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Luís Castro Henriques: “Portugal já não é um país de burocratas”

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O presidente da AICEP admite que é preciso reforçar a desburocratização e a melhoria administrativa. Espera que 2019 seja um ano recorde de exportações, mas que é preciso garantir que não entrem em queda.

Com uma carreira sempre ligada à economia, já foi professor, passou por algumas das maiores empresas nacionais, e é agora presidente da AICEP.

Ficámos a saber esta semana que a economia portuguesa cresceu 0,5% no primeiro trimestre, ligeiramente melhor que o período homólogo. Temos motivos para celebrar, ou as ameaças externas recomendam prudência?
Devemos continuar otimistas e continuar a trabalhar. Creio que temos é de, sobretudo, preparar bem esse futuro. Temos alguns desafios a nível comercial mundial, temos o investimento global a reduzir, mas a verdade é que as nossas empresas têm demonstrado que são competitivas, que têm exportado e diversificado mais. Nos últimos 20 anos conseguimos diminuir a exposição à UE e é fundamental continuar a trabalhar para sermos ainda mais competitivos. A melhor solução que uma empresa tem é diversificar, porque pode estar exposta a mercados com ciclos superiores. Da guerra comercial China/EUA,… há um impacto negativo, porque exportamos para a China e para os EUA, mas depois exportamos para países que exportam imenso para a China e para os EUA. Nos aspetos positivos, se isto for conjuntural, as cadeias de valor adaptam-se e fazem outros caminhos, mas se for de longo-prazo há uma série de cadeias de valor muito complexas que vão ter de se adaptar. O que tem de preocupar os empresários portugueses é que, quando há poeira no ar, temos de estar preparados e quanto maior a diversificação, melhor. Tenho é de garantir que continuo no jogo e tenho de vencer.

Ontem houve a primeira conferência AICEP sobre “exportações e investimento”. O que antevê a esse respeito até final do ano?
Em 2019 vamos ter mais um ano recorde de exportações. O que está em cima da mesa, e é importante que os empresários percebam isto, é uma redução da taxa de crescimento das exportações: 2017 foi um recorde absoluto, com crescimento acima dos 10%, taxas que associaríamos à China. E é difícil manter a taxa de crescimento a esse nível. Temos de garantir que continuamos sistematicamente a aumentar as exportações. Estando num enquadramento económico europeu em que os países estão a crescer em média 1,2%, a nossa taxa de crescimento nesses mercados será sempre inferior. As exportações têm crescido duas a três vezes mais que o PIB e temos de garantir que assim seja. Este ano estão a crescer ao dobro do PIB.

Vídeo. 2019 vai ser um ano record de exportações.

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Quando apresentou a estratégia 2017/19 disse querer reforçar as exportações e o investimento direto estrangeiro….
O ano passado celebrámos o recorde absoluto de assinaturas de contratos de investimento, desde o início da agência. A velocidade tem aumentado tanto que até temos tido alterações de tipologia de investimento nestes últimos três anos. Está a correr muito bem e espero que este seja outro ano forte.

Portugal virou um país sexy?
Isso do país sexy dá muito trabalho. Temo-nos focado nos setores e segmentos e atividades em que sabemos que temos uma proposta de valor competitiva para as empresas. Isto é um jogo de pesca de arpão e não de pesca de arrastão.

Que atividades são essas?
A grande atividade vencedora na captação de investimento foi o setor automóvel e dos componentes. Também a aeronáutica e há outro setor que explodiu: o dos serviços. Desde 2013, em conjunto com a AICEP, já se abriram 80 centro de serviços partilhados.…

Não são todos call-centers, como a oposição faz constar?
Não posso falar de política. Temos visto uma aumento da complexidade das atividades de backoffice geridas nesses centros. Há empresas que têm partes de processos-chave cá para a operação de empresas globais. Mas daria maior destaque aos centros de desenvolvimento de software, que começaram com grande sucesso para Portugal com o setor automóvel alemão. Hoje temos centros da Mercedes, BMW e VW, centros de engenharia e de I&D e, isso sim, é uma tendência nova e confirma a aposta feita há anos, em que o nosso diferenciador é o talento. Trazemos muita gente para cá e tem sido um sucesso.

Já está tranquilo em relação à Autoeuropa? Penalizou as nossas exportações…
A Autoeuropa é o nosso melhor cliente. Em termos dos objetivos do contrato com a AICEP estão a ser superados e estou tranquilo. A nossa capacidade produtiva e a capacidade inovadora que se introduziu na linha da Autoeuropa, que define muito o futuro da fábrica, está a ser um sucesso.

As empresas continuam muito dependentes dos apoios comunitários para exportar?
Esses apoios são fatores competitivos, não podemos esquecer que os outros países também dão incentivos. Na AICEP, com todos os projetos apoiados, seja para exportação ou investimento no anterior quadro comunitário, as empresas representaram quase 50% do aumento das exportações e mais de 10% da criação de postos de trabalho, entre 2012 e 2016. Diria que a nossa atividade tem impacto direto no PIB. Só a área dos serviços representa mais de 60 mil postos de trabalho. Com estes resultados, a utilização tem sido bem feita.

Quando apresentou a estratégia sobre esses temas disse que Portugal estaria a caçar mais e melhor investimento com projetos industriais, de serviços, de investimento produtivo e que isso seria uma meta para 2017/19. Na área industrial há algum exemplo a destacar?
Prefiro falar de setores e começaria pelo menos esperado. Estamos a trabalhar e a fazer contratos muito inovadores nas áreas do agroalimentar. São atividades em que se monitoriza a produção com iPads, há produção a sair todos os dias para cadeias de retalho pela Europa, com logísticas complexas e standards exigentes. Em termos de volume e escala destacaria a metalomecânica, que inclui o setor automóvel e dos componentes. Temos projetos inovadores na área farmacêutica, na pasta de papel e no final do dia esta diversificação é boa para Portugal.

Vídeo. Bancos já não têm o mesmo apetite pelo risco.

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Há a eterna queixa dos investidores quanto aos custos de contexto em Portugal. Qual é o que mais trava o investimento?
Há um, que até se pode transformado numa vantagem, que é a localização geográfica. Para cadeias industriais que abastecem o centro da Europa, a logística é mais difícil e mais cara. Mas a nossa posição, orientada ao Atlântico e com um relacionamento próximo com os países de língua portuguesa, acaba por ser uma vantagem competitiva para algum investimento. Depois, há queixas associadas a temas fiscais específicos. E há sempre quem se queixe da burocracia. Nós, pela velocidade, com que conseguimos agilizar alguns processos, já ganhámos alguns investimentos, porque estavam parados em processos burocráticos em países ultra-sofisticados, de top 5 da OCDE.

Já não somos um país de burocratas?
Creio que não e a nossa resposta competitiva a captar alguns dos melhores investimentos do mundo é prova disso. Mas a desburocratização e melhoria administrativa é algo que tem de continuar.

Falou da Irlanda, China, Brasil, EUA e UE como mercados no alvo da AICEP. Qual destes ainda não levou com a seta?
São mercados onde queremos aumentar a nossa exposição de recursos de pessoas. Tanto na Irlanda, como a China, vamos lá ter colocação de pessoas. A China é o ponto onde a Aicep tem mais delegações. Teremos aí 4: Cantão, Macau, Xangai e Pequim. E para o próximo triénio pensamos numa expansão em relação aos EUA. A nossa atividade exportadora nos EUA tem aumentado de forma significativa e diversificada.

Brexit: que impacto antevê para o investimento?
O Brexit é algo que me preocupa. É muito complicado saber, mas temos de saber qual é a melhor resposta para as empresas.

Acha que vai acontecer?
É difícil responder. Tive há pouco tempo com investidores ingleses de relevo e que hoje em dia já não acreditam que vá acontecer. Vai ser muito importante o resultado das eleições Europeias.

A banca aprendeu com os erros?
Todo o setor financeiro teve de aprender.

Chocaram-no, as declarações de Joe Berardo no parlamento?
É uma resposta difícil: ninguém estava à espera que o enquadramento do negócio fosse aquele, daí a reação que se tem tido. Fico preocupado que, 10 anos depois, ainda se olhe para o tema de forma ligeira.


 

Brilho português no BHV Marais

De acessórios de moda, a produtos de casa e gifts, de cerâmica decorativa a alimentação e bebidas, do artesanato e cultura a pacotes de viagens para todo o país: mais de 50 empresas portuguesas vão estar durante sete semanas em destaque em Paris, no BHV Marais, flagship store das Galeries Lafayette. “Sous le Soleil du Portugal promove a excelência do design, inovação e qualidade do que é português no exigente mercado francês, um dos nossos principais parceiros comerciais”, sublinha Castro Henriques. A iniciativa, apoiada por Aicep e Turismo de Portugal, dará a conhecer produtos e serviços portugueses dos mais variados setores. Uma oportunidade única para aumentar a notoriedade do que aqui se faz, com a possibilidade de algumas das marcas e produtos ficarem depois na oferta do BHV Marais.

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