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José Martins Nunes. “Conhecimento é a principal riqueza de países desenvolvidos”

José Martins Nunes

José Martins Nunes é o alto-comissário para a Saúde Global e chefe de serviço de anestesiologia no Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra.

Inteligência artificial, big data, internet das coisas (IoT) e o conhecimento do genoma humano já começaram a revolucionar os sistemas de saúde por todo o mundo. José Martins Nunes, alto-comissário para a Saúde Global, nomeado pelo Ministério da Saúde em julho de 2018, identifica as oportunidades e desafios da saúde digital para Portugal.

É o presidente do júri do Prémio Saúde HINTT – Maturidade Digital. O que se pretende apoiar com esta iniciativa?
O prémio foi um desafio feito às empresas tecnológicas de base saúde, universidades, investigadores e hospitais – públicos e privados. A ideia é que essas propostas venham dar foco ao doente, conseguir ganhos em saúde, dar satisfação aos utentes e aos profissionais e que possam “turbinar” o conhecimento com vista a uma cada vez maior eficiência do setor. Foi com muita satisfação que recebi e aceitei este convite. Este prémio tem o mérito de selecionar soluções tecnológicas que possam ser o futuro. Trata-se de um prémio que desafia os investigadores, as startups. Vamos premiar uma solução de futuro!

Sobre as candidaturas recebidas, estão em linha com as suas expectativas?
Temos neste momento dez candidaturas selecionadas. O júri está a trabalhar com enorme profundidade nas várias propostas para selecionar aquela que do ponto de vista do conhecimento da ciência, da investigação e do futuro seja a melhor em 2018. O júri já se reuniu e até final de setembro saberemos quem será o vencedor. Todas as candidaturas são boas resta escolher a melhor. Estou convencido de que este prémio irá ditar tendências de soluções tecnológicas para os próximos anos.

Que tendências são essas?
As novas tecnologias em saúde irão manter a relação humana virtuosa entre o médico e o doente. Não é possível ter apenas a tecnologia a confrontar a doença; temos de ter no processo o homem, o médico, os profissionais de saúde… É nessa conjugação, do conhecimento dos profissionais e da evolução tecnológica, que o mundo está a encontrar a sustentabilidade, o caminho. A tendência é, na minha perspetiva, juntar o avanço das novas tecnologias e o conhecimento científico com a vertente humanista do exercício da medicina.

Na sua opinião, quais são os indicadores que o Serviço Nacional de Saúde português pode incrementar?
Ao longo dos anos temos vindo sempre a melhorar a generalidade dos indicadores de saúde. Portugal ocupa o 12.º lugar no ranking mundial. Como alguém lembrou há relativamente pouco tempo, Portugal, a 47.ª economia do mundo, gera o 12.º Serviço Nacional de Saúde (SNS) de todo o globo. O SNS foi criado em 1979 e desde então tem-se registado um progresso constante. Na década de 90 do século passado, uma das principais realizações do SNS materializou-se na melhoria da taxa de mortalidade infantil. Neste indicador, Portugal ocupa um lugar cimeiro a nível mundial. Temos vindo a melhorar muito no aumento da esperança de vida, redução de casos de tuberculose; continuamos a assistir a uma redução da notificação e incidência da doença no país. A nossa posição é muito boa também no tratamento de doenças cardíacas e oncológicas.

E, do ponto de vista do utente, o que pode ser melhorado?
O SNS tem necessariamente de melhorar de forma permanente. Passámos de um sistema assistencial caritativo para um sistema em que a Constituição reconhece o direito à saúde como um direito fundamental ou de personalidade. No próximo ano completam-se 40 anos do SNS. Devemos estar orgulhosos do que já foi conseguido até hoje, tanto do lado dos profissionais de saúde como da melhoria constante do serviço e do acesso à saúde.

O cluster da saúde (health cluster) em Portugal tem como missão tornar Portugal num player competitivo na investigação, conceção, desenvolvimento, fabrico e comercialização de produtos e serviços associados à saúde, em nichos de mercado e de tecnologia selecionados. O que lhe parece esta ambição? Estaremos cada vez mais perto dela?
Juntaram-se os vários stakeholders da saúde, ou seja, as várias partes interessadas do setor, para constituir esta organização que estuda várias áreas de evolução da própria saúde em Portugal. O cluster da saúde tem tido um papel muito importante na internacionalização da saúde e no estímulo às exportações da saúde, que, em 2016, ultrapassaram os mil e quatrocentos milhões de euros. Estas vendas para o exterior foram desde equipamento a conhecimento, entre outras. O Health Cluster Portugal está fundamentalmente focado na internacionalização da saúde.

Como está a ser feita a internacionalização da saúde?
Aproveitando o prestígio do país, do nosso SNS, a qualidade das nossas instituições, tanto privadas como públicas. Mas, em grande medida através das nossas dinâmicas startups, algumas delas de crescimento acelerado, empresas-gazela. Estas novas empresas inovadoras têm um papel importante na exportação de produtos de saúde. Isto porque o conhecimento é a principal riqueza e uma das mais importantes fontes de rendimento dos países desenvolvidos. Ou se tem conhecimento e se consegue internacionalizar ou não se tem e perde-se a capacidade de ser competitivo nas vendas para o exterior. Portugal tem sabido aproveitar este nicho de oportunidade. As nossas empresas têm desenvolvido novas tecnologias de base saúde e têm sabido transformar o conhecimento em “valor”. Através de um “ecossistema de saúde” robusto temos mais hipóteses de tirar partido das nossas potencialidades. Portugal tem na saúde uma cadeia de valor de qualidade e um clima que é favorável ao investimento em eHealth [saúde eletrónica] e em centros de tecnologias digitais de I&D de base “saúde”, assim como competitividade no desenvolvimento e aplicação à saúde de novas e inovadoras soluções digitais.

Que projetos estão neste momento em curso?
Há vários. Por exemplo, projetos-piloto na área assistencial e projetos de internacionalização das instituições. São fundamentais certos marcos que revelam a competitividade do país, como a admissão de Portugal na Aliança M8, organização conhecida como o G8 da saúde. Esta entrada no grupo dos melhores aconteceu em 2015 e foi conseguida através do consórcio Universidade de Coimbra e Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra. Só cinco países da União Europeia têm centros académicos com assento nesta organização. Este projeto merece destaque, pela possibilidade de intervir, por direito próprio, na definição das políticas de Saúde Global ao integrar através da M8 Alliance a Cimeira Mundial de Saúde. Assim, desde há três anos que Portugal tem uma palavra a dizer no que toca à definição de políticas de Saúde Global através do Consórcio Coimbra Health. É um “valor” reputacional importante.

Acredita que o Sistema Nacional de Saúde pode reduzir custos à medida que integra as tecnologias digitais?
As tecnologias digitais permitem poupanças enormes, redução de custos, aumento da fiabilidade da informação, diminuição das repetições de informação, etc. Atua sobre a eficiência da prestação e acesso à saúde. Também na área da prevenção, desenvolve projetos preditivos estatísticos que conduzem ao melhor conhecimento da situação atual do doente pelos profissionais de saúde. Estes desejam ter equipamento e conhecimento que, em tempo real, lhes transmita a situação e o que podem fazer pelo doente. À medida que se aprofundam as tecnologias digitais, o Sistema Nacional de Saúde (público, privado e social) tem vindo a beneficiar e a retirar daí vantagens.

Que tecnologias digitais o sistema nacional de saúde tem implementadas?
A telemedicina, a visualização dos meios complementares de diagnóstico, a tecnologia de visualização de parâmetros em tempo real (cardíacos, pulmonares). Este é o caminho do futuro. Nunca podemos dizer que estamos satisfeitos com as tecnologias porque o seu desenvolvimento não vai parar. Nos últimos 20 anos, registou-se um enorme e imprevisível desenvolvimento, com grande rapidez.

E nas farmácias?
A inovação tecnológica digital começou nas farmácias, antes dos hospitais. No setor farmacêutico, a receita eletrónica é hoje também uma inovação importante. Hoje, o doente vai a uma consulta numa instituição de saúde e tem em qualquer farmácia a receita eletrónica.

Como podemos beneficiar do Projeto Genoma Humano, que começou em 1990 e tem como objetivo mapear toda a estrutura do genoma humano e sequenciá-lo?
Estamos numa fase adiantada na relação virtuosa entre os big data e o genoma humano. Quando juntamos os grandes dados com o conhecimento do genoma humano, estamos a criar a medicina de precisão. Até aqui, fazer um levantamento da carta genética de cada um era um exame muito caro. A previsão é que nos próximos anos possa ser muito mais barato, tornando a carta ou a seriação genética num exame próximo de um exame de rotina. Quando juntamos a análise de grandes dados ao conhecimento do genoma, conseguimos identificar medicamentos personalizados para o próprio doente, mas também para a doença e para o determinado tipo de células que queremos atingir.

Refere-se à medicina personalizada, de precisão?
Estou a ir além da medicina personalizada. O futuro é a medicina de precisão. Trata-se da medicina aplicada, não só ao doente mas à doença, e sobretudo àquela zona da doença em que podemos intervir. O futuro está na capacidade de reunir dados numa grande base de dados e a partir daí formalizar a ideia de que podemos fabricar um medicamento para um doente, para a sua doença e para as suas células doentes. É um grande avanço, impensável há 20 anos.

Em que ponto de desenvolvimento está Portugal na área do genoma?
Portugal está na fase de formalizar bases de dados. Há várias entidades a trabalhar na área do genoma. No curto-médio prazo Portugal poderá ter uma boa área de medicina de precisão. A expectativa é que uma seriação genética que no passado custava um milhão de dólares hoje custe muito menos e assim consecutivamente nos próximos anos. Em breve poderemos ter um mapa genético ou uma seriação genética a preços compatíveis com as possibilidades dos serviços de saúde (públicos e privados) e dos cidadãos. Não é possível prever quando e quanto, o que sabemos é que estamos no caminho certo.

Qual é a sua opinião sobre plataformas de medicina online como DrEd; PatientsLikeMe ou ZocDoc?
São soluções que têm vindo a ser desenhadas com a ajuda dos profissionais e dos doentes. Estamos nesse caminho. É a tecnologia na ótica da telemedicina, na área da satisfação do doente face ao acesso aos cuidados de saúde. Nestas plataformas é possível marcar consultas online, consultar o historial da patologia, a história clínica do doente, entre outras vantagens para o paciente e para os profissionais.

Qual é o papel da educação e da formação dos médicos e técnicos, bem como dos pacientes nesta caminhada em direção à saúde digital?
Hoje, universidades e escolas profissionais já estão a integrar o novo conhecimento. A medicina foi sempre, ao longo dos séculos, integradora de novos conhecimentos. Ao mesmo tempo é preciso não esquecer a responsabilidade dos Estados. Os governos têm vindo a desenvolver políticas que possam aproveitar o conhecimento e o valor gerado pelos investigadores. Dependemos dos talentos. Os países modernos e competitivos têm de reconhecer o quanto os talentos são importantes para a criação da riqueza e para o progresso. Os talentos têm avidez por conhecimento e inovação. Como alguém há poucos anos disse: “O futuro é já hoje.”

Que projetos estão neste momento em curso?
Há vários. Por exemplo, projetos-piloto na área assistencial e projetos de internacionalização das instituições. São fundamentais certos marcos que revelam a competitividade do país, como a admissão de Portugal na Aliança M8, organização conhecida como o G8 da saúde. Esta entrada no grupo dos melhores aconteceu em 2015 e foi conseguida através do consórcio Universidade de Coimbra e Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra. Só cinco países da União Europeia têm centros académicos com assento nesta organização. Este projeto merece destaque, pela possibilidade de intervir, por direito próprio, na definição das políticas de Saúde Global ao integrar através da M8 Alliance a Cimeira Mundial de Saúde. Assim, desde há três anos que Portugal tem uma palavra a dizer no que toca à definição de políticas de Saúde Global através do Consórcio Coimbra Health. É um “valor” reputacional importante.

Acredita que o Sistema Nacional de Saúde pode reduzir custos à medida que integra as tecnologias digitais?
As tecnologias digitais permitem poupanças enormes, redução de custos, aumento da fiabilidade da informação, diminuição das repetições de informação, etc. Atua sobre a eficiência da prestação e acesso à saúde. Também na área da prevenção, desenvolve projetos preditivos estatísticos que conduzem ao melhor conhecimento da situação atual do doente pelos profissionais de saúde. Estes desejam ter equipamento e conhecimento que, em tempo real, lhes transmita a situação e o que podem fazer pelo doente. À medida que se aprofundam as tecnologias digitais, o Sistema Nacional de Saúde (público, privado e social) tem vindo a beneficiar e a retirar daí vantagens.

 

Perfil: Apoiar o conhecimento e a inovação na saúde

Foi o alto-comissário para a organização da Cimeira Mundial de Saúde, WHS Regional Coimbra 2018, um encontro que se realizou pela primeira vez em Portugal e decorreu entre 19 e 20 de abril de 2018 no Convento de São Francisco, Coimbra. A cimeira juntou representantes e responsáveis de mais de 50 países e contou com a presença do Presidente da República, do primeiro-ministro e do ministro da Saúde de Portugal. O presidente do júri do prémio HINTT 2018, uma iniciativa promovida pela tecnológica portuguesa Glintt, acredita no conhecimento gerado pelas startups e está otimista quanto ao nível de inovação das dez soluções que se candidataram neste ano.

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