Marcas de luxo e nova lei das rendas fecham espaços históricos de Lisboa

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A nova lei das rendas e o forte interesse de marcas de luxo internacionais pelas zonas históricas das cidades já está a ter impacto no imobiliário nacional. Em Lisboa, são vários os espaços comerciais que já estão a fechados ou a fechar, porque não conseguem pagar as rendas atualizadas ou porque foram despejados para dar lugar a escritórios, hotéis, casas ou lojas de luxo com rendas bem mais altas que as atuais.

Na Rua dos Douradoures, na Baixa, onde vai nascer o hotel Intercontinental, já fecharam a Caixotaria Duran, a Adega dos Lombinhos, os Armazéns Ramos e a Associação Portuguesa de Barbearias. Tudo lojas que ali estavam há quase 100 anos.

O cinema King, perto da Avenida da Roma, fecha portas amanhã após quase 24 anos de atividade porque não consegue pagar a nova renda. Os trabalhadores serão recolocados noutros cinemas do mesmo gestor, mas há casos em que não é assim.

José Frias é, há 27 anos, gerente do Bela Ipanema, na Avenida da Liberdade, mesmo ao lado do cinema São Jorge. No final do mês, o restaurante que abriu em 1986, vai fechar definitivamente. “Não sei o que vou fazer agora. Tenho 58 anos e estou numa idade que nem sou velho nem sou novo”, diz.

Em causa, conta, está o aumento da renda, mas José Frias desconfia que o senhorio já tem uma marca de luxo interessada no espaço. “Essas lojas pagam rendas muito altas e distorcem o mercado”, repara.

Na marisqueira Quebra-Mar, também na Avenida da Liberdade, já quase a chegar aos Restauradores, o cenário é semelhante. O proprietário entrou com uma ação de despejo porque quer reabilitar o prédio todo e, segundo a nova lei, se os senhorios quiserem fazer obras podem cessar os contratos mediante o pagamento de um ano de renda. O objetivo do dono do prédio do Quebra-Mar – que está fechado e tem apenas o restaurante a funcionar – é transformá-lo em escritórios e lojas que pagarão rendas bem mais altas do que os 700 euros que o restaurante paga atualmente.

De acordo com o presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses, Romão Lavadinho, com a nova lei, as rendas equivalem a 1/15 avos do valor dos edifícios o que dá logo aumentos “muito grandes”. Juntando a especulação originada pelo interesse das marcas de luxo – que pagam 20 mil euros ou mais por mês – chega-se a “valores impossíveis de pagar nesta economia”.

Na Farmácia Estácio, no Rossio, o proprietário está a pedir 20 mil euros/mês e a loja pode fechar. E “a sociedade Ateneu da Madredreus pagava 15 euros desde 1950. Eram três contos e mais do que o ordenado do Presidente da República. Agora pedem 2500 euros”, contou.

Rendas de luxo sobem 10% no Chiado e na Avenida

Um estudo anual da consultora imobiliária Cushman & Wakefield sobre as localizações com as lojas mais caras do mundo, mostra que as rendas na Avenida da Liberdade e no Chiado subiram, este ano, 6,9% e 9,4%. Neste momento, uma renda na Avenida custa 930 euros/m2/mês e no Chiado supera os mil euros/m2/mês, ou seja, se a loja tiver 150 metros quadrados pagará, respetivamente, 140 mil ou 160 mil euros de renda por ano.

Não é por isso de admirar que os senhorios não estejam a aceitar negociar os contratos antigos ou que estejam mesmo a despejar os inquilinos para começar a fazer obras. “Qualquer dia só podemos vir à Avenida da Liberdade de fato e sapato engraxado”, replica José Frias, o gerente do Bela Ipanema.

Mas se para os inquilinos, a nova lei das rendas e as marcas de luxo estão a começar a fazer as primeiras vítimas, para os senhorios e para os agentes do mercado imobiliário a visão é outra. “As rendas antigas não permitiam recuperar os imóveis degradados nem reabilitar a cidade e agora isso já é possível. Não tenho nada contra esses espaços históricos, mas já se exige um outra tipo de serviço”, diz o responsável da área de investimento da Cushman & Wakefield, Luís Rocha Antunes.

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