Linhas de comboio com obras prioritárias (ainda) mais atrasadas

Programa de investimento Ferrovia 2020 foi apresentado em fevereiro de 2016 e deveria ficar pronto até setembro do próximo ano. Os últimos trabalhos só vão ficar concluídos no final de 2023.

A Infraestruturas de Portugal (IP) voltou a adiar a conclusão do programa de investimento Ferrovia 2020, que foi apresentado em fevereiro de 2016. Com um orçamento de 2,175 mil milhões de euros, este pacote de intervenções prioritárias deveria ficar pronto até setembro do próximo ano, mas a última previsão aponta agora para novos atrasos de norte a sul do país, conforme verificou o Dinheiro Vivo.

Há cada vez mais investimentos que só vão ficar prontos no final de 2023, segundo os diretórios da rede publicados pela IP nas últimas semanas e que já contam com todos os projetos para a ferrovia a iniciar até 2022.

Há vários trabalhos que deveriam ter concluídos no ano passado ou ao longo de 2020 mas que ainda nem sequer começaram.

Exemplo disso é a eletrificação do troço da linha do Douro entre Marco de Canaveses e Régua. As obras deveriam ter sido realizadas entre o segundo trimestre de 2018 e o final do ano passado. Só que a IP, em 2019, teve de contratar um novo conjunto de projetistas e só a partir do segundo trimestre de 2022 é que deverão começar as obras. A catenária será instalada até ao final de 2023.

Outra obra com quatro anos de atraso é a renovação da via entre Válega e Espinho: um dos troços mais degradado da linha do Norte deveria ter carris novos desde o terceiro trimestre de 2019, só que as últimas previsões apontam para o final de 2023 como o final das obras. Antes disso, a IP terá de concluir a intervenção no troço Espinho-Gaia, iniciada em setembro e que leva os comboios entre Lisboa e Porto a demorarem mais oito minutos por viagem.

Na Beira Alta, o troço entre Guarda e Vilar Formoso também conta com quatro anos de atraso - só vai ficar pronto nos primeiros meses de 2023. As obras deviam ter começado no final de 2017 e deveriam ter ficado prontas no início do ano passado. A IP dividiu esta obra nos subtroços Guarda-Cerdeira (em andamento) e Cerdeira-Vilar Formoso (ainda à espera do resultado do concurso público).

A linha da Beira Alta é um caso exemplar dos atrasos nas obras da ferrovia. Da Pampilhosa a Vilar Formoso, praticamente todo o troço vai ser modernizado, para permitir a circulação de comboios de mercadorias com até 750 metros. Este trabalho deveria ter ficado concluído nos primeiros meses deste ano.

Apenas a partir de abril deste ano é que haverá máquinas no terreno, sobretudo nas ligações entre Celorico da Beira e Guarda e entre Santa Comba Dão e Mangualde. À espera do resultado do concurso público estão ainda os troços Pampilhosa-Santa Comba Dão e Mangualde-Celorico da Beira.

As obras na Beira Alta só vão começar quando ficar totalmente concluída a ligação entre Covilhã e Guarda. Este troço será reaberto no início do próximo ano, depois de mais de 11 anos de suspensão. A partir do final de 2021, o troço entre Pampilhosa e Guarda vai ficar fechado, por um período de nove meses. Como alternativa, os passageiros vão ser transportados através de autocarros; as mercadorias vão passar pela Linha do Leste e pelo troço Covilhã-Guarda, na linha da Beira Baixa.

No Oeste, nada de novo: também está atrasada a eletrificação dos troços entre Mira Sintra-Meleças e Torres Vedras e entre Torres Vedras e Caldas da Rainha, que já deveria estar pronta desde o terceiro trimestre deste ano. Só que a IP mudou o calendário: só a partir de janeiro vão começar as obras em Meleças - até ao início de 2023 - e que vão levar ao fecho da ligação entre Malveira e Torres Vedras por quatro meses, a começar no segundo trimestre de 2022.

A ligação até Caldas da Rainha começa a ganhar corrente a partir do segundo trimestre do próximo ano - está em concurso público e deverá acabar no terceiro trimestre de 2023.

A linha de Cascais deveria estar pronta para receber, a partir do final de 2021, os comboios que são utilizados na restante rede ferroviária nacional, mas só nessa altura vão começar os trabalhos para que a tensão elétrica passe dos atuais 1500 volts em corrente contínua para os 25 mil volts em corrente alternada. Esta linha será alimentada por uma nova subestação de tração, a ser construída em Sete Rios, e que terá capacidade para alimentar os mais de 25 quilómetros deste troço.

O Algarve também tem muitas razões de queixa: no terceiro trimestre de 2021 deveria chegar a corrente elétrica aos troços Tunes-Lagos e Faro-Vila Real de Santo António, mas estas obras só vão arrancar daqui a um ano. Para já, a IP lançou, em outubro, o concurso público para a ligação até Vila Real de Santo António; no troço Tunes-Lagos, ainda não há autorização para procurar candidatos.

Também com atraso de quatro anos ficará concluída, em 2023, a construção da linha ferroviária entre Évora Norte e Elvas, que será fundamental para os portos de Setúbal e de Sines.

A IP não pode atrasar a conclusão das obras ferroviárias para lá do final de 2023, sob pena de perder os fundos comunitários, que ajudam a financiar boa parte dos trabalhos.

Mesmo depois das obras, os únicos ganhos de tempo e de velocidade devem-se à introdução de modernos sistemas de sinalização e da substituição dos comboios a diesel por material elétrico, com melhor aceleração. Os troços vão manter as mesmas curvas e pendentes que impedem maiores benefícios para passageiros e mercadorias.

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