Tecnologia

Líder da Huawei: “Vamos sofrer um a dois anos se perdermos o Android”

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Chenglu Wang, presidente de software da Huawei Foto: João Tomé

Chenglu Wang, presidente de software da Huawei, explicou-nos este sábado, em Dongguan, na China, porque a empresa chinesa quer manter parceria com a Google, mesmo que o novo sistema HarmonyOS seja mais rápido e eficiente.

A Huawei está preparada para o pior. E o que é o pior? É que o clima tecnológico de colaboração mundial, nomeadamente com os EUA, acabe devido ao possível bloqueio decretado (e, para já suspenso) por Donald Trump e que pode acabar com a ligação entre empresas americanas e chinesas. Entre outras coisas, a Huawei pode perder acesso ao sistema Android nos seus telefones (é o segundo fabricante a nível mundial, com 200 milhões de smartphones vendidos em 2018).

Estivemos neste sábado numa conferência de imprensa restrita, em Dongguan, na China, associada à conferência de programadores da Huawei, HDC 2019, que decorre por estes dias na cidade onde a empresa criou a sua nova sede de investigação e desenvolvimento – em breve vamos publicar reportagem sobre o campus inspirado em cidades europeias.

Por lá, Chenglu Wang, presidente de software da Huawei (divisão de consumo), deu o corpo às “balas”, respondendo a todas as questões, mesmo as mais difíceis dos jornalistas com algumas respostas menos optimistas e polidas do que é habitual nestes eventos. Apesar de falar para a imprensa internacional, Wang falou em chinês e com tradutor – provavelmente uma medida para tentar evitar alguns problemas de compreensão do próprio com a língua.

O responsável está confiante no plano B criado pela empresa, o novo sistema operativo HarmonyOS, mas foi claro em explicar que ele foi pensado para servir os aparelhos de IoT (Internet das Coisas), televisores,wearables, colunas, automóveis e afins. “O plano para o nosso sistema é que servisse tudo menos os smartphones”, admite.

Sem Google vem aí “período difícil de um a dois anos”

Já após a conferência conseguimos falar brevemente com Chenglu Wang (curiosamente em inglês, embora na conferência tenha falado em chinês), sobre as razões para não implementarem já o novo sistema operativo HarmonyOS (alegadamente “com melhor performance e compatibilidade mais rápido, seguro e fiável do que o Android”). Wang admitiu que embora a empresa tenha ficado apreensiva com a atitude dos EUA: “não vale muito a pena ficarmos preocupados”.

No entanto, se ficar sem a possibilidade de usar Android, a Huawei apesar de poder fazer a transição de forma rápida para o novo HarmonyOS, “em dois ou três dias eventualmente”, irá “ter um período difícil de um ou dois anos”. Porquê? O responsável explicou-nos que o Android, para já, tem a vantagem de uma loja de appsenorme, fruto de vários anos no mercado.

“É por isso que podemos ter dificuldades durante algum tempo mesmo em vendas, mas não será difícil fazermos que o HarmonyOS cresça nesse domínio até porque é um sistema operativo em open sourcee aberto ao mundo”. Chenglu Wang diz mesmo que com ou sem Android, “vamos seguir a autoestrada de desenvolvimento e confiança com os nossos consumidores e com parceiros de todo o mundo”.

Nesse contexto, a Huawei admite que o sistema HarmonyOS, ao ser open source, poderá ser trabalhado e usado por outras marcas (é possível que, pelo menos, marcas chinesas como Xiaomi, Oneplus ou Oppo adiram), eventualmente tornando-se num sério rival do Android mesmo para lá da Huawei.

Não é por acaso que a Huawei chamou Harmony, ou harmonia, ao sistema operativo que na China se chama Hongmeng. “Sim, pensámos que era um bom nome para mostrarmos ao mundo que continuamos a procurar um espírito colaborativo e de harmonia, até porque temos ganho e aprendido muito por sermos uma empresa global”, avançou Wang.

Bloqueio travou partilha de “compilador” com a Google

Foi o bloqueio recente e a postura agressiva dos EUA que envolve também o 5G que levou a empresa a parar inclusive algumas colaborações com empresas americanas e a criar alternativas aos sistemas atuais.

A Huawei tem um dos chamados compiladores (compilers) – é o processo de tradução de um programa escrito numa linguagem de programação para um formato que os computadores ou sistemas percebem – mais completos, o Ark e anunciou recentemente que ele passou a ser open source.

“Antes de 16 de maio (dia do anúncio do bloqueio dos EUA à empresa chinesa) estávamos a planear partilhar o nosso compilador Ark com a Google, mas por causa da postura dos EUA tivemos de travar essa ideia”, explica Chenglu Wang. Ora, essa possibilidade poderia ajudar a melhorar a performance das appsem Android aproximando-as das, por norma, mais eficientes appsno iOS da Apple. Agora essa possibilidade parece ficar gorada, pelo menos para já.

Ainda assim, a Huawei também quer com o seu novo sistema HarmonyOS e com o tal compiler Ark “dar força aos programadores, facilitando o seu trabalho com ferramentas que permitem de forma simples e mais rápida fazer apps adequadas a qualquer dispositivo ou sistema operativo”. A ideia é, assim, evidenciar o lado colaborativo da empresa que quer abrir em breve a sede da sua futura fundação de open sourceprecisamente na Europa e, para a qual, contam com talento europeu.

Uma questão de (ciber)segurança

A Huawei aproveitou também para explicar porque se considera a empresa “mais escrutinada no mundo”. “Esse escrutínio feito por vários governos a nível mundial, podemos admitir, só nos dá vantagens, porque nos obriga a ter sistemas seguros que não comprometem os dados pessoais dos utilizadores”, indicou o vice-presidente da Huawei indicando: Reino Unido e Canadá “já analisaram com pormenor o nosso código e não encontraram nenhuma vulnerabilidade o que nos dá a certeza de que ninguém é enganado com os nossos aparelhos”.

O responsável diz mesmo que a empresa chinesa “tem tradição de ser fiável e segura” e tem mostrado o esforço em cibersegurança e segurança com os dados dos utilizadores de duas formas, “com a recente abertura com sistemas em open source e com a colaboração com as referências em cibersegurança para termos a melhor certificação possível”. Daí que a Huawei diga que tem melhor certificação de segurança do que sistemas como o Windows ou Oracle: “enquanto eles têm EAL 4+, nós já temos 5+ e nos próximos anos queremos que o nosso chipset (que equipa, por exemplo, os smartphones), tenha certificação EAL 7+”.

Como será o sistema HarmonyOS se for para substituir o Android?

A chamada ‘pele’ que a Huawei usa nos seus telemóveis por cima do sistema Android, o EMUI – cuja versão 10.0 foi anunciada no evento desta semana – vai funcionar também como base estética para o HarmonyOS adaptada a telemóveis. Isto se o bloqueio americano avançar e a Huawei se vir obrigada a abandonar o sistema Android.

Apesar do novo sistema operativo HarmonyOS poder ser utilizado em telemóveis, a empresa Tem duas equipas separadas para desenvolver o sistema e a ‘pele’ EMUI. Wang também aproveitou para explicar que o seu EMUI é hoje muito mais do que uma mera personalização do sistema Android e a Huawei tem ajudado mesmo ajudado o sistema Android a melhorar, com várias ideias usadas inclusive no Android Q a virem da empresa chinesa, nomeadamente um sistema de gestão de ficheiros.

O Dinheiro Vivo viajou a convite da Huawei

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