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Jornalismo “certificado” faz a diferença na era digital

Fotografia: REUTERS/Eric Gaillard
Fotografia: REUTERS/Eric Gaillard

O jornalismo "certificado", que confirma e enquadra a notícia, pode fazer a diferença na "avalanche" informativa da era digital.

O jornalismo “certificado”, que confirma e enquadra a notícia, pode fazer a diferença na “avalanche” informativa da era digital, defenderam hoje, em Aveiro, responsáveis de quatro órgãos de comunicação social, numa conferência organizada pela Lusa.

Graça Franco(RR), Henrique Monteiro (Impresa), José Manuel Fernandes (Observador) e José Carlos Lourenço (Global Media Group) defenderam que a comunicação social tem de acompanhar a revolução tecnológica, mas não se pode descaracterizar no universo digital, durante a conferência “Revolução digital e jornalismo. Que futuro para as empresas de média?”, organizada pela Lusa no âmbito dos seus 30 anos e no decurso do Fórum Nacional de Tecnologia.

No debate moderado por Ricardo Jorge Pinto, a diretora da Rádio renascença, Graça Franco, mostrou preocupação com a “instantaneidade” que as novas tecnologias permitem, e a tentação da “notícia” imediata, sem tempo para a verificação da sua veracidade, a sua análise e enquadramento”.

Para uma rádio com 80 anos, reconheceu, há que estar onde estão as gerações mais novas para as captar, mas com a preocupação de dar a notícia com qualidade, mais do que “em primeira mão”.

Apesar dos perigos da evolução tecnológica, nomeadamente para a qualidade da informação – “há quem pense que o saber está todo numa consulta ao Google”, observou -, a diretora da Rádio Renascença acredita que a tecnologia, se for bem usada, pode trazer vantagens de rigor, exemplificando com o número de pessoas que participam numa manifestação, que é já possível medir com maior rigor com as novas ferramentas ao serviço do jornalismo.

“O problema não estará tanto na revolução tecnológica, mas na crise da ética da comunicação, como em outras éticas em crise”, disse.

Henrique Monteiro, diretor-geral do grupo Impresa, sublinhou que “as tecnologias por si só não alteram o caminho que as sociedades já levavam” e tanto assim que, ao longo do tempo nunca um novo meio acabou com o anterior.

“Os jornais e revistas, as rádios, as televisões vão subsistir, mas de formas diferentes e anichando-se com públicos mais reduzidos e especializados”, considerou.

Para aquele responsável, perante “avalanches de informação sem critério, sem ser escrutinadas e sem atualidade confirmada” e numa época em que “a notícia em si mesma é hoje um bem partilhado e de baixo valor”, o jornalismo tem de saber dar valor acrescentado ao leitor, acrescentando dados à notícia e fazendo investigação que a complete.

“Esse é o grande desafio: é mais importante dar primeiro ou dar melhor? A ideia da cacha jornalística é pré novas tecnologias. Hoje ninguém sabe quem deu primeiro”, comentou.

José Manuel Fernandes, “Publisher” do Observador, questionou a ideia de que “mudam os suportes e o jornalismo se mantém”.

“Sabemos o que está a ser mais lido online e não o podemos ignorar. A maior parte das pessoas é já na tecnologia que têm acesso à informação, sem terem bem consciência de como acedem. Os sites são acedidos por 200 e 300 mil pessoas, o que compara com as tiragens dos jornais”, descreveu.

“Essa nova realidade não pode ser ignorada”, sustentou, e “a função do jornalista, que era o polícia-sinaleiro do que é e não é notícia, perdeu o seu lugar. Tem hoje mais como missão o enquadramento e explicação que pode dar à notícia e também descobrir a notícia escondida, pelo que o papel do jornalista de investigação não desapareceu. O papel do jornalista é que evoluiu e muitos não perceberam isso”, defendeu.

Sobre o posicionamento claro dos media e, no caso do Observador, José Manuel Fernandes sustentou a tese de que “a transparência de opções não colide com a certificação da informação, mas as agendas é que são diferentes”, o que é diferente da “tribalização das opiniões públicas, que começou com a tv cabo e a blogosfera e as redes sociais agravaram, em que as pessoas não trocam ideias e apenas reforçam os seus argumentos”.

José Carlos Lourenço, administrador do Global Media Group, admitiu que “a tecnologia trouxe a revolução à forma como as redações estavam organizadas e alavancou a mudança de modelos de negócio”, mas abre oportunidades.

“Quem não se tiver apercebido, está a ter imensos problemas e se não arrepiar caminho não tem futuro, mas há novos desafios, não uma maldição. São duas faces de uma moeda que ainda não se encontraram, mas mesmo os órgãos de comunicação social mais antigos nunca tiveram tanta visibilidade”, comentou.

Para o representante do Global Media Group, a revolução tecnológica veio também trazer novos problemas ou ampliá-los, como a luta pelo respeito pelos direitos de autor, que carece de reflexão.

“Pirataria de conteúdos sempre houve, mas era quase inócua. Com a aceleração da tecnologia surgiu uma certa pirataria com fins corporativos, de dimensão global, que se apropria do que outros produzem sem partilhar as receitas geradas dessa forma”, criticou.

No comentário final à conferência, Felisbela Lopes da Universidade do Minho sintetizou as principais posições dos diferentes oradores e enumerou algumas das questões transversais às edições on-line dos media portugueses.

Uma delas, disse, é que falta a produção de conteúdos de raiz digital, continuando a ser produzidos os mesmos produtos informativos, ainda que adaptados, e esse é um salto tecnológico que falta dar.

 

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