Rebelo de Almeida: "É urgente" limpar a má imagem das últimas semanas e dar confiança aos turistas

Presidente do Vila Galé garante que não houve despedimentos no grupo e que, apesar da pandemia, mantiveram os investimentos previstos. Se a situação recuperar "poderemos no final deste ano arrancar com outros investimentos".

O Vila Galé é um dos maiores grupos hoteleiros em Portugal, onde tem 27 unidades (outras dez no Brasil). Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo, em entrevista por escrito ao Dinheiro Vivo, assume que tem apenas quatro hotéis em Portugal abertos e que depois de abril, se houver um desconfinamento, poderão começar a abrir mais.

Como é que foi 2020 para o Vila Galé?

Esta é, sem dúvida, a crise mais grave que já vivemos. Devido à pandemia, a partir de março de 2020 fechámos a maioria dos hotéis em Portugal e no Brasil e nessa fase a receita foi praticamente zero. Depois, no verão, reabrimos várias unidades em Portugal e verificou-se alguma procura. Estávamos no bom caminho e a registar já alguma recuperação económica, ainda que muito ténue e suave. Eram sinais positivos. Por exemplo, nos nossos hotéis do Alentejo, a procura foi, num curto período de tempo, razoável. Também conseguimos taxas de ocupação elevadas em hotéis como o Vila Galé Serra da Estrela ou em Alter do Chão, o que superou as expectativas que tínhamos. Mas quando se fecharam os corredores aéreos para o Reino Unido e, posteriormente, com o agravar dos números da pandemia em Portugal - que trouxeram mais restrições à circulação - os turistas e os clientes praticamente desapareceram a partir de meados de setembro. Com exceção de algumas semanas no verão, há quase um ano que estamos praticamente sem atividade, o que é um cenário que nunca imaginámos que pudesse acontecer.

Ao nível dos resultados, o que é pode adiantar?

Em Portugal, a indústria do turismo caiu mais de 70% e os dados oficiais mostram a pior performance de sempre nos vários indicadores. O balanço é catastrófico, com perdas irrecuperáveis. Com o encerramento dos restaurantes e hotéis, as quebras nas vendas de vinho e azeite Santa Vitória, produzidos no Alentejo, também foram enormes. E o lançamento dos nossos vinhos do Douro com a marca Val Moreira, apesar da elevada qualidade, ficou prejudicada também pelas mesmas razões.

Que perspetivas têm para este ano? O verão pode ser o início da retoma?

Penso que ainda vamos ter pela frente algumas semanas em que o problema sanitário ainda será muito sério. Mas também é preciso passar uma mensagem de otimismo. Se aplicarmos uma política de testagem e rastreio robusta, se continuarmos com todas as medidas de precaução como as máscaras, a desinfeção e a distância social, e se a vacinação decorrer a um bom ritmo, quero acreditar que dentro de dois ou três meses poderemos começar a ver a situação a melhorar. Havendo um desconfinamento progressivo, poderá surgir alguma procura, ainda que tímida, a partir de meados de abril por parte dos portugueses. Eventualmente, no início do verão talvez os hotéis já comecem a ter uma maior procura. A Covid não vai desaparecer e vamos ter de manter todas as precauções ainda por alguns meses. Mas também temos de voltar a tratar dos problemas económicos e aqui o turismo pode ter um papel fundamental na retoma da economia.

É possível que, com a pandemia, as exigências de distanciamento e a procura por espaços que gerem menos aglomerados populacionais se mantenha. Têm unidades em localizações de praia mas também têm unidades no Norte, Centro e Alentejo que permitem uma maior distância entre pessoas. Vão apostar mais nessas? Quais são os planos para a retoma?

Temos um portefólio variado tanto a nível de localizações como de tipo de hotel, tanto na praia, como no campo ou na cidade e até na montanha, com a abertura do hotel Vila Galé Serra da Estrela. De facto, e olhando para o que aconteceu no verão passado, admitimos que haverá efetivamente mais procura por unidades de menor dimensão, em zonas com menos densidade turística, que estejam próximas da natureza e que propiciem a prática de atividades ao ar livre. Outra tendência que deverá crescer é a procura por estadias longas por parte de quem pode trabalhar remotamente e que queira aproveitar para conjugar a atividade profissional com o lazer. Temos vindo a criar propostas neste sentido, seja através de oferta adequada para este tipo de público, seja com o lançamento de experiências temáticas em que se conjuga alojamento com, por exemplo, caminhadas, batismos de surf, apanha de cogumelos, observação de estrelas ou aulas de equitação.

O mercado interno suportou a atividade turística em 2020. Será assim em 2021?

Sim, de facto, grande parte da procura que tivemos no ano passado veio do mercado interno. O mesmo deverá acontecer em 2021, pelo menos numa primeira fase. Se se mantiver a redução dos números da pandemia e quando for possível avançar para um desconfinamento progressivo, acreditamos que o mercado nacional poderá começar a mexer a partir de meados de abril. Os mercados estrangeiros eventualmente começarão a retomar no segundo semestre. No entanto, sem procura externa, o mercado interno não é suficiente para ocupar a nossa oferta hoteleira.

Têm lançado várias iniciativas - refeições em take away, adaptação para teletrabalho, venda de produtos -, que balanço é possível fazer?

Sim, apesar da pandemia e de termos a maioria dos hotéis fechados, sempre defendi que não podemos parar. Temos de nos manter ativos e a pensar, a procurar fazer coisas e a inovar. Por isso, adaptámo-nos e lançámos várias novidades como o take away tanto dos restaurantes de alguns hotéis como das pizzarias Massa Fina e aqui incluímos não só as refeições principais como o pequeno-almoço de hotel ou o brunch. Também criámos uma loja online onde vendemos produtos iguais aos que temos nos hotéis - mobiliário, colchões, almofadas, têxtil-lar, artigos de decoração, televisões, aparelhos de ginástica - para que as pessoas possam levar para casa o conforto da Vila Galé. Paralelamente também acelerámos e otimizámos vários processos de e-commerce através das nossas plataformas, como o site, e a digitalização de procedimentos. Um exemplo disso é o lançamento do portal My Vila Galé onde os clientes podem fazer check in, check out, ver as cartas dos restaurantes e bares ou o menu do spa através dos seus dispositivos móveis. Ainda que o retorno não seja comparável ao do alojamento, fazemos um balanço positivo destas propostas porque permitiram que alargássemos a nossa oferta e a notoriedade da marca, mantendo também as equipas a trabalhar e a procurar novas soluções. Os grandes benefícios são sobretudo esses.

Essas iniciativas podem ficar para o pós-pandemia? Podem ser um novo segmento de negócio?

Sim, provavelmente manteremos alguns destes serviços, porque fazem todo o sentido para complementar a nossa atividade principal.

Como é que o grupo tem lidado com este segundo confinamento ao nível do emprego? Reduziram ou vão reduzir pessoal? Recorreram a outros mecanismos de apoio do Estado?

Não despedimos ninguém e temos procurado manter sempre uma grande proximidade com toda a gente. Apesar de termos a maioria dos hotéis fechados, não podemos deixar as pessoas abandonadas. Pelo contrário, temos de criar condições para que se mantenham ativas, até para evitar alguns efeitos mais depressivos ou de desânimo que possam surgir. Por isso, temos dado muita formação às nossas equipas, por exemplo em línguas estrangeiras como o alemão e francês, ou em questões mais operacionais como manutenção, higiene e segurança ou alimentação e bebidas. Nesta fase recorremos aos mecanismos de apoio à retoma e é uma grande preocupação nossa garantir que todos estão bem. Nesta linha, temos previsto para o início de março, de 1 a 5, a convenção anual da Vila Galé que, este ano, vai realizar-se totalmente online e contar com a participação dos mais de 2.500 colaboradores do grupo, em simultâneo em Portugal e no Brasil. Todas as equipas poderão apresentar as suas ideias sobre as novas tendências de consumo e sobre o futuro do setor e da empresa, sendo que também teremos palestras e mesas redondas com convidados externos de áreas como gastronomia, sustentabilidade, artes, recursos humanos ou tecnologia.

Ao nível de investimentos, houve alguma alteração?

Apesar da pandemia, cumprimos o nosso calendário de aberturas estipulado para 2020. No ano passado, tal como previsto, abrimos o Vila Galé Serra da Estrela, em Manteigas, o Vila Galé Collection Alter Real, em Alter do Chão, e o Vila Galé Paulista (São Paulo, Brasil). E concluímos a segunda fase de expansão do Vila Galé Douro Vineyards. Também iniciámos a construção de mais um resort no Brasil, o Vila Galé Alagoas. Será um resort all inclusive, com 518 quartos, seis restaurantes, spa, oito salas de reunião e um parque aquático infantil. Representa um investimento de 150 milhões de reais e deverá gerar 600 postos de trabalho, prevendo-se que possa estar concluído em Abril ou Maio de 2022. E continuamos a trabalhar no projeto da Vila Galé em São Miguel, nos Açores. O espaço onde antigamente funcionava o convento e hospital de São Francisco será reconvertido numa unidade hoteleira com cerca de 100 quartos, restaurantes, bar, piscinas e spa. Já este ano, concluímos também a nova sede da Vila Galé, em Oeiras. Já passei por muitas crises e a minha experiência diz-me que, havendo capacidade, devemos continuar a investir, caso contrário, seguramente destruímos ainda mais a economia. Por isso, continuamos a trabalhar também noutros projetos ainda em fase de aprovação, nomeadamente o hotel Vila Galé Nep Kids, um hotel para crianças, que será na herdade onde já temos o Vila Galé Clube de Campo, perto de Beja, e também o agroturismo Monte da Faleira, no mesmo local. Se a situação recuperar e a luz ao fundo do túnel ficar mais intensa, poderemos no final deste ano arrancar com outros investimentos como o dos Açores.

Até à pandemia, Portugal era muito dependente do turismo externo, sendo os principais mercados emissores europeus. Qual deveria ser a estratégia de promoção do destino?

É urgente fazer uma forte aposta num plano de comunicação para "limpar" a má imagem que passámos com os números das últimas semanas e também para transmitir confiança e segurança aos turistas. Teremos também de tomar medidas para incrementar o transporte aéreo, sendo que o aeroporto de Lisboa deverá ser uma prioridade. A abertura aos mercados brasileiros e norte-americano também seria uma forma de alargar o número de mercados emissores, onde prevalecem ainda os turistas europeus. Será também importante pensar-se no passaporte sanitário comprovativo da vacinação de modo a fomentar as viagens.

O grupo está também presente no Brasil, onde tem nove unidades. O Brasil é país muito dependente do mercado interno ao nível turístico. As viagens de Portugal para o Brasil estão proibidas. Como é que está a operação no Brasil? Quais são as expectativas?

No Brasil, temos atualmente dez unidades. Abrimos a décima em agosto, o Vila Galé Paulista, em São Paulo. Atualmente, todas estão a funcionar e esta época alta até correu relativamente bem face às expectativas, sendo que o mercado interno representa de facto a quase totalidade da procura. Efetivamente, o turismo interno tem um grande peso no país e é isso que justifica esta performance.

Como é que o setor do turismo em Portugal sairá desta crise?

Tratando-se de uma crise sanitária, a prioridade deve ser controlar a pandemia. Para tal, teremos de manter ainda por algum tempo e com rigor todas as medidas de precaução e investir fortemente em rastreios para deteção atempada de casos. Nesta fase, é também essencial continuar a reforçar o Sistema Nacional de Saúde para responder à atual situação e a crises futuras que surjam e, paralelamente, reforçar a vacinação porque só haverá retoma quando este processo estiver em velocidade de cruzeiro. Quanto a incentivos à retoma, será essencial apoiar o investimento/reinvestimento nacional, reduzir o IRC, promover apoios financeiros parciais a fundo perdido, agilizar os licenciamentos, desenvolver um plano de captação de investimentos estrangeiros através de incentivos e retomar os vistos gold.

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