Agricultura

Em Leiria, a história recente dos suinicultores é feita de prejuízos e de fechos

PAULO CUNHA/LUSA
PAULO CUNHA/LUSA

"Prejudica todos. Começando pelo pequenito, vai sempre acabar no grande", salienta. O atual momento que o setor vive é para Fernanda "uma angústia"

A crise que afeta a suinicultura já se sentiu em outras ocasiões, mas em Leiria fala-se cada vez mais de prejuízo, de fechos de explorações vizinhas e há até quem sonhe com “os porcos e com as dívidas”, num iminente “colapso” que afeta pequenos e grandes.

Gonçalo Silva, de 34 anos, tomou conta da exploração do pai nas Chãs, Leiria, em 2004, e desde 2007 que viu surgir várias crises, que se fizeram acompanhar do fecho de muitas explorações vizinhas.

A empresa, que tem 400 porcas criadeiras e que produz 10 mil a 11 mil porcos por ano, acabou 2015 “com prejuízo” e, “se continuar como está”, o proprietário diz que vai ter de se “desfazer” da exploração.

“Não vou aguentar outro ano igual ao do ano passado. Não me vou estar a endividar cada vez mais para vender carne de borla”, disse à agência Lusa Gonçalo Silva, que está a vender os porcos “30% abaixo do preço de custo”.

Gonçalo Silva olha para os porcos na sua suinicultura em Chãs, no concelho de Leiria, 17 de março 2016. O setor da suinicultura está a atravessar uma crise devido ao preço que a carne de porco está a ser paga pelos hipermercados, e à falta de rotulagem com a origem da carne. Em Portugal, estão registados cerca de quatro mil suinicultores industriais, num total de quase 14 mil explorações que produzem cerca de 55% da carne de porco que consome no país. (ACOMPANHA TEXTO, 05 DE MARÇO DE 2016). PAULO CUNHA/LUSA

Gonçalo Silva na sua suinicultura em Chãs, no concelho de Leiria. Foto: PAULO CUNHA/LUSA

Segundo o suinicultor, tudo começou com “a subida drástica dos cereais” e uma redução do preço da carne de porco. Desde essa altura, “foi sempre a sobreviver até aos dias de hoje”.

Uma das críticas de Gonçalo é dirigida à “grande distribuição”, que tem “poucos ou nenhuns” escrúpulos, comprando a carne a outros países para fazer “baixar ainda mais o preço dos nacionais”.

À Associação de Suinicultores de Leiria (ASL) chegam produtores “desesperados”. A região (Leiria, Batalha, Porto de Mós, Marinha Grande e Pombal) representa 20% da produção nacional de suinicultura e o setor é responsável por sete mil postos de trabalho, entre explorações e fábricas de ração, conta o presidente da ASL, David Neves.

David Neves, presidente da Associação de Suinicultores de Leiria segura um cartaz que apela ao consumo de carne de porco nacional, Leiria, 17 de março 2016. O setor da suinicultura está a atravessar uma crise devido ao preço que a carne de porco está a ser paga pelos hipermercados, e à falta de rotulagem com a origem da carne. Em Portugal, estão registados cerca de quatro mil suinicultores industriais, num total de quase 14 mil explorações que produzem cerca de 55% da carne de porco que consome no país. (ACOMPANHA TEXTO, 05 DE MARÇO DE 2016). PAULO CUNHA/LUSA

David Neves, presidente da Associação de Suinicultores de Leiria segura um cartaz que apela ao consumo de carne de porco nacional Foto: PAULO CUNHA/LUSA

Em 2015, “mais de 30 explorações” fecharam num universo de cerca de 400 na região, e outras passaram “para estruturas maiores”, realça.

Há quem não tenha dinheiro para dar ração suficiente e pode haver situações de salários em atraso, afirma, alertando que este problema “económico e financeiro gravíssimo” pode passar a ser um “problema social”.

De acordo com David Neves, a presente crise do setor centra-se no excesso de produção em toda a Europa (apesar de Portugal ser deficitário nesta área) e “na conjuntura internacional, agravada pelo embargo russo”.

A grande distribuição opta por comprar em Espanha, levando a que os produtores nacionais tenham “provavelmente” o preço “mais baixo dos últimos 30 anos”, recebendo um euro por quilo, quando o custo de produção se situa nos 1,50 euros

A estes dois fatores junta-se a “posição dominante” da grande distribuição, que opta por comprar em Espanha, levando a que os produtores nacionais tenham “provavelmente” o preço “mais baixo dos últimos 30 anos”, recebendo um euro por quilo, quando o custo de produção se situa nos 1,50 euros.

Como medidas para mitigar o problema e “evitar” o colapso do setor, o responsável da ASL defende a fiscalização da rotulagem de origem dos produtos, o controlo da prática de ‘dumping’ nas grandes superfícies e a criação de “um pacote financeiro que apoie este setor”, face à possibilidade de várias empresas fecharem no curto prazo.

Fernanda Carpalhoso desistiu de criar porcos, optando por alugar as suiniculturas a outro produtor, Leiria, 17 de março 2016. O setor da suinicultura está a atravessar uma crise devido ao preço que a carne de porco está a ser paga pelos hipermercados, e à falta de rotulagem com a origem da carne. Em Portugal, estão registados cerca de quatro mil suinicultores industriais, num total de quase 14 mil explorações que produzem cerca de 55% da carne de porco que consome no país. (ACOMPANHA TEXTO, 05 DE MARÇO DE 2016). PAULO CUNHA/LUSA

Fernanda Carpalhoso desistiu de criar porcos, optando por alugar as suiniculturas a outro produtor. Foto: PAULO CUNHA/LUSA

Fernanda Carpalhoso, 65 anos, a viver nas Colmeias, conhece bem as dificuldades do setor. Há cinco anos, viu o filho fechar a sua empresa e partir para França e na exploração de que ainda é proprietária passou a trabalhar para outra firma.

Da exploração com cerca de 200 porcas criadeiras, a filha consegue tirar o salário mínimo “para se governar” e Fernanda vai pagando aos poucos as dívidas que deixou quando explorava por sua conta.

Os grandes também “estão à rasca”, conta a proprietária, que sabe de muitos que venderam e de outros que compraram, mas que “estão arrependidos”.

Porcos numa suinicultura em Chãs, no concelho de Leiria, 17 de março 2016. O setor da suinicultura está a atravessar uma crise devido ao preço que a carne de porco está a ser paga pelos hipermercados, e à falta de rotulagem com a origem da carne. Em Portugal, estão registados cerca de quatro mil suinicultores industriais, num total de quase 14 mil explorações que produzem cerca de 55% da carne de porco que consome no país. (ACOMPANHA TEXTO, 05 DE MARÇO DE 2016). PAULO CUNHA/LUSA

Em Portugal, estão registados cerca de quatro mil suinicultores industriais, num total de quase 14 mil explorações que produzem cerca de 55% da carne de porco que consome no país. Foto: PAULO CUNHA/LUSA

“Prejudica todos. Começando pelo pequenito, vai sempre acabar no grande”, salienta. O atual momento que o setor vive é para Fernanda “uma angústia” – algo que “dá cabo” da saúde. “Todos os dias, uma pessoa acorda e sonha com os porcos e sonha com as dívidas”, desabafa.

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