos sintéticos, mas também orgânicos, A lã e o algodão têm muito material de tingimento, que são químicos, e estão a lançar milhões de microfilamentos nas águas. Quando se lava uma roupa é como mandar um saco de plástico para a água. Vamos lançar em 2022 - apresentámo-lo há dois meses -, o primeiro filamento que não lança microplásticos de volta para o sistema quando é lavado. Portanto, há muita coisa que é preciso fazer, que exige muita tecnologia, mas o que é importante é parar com a sobreprodução, com as promoções contínuas, Black Friday, descontos, produzir exatamente o que precisamos de vender para que biliões de peças não vão aos aterros. Há muitas mudanças que temos todos de fazer, sobretudo as grandes empresas de fast fashion.

Os consumidores também?
Os consumidores têm muita força, se os consumidores forem na direção certa forçarão as empresas a ir nessa direção muito rapidamente, e com o tempo vão dar uma mensagem clara à indústria.

A Ecoalf faz o design e a investigação e subcontrata tudo o resto?
Nós começamos pelo desperdício. Para nós é muito importante produzirmos o produto final onde obtemos o desperdício. Reciclamos os pneus usados em Espanha, fazemos os flip flop em Espanha, reciclamos algodão em Portugal, fazemos a t-shirt final em Portugal. Toda a produção é subcontratada, por isso, basicamente, fazemos o design, a investigação e desenvolvimento, temos a nossa equipa de sustentabilidade e inovação, a equipa das compras, designers... Somos 68 no escritório, em Madrid. E depois procuramos os parceiros que nos ajudam a converter aquela garrafa de plástico num polímero, que passa para os produtores de fio, que vai para a fiação... É uma cadeia, é aí que somos GRS (Global Recycle Standard), somos a primeira empresa em Espanha a receber este selo, rastreabilidade total, desde o desperdício até à ao produto final.

O que produzem em Portugal?
Sweat shirts, t-shirts, calças, yoga line, leggings, tops, camisas, polos, muita coisa.

E onde é feita a transformação do desperdício em fio?
Algumas vezes em Espanha e outras vezes em Portugal. Em Portugal há muito know how, Portugal, na área têxtil, é um dos países mais avançados da Europa.

A vossa matéria-prima vem em parte do mar?
Uma parte sim, o algodão vem das sobras das fábricas, os pneus usados vêm também da terra, as sobras do café também, a lã, a caxemira. O nosso projeto Upcycling the Oceans, que começou em 2014, que começou com os pescadores espanhóis na costa leste e agora é um projeto muito grande, trabalha com 3500 pescadores em Espanha e agora temos 16 portos na Grécia, Itália, França. O nosso objetivo é trabalhar com dez mil pescadores em todo o Mediterrâneo e tirar mil toneladas de desperdício todos as anos do oceano. E desse desperdício que tiramos do oceano, todos os anos, 12% são garrafas de plástico, que depois convertemos em tecido de fio de polímero.

Também recolhem muito lixo que não podem usar, como latas. O que fazem com ele?
68% do que recolhemos do oceano volta para o sistema de reciclagem. Todas as latas de alumínio, todo o vidro, todas garrafas de propileno, protileno e PET, 32% não podemos usar porque está muito destruído. Não usamos esse desperdício, volta para o sistema.

Vão estender esse programa a Portugal?
Gostaríamos muito, chegámos a ter conversações, mas o problema é que uma grande percentagem do desperdício está no fundo do oceano - quando uma garrafa de plástico não tem tampa, afunda. E não há muitas traineiras em Portugal. Os barcos de pesca em Portugal são barcos que saem por cinco dias, ou uma semana, ou um mês. Não são as típicas traineiras que vão com as redes até ao fundo do mar e regressam ao final do dia. Portanto, nos começámos conversações, gostaríamos muito de o fazer, mas não encontrámos muitas traineiras. Podemos voltar a tentar, porque gostaríamos de implementar o programa em Portugal. Também não trabalhamos com os pescadores do norte de Espanha, Cantábria, Santander, Astúrias, não trabalhamos com eles, porque também os barcos saem para dez, 15 dias, um mês, e quando falamos com eles dizem que não têm espaço no barco e fica a cheirar mal.

Já estava ligado à indústria da moda antes de criar a Ecoalf em 2009?
Tinha outra empresa de moda, a Fun & Basics, vendia-a em 2008, e depois fiquei um bocado cansado de moda e decidi que queria trabalhar em sustentabilidade. Demorei dois anos a encontrar um bom projeto. Procurei uma fundação, mas não consegui encontrar, em Espanha ainda não há fundações fortes na área da sustentabilidade. Os meus dois filhos tinham nascido, Alfredo e Álvaro - daí o nome Ecoalf, por causa deles - e decidi que queria criar uma empresa que procurasse unir moda e sustentabilidade. Pensei que a coisa mais sustentável a fazer era não continuar a usar recursos naturais, por isso, reciclar podia ser uma solução. Foi aí que comecei a investir bastante em reciclar desperdício.

Voltando ao mercado português, quais são os vossos objetivos?
Queremos introduzir a marca, somos uma empresa multicanal, vendemos para revendedores, gostamos de abrir as nossas flagship stores - adoraríamos ter uma em Lisboa -, e depois temos o online. Agora queremos apresentar a marca, porque a notoriedade em Portugal é muito baixa.

Qual é a importância do canal digital?
Para nós, representa 20% da nossa faturação, que, se tudo correr bem, será de 42 milhões de euros este ano.

E qual foi a faturação em 2019?
Em 2019 foi de 14 milhões de euros.

Cresceram imenso com a pandemia...
Muito, 70%.

O que explica o crescimento?
Não tínhamos muitas lojas, o online disparou, e o negócio de revenda está a crescer muito na Europa. Portanto, agora temos à volta de 1800 clientes na Europa, só 20% em Espanha. A Alemanha está a crescer muito, Áustria, Suíça, Escandinávia, portanto, o nosso negócio de revenda continuou a crescer.

Em que é que está a trabalhar para o futuro?
Divido o meu tempo entre e a Ecoalf e a Fundação Ecoalf. A Ecoalf é uma empresa de moda, o objetivo é ser internacional e tentar ser o mais sustentável possível, portanto, temos muitos desafios em relação ao ciclo de fim de vida, microplásticos, materiais de tingimento, circularidade, estamos a trabalhar em muitos projetos de I&D. A fundação Ecoalf é sobre o oceano, criar consciência, a ideia é expandir o projeto Upcycling the Oceans. É um pouco ambicioso, mas queríamos trabalhar com pescadores em todo o mundo para criar esta consciência. E transmitir a mensagem de que temos de parar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de