privatização da TAP

Mário Ferreira: “Pensei em ligar ao Richard Branson para a TAP, mas o país está servido”

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Mário Ferreira: “Pensei em ligar ao Richard Branson para a TAP, mas o país está servido”

Nasceu em Matosinhos, saiu de casa dos pais aos 16 anos para trabalhar nos paquetes de luxo. Nos anos 1990 regressou a Portugal e fundou a Douro Azul. Tem vários investimentos na área do turismo, com destaque para os cruzeiros, a sua grande paixão. É também conhecido por ser o primeiro turista espacial português, com viagem marcada a bordo da nave espacial do multimilionário Richard Branson. E é um dos tubarões da versão portuguesa do Shark Tank.

Tem negócios relevantes no sector do turismo, sobretudo no Porto, cidade que tem merecido um forte interesse a nível internacional. Recentemente, o secretário de Estado do Turismo atribuiu este sucesso à estratégia do governo. Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, disse sentir-se estupefacto e chamou Adolfo Mesquita Nunes de “artista português”. Polémicas à parte, a quem atribui o êxito do Porto como destino turístico?

Tem piada, e eu, no meu Facebook, coloquei um post no qual dizia: “O importante é que falem, uns e outros, e que todos possam reivindicar o sucesso do grande crescimento do turismo no Porto.” Tanto me faz . Se não estivessem todos a remar para o mesmo lado, dificilmente um destino turístico teria o sucesso que o Porto está a ter. Mas, em termos de presidentes de câmara, a atribuir algum desse sucesso seria ao Dr. Rui Rio, que esteve lá vários mandatos, puxou pela renovação da zona histórica, ainda que, inicialmente, não tivesse qualquer estratégia para o turismo. Polémicas à parte, acho que se deve repartir o mérito pelos dois intervenientes. O secretário de Estado, pelo qual tenho bastante admiração, teve uma estratégia de corte radical com o histórico da promoção turística de Portugal, com a qual me revejo. Na verdade, acho que a estratégia que está a implementar é muito boa, diferente, até bastante futurista.

O que é que destaca?

A simplicidade e uma estratégia objetiva. É difícil para um político dizer não às feirinhas do queijo e do salpicão. Uma das coisas que me deixavam entristecido era ver que a normalidade eram as feiras de turismo e que era isso que os representantes das regiões de turismo entendiam como promoção turística, bebiam uns copos e isso era ir promover Portugal ao estrangeiro. Isso acabou.

A estratégia deste governo aposta, sobretudo, na internet.

Exatamente. Hoje, o booking domina as reservas hoteleiras, em termos de busca. Mas existe ainda uma estratégia, muito bem definida, de trazer a Portugal opinion makers, jornalistas, bloggers, sejam da área dos vinhos, da área da gastronomia, ou da do touring. É isso que a Douro Azul já faz há dezenas de anos.

Elogiou Rui Rio e Adolfo Mesquita Nunes. E Rui Moreira?

Também merece elogios, porque o Rui Moreira, ao contrário de Rui Rio, veio totalmente decidido a apoiar e puxar o turismo da cidade. E o seu mérito será ainda mais credibilizado consoante tenha a capacidade de dar continuidade ao crescimento da cidade. Pode puxar pela reabilitação, pelo ordenamento de trânsito, pela melhoria da limpeza da cidade.

Cuidar do Porto.

Rui Moreira terá um papel muito importante em embelezar o Porto. Toda a gente dizia que a cidade era cinzenta. É preciso meter uns toques de cor.

O turismo apresentou um dinamismo incomparável, mesmo em tempos de crise. Isso deve-se, sobretudo, ao trabalho dos grupos privados da região?

No Porto, foi uma questão de oportunidade. Com a grande quebra do sector imobiliário, muitos empresários foram obrigados a reinventar os negócios. No turismo de habitação, seja em Lisboa ou no Porto, foram reabilitados edifícios inteiros que deram lugar a hostels. Temos, tanto em Lisboa como no Porto, alguns dos melhores da Europa, que albergam grande parte desse número crescente de turistas. Concorrem diretamente com os hotéis. Uns diriam de forma injusta, outros diriam de forma justa. Tive a oportunidade de dizer, há pouco tempo, que não tenho qualquer problema em que o miúdo que chega, de mochila às costas, na Ryanair fique num desses apartamentos. Venha e seja bem-vindo.

Não é o mesmo turista que vai ficar num dos seus barcos ou hotéis de luxo.

Não, mas se gostar da cidade, quando tiver a sua profissão e tiver um bom ordenado, vai querer voltar e querer ficar num hotel de cinco estrelas ou num navio da Douro Azul. O importante é que tenhamos agilidade mental e capacidade física instalada para poder captar todas as pessoas que queiram vir ao nosso país e às nossas cidades. Essa é, para a mim, a visão um bocado simplista de ver a situação, mas é eficiente e tem funcionado.

O caderno de encargos da privatização da TAP foi publicado. Tem alguma preocupação sobre o impacto que a venda desta empresa poderá ter no sector do turismo?

A privatização, de uma maneira ou de outra, é inevitável, porque o modelo atual de governance está a ficar muito complexo. É muito mau que, antes do Natal, seja anunciada uma greve, que depois é desconvocada. Isso cria insegurança, faz que as pessoas não confiem. Eu estava para ir para fora e procurei, para o fim de ano, um destino em que fosse com outra companhia aérea que não a TAP. E eu gosto muito de viajar com a TAP, mas não queria correr riscos. Outras pessoas terão feito o mesmo.

A situação já era insustentável?

A situação está num ponto difícil. Agora, o interesse na TAP será grande e não vejo perigo absolutamente nenhum na privatização, porque o destino de Portugal já se afirmou. Se não fosse a TAP, seria outra empresa qualquer a ocupar estas rotas. Por exemplo, o sucesso do Brasil é tal que, se a TAP deixasse de existir, qualquer outro operador, brasileiro ou português, preencheria o vazio. O mercado está criado. O que é importante é que venha alguém que tenha uma boa capacidade financeira.

Não é indiferente a identidade do futuro dono da TAP?

Não. O importante aqui é a capacidade para assegurar o crescimento futuro e abranger novas rotas para a Ásia. Portugal precisa urgentemente de uma rota para a Ásia, de ter Xangai-Lisboa ou Pequim-Lisboa, para aquilo que será a nova geração de crescimento do turismo português.

Só capacidade financeira chega?

Não chega. Em qualquer negócio é preciso ter capacidade financeira e know-how, para que as portas estejam abertas também nos países de origem para onde queremos voar, para trazer turistas.

Nunca pensou em participar num consórcio, em avançar para esta operação de privatização da TAP?

O que é que poderia trazer de positivo a um consórcio desses? Alguns conhecimentos que tenho na área e no mundo? Sim… Devo confessar–lhe que pensei em ligar ao Richard Branson [dono da Virgin] e falar com ele sobre o tema. Contudo, havendo já bastantes interessados, e sendo o processo tão rebuscado, pensei que já tenho tanto que fazer, que o melhor seria deixa-me estar sossegadinho.

E não ligou?

Não liguei, mas pensei que o importante era que o país estivesse servido, e já está. Por isso, acho que está bem, desde que existam bons parceiros.

Vamos falar do seu principal negócio, a Douro Azul. Tem investimentos importantes no sector do turismo: três barcos rabelos, dez navios-hotéis de luxo, dois iates de luxo, dois helicópteros, dois hotéis. Terminou agora um plano de investimentos de 56 milhões de euros. Quais são os próximos passos?

Começar já este mês a construção de mais um navio para entrar ao serviço em 2016. Tem 56 quartos e a sua ocupação futura já está praticamente tomada para o mercado norte–americano. Agora, estamos a avaliar o novo quadro de fundos europeus para ver se nos conseguimos candidatar para mais duas embarcações – uma para 2017 e outra para 2018 -, porque o mercado hoje já pede essa capacidade.

Sobre o Portugal 2020, as alterações feitas às regras de candidaturas resultaram, efetivamente, em menos burocracia?

Já no anterior quadro as coisas funcionavam para empresas que estivessem bem organizadas e bem estruturadas. Mas alguns problemas do passado mantêm-se. Existe até um certo paradoxo. A maior parte do dinheiro está direcionado para as PME e as microempresas, mas aquilo que exigem nas candidaturas, quanto a regras e a capacidade financeira, não é aquilo que as nossas PME e microempresas conseguem oferecer. Aí é que existe o problema. É uma grande parte do tecido empresarial português, são estes que precisam de apoios. Precisam de formação em gestão, de perceberem que, às vezes, se estão a esforçar e a levar em frente um negócio que não é viável. Falta um pouco de escola de empreendedorismo em Portugal e que se foi perdendo ao longo dos anos. Há casos de pessoas que constroem hotéis em sítios onde não há qualquer possibilidade de sucesso.

Dos vários investimentos que tem em curso fazem parte dois hotéis, um dos quais na Avenida dos Aliados, no Porto. Qual é o projeto para este hotel?

Temos um investimento estimado em transformação e reabilitação do edifício de cerca de oito milhões de euros. É um edifício histórico, muito bonito, emblemático, não só por estar na avenida principal do Porto, ao lado da câmara municipal, mas pela riqueza da sua fachada, pelos granitos trabalhados. Foi construído por um arquiteto italiano, em 1920, e tem a dimensão exata para se fazer um hotel muito bonito, com 80 quartos. Assumimos o desafio de querer fazer o hotel líder e de maior qualidade do Porto, em relação aos cinco estrelas, e um dos melhores do país. O edifício já teve um café que foi um sucesso, chamado Café Monumental, que era conhecido como o mais luxuoso da Península Ibérica. Tinha duas orquestras, serviço de luva branca, tudo isto na década de 20. E estamos a falar de um café com colunas de pé direito de sete metros de altura, uma coisa monumental mesmo. A porta tem oito metros de altura. É fabuloso.

E vai ter duas orquestras?

Não, mas vou tentar que tenha pelo menos uma banda.

Quando é que conta cortar a fita?

Atrasámos o arranque das obras, à espera da abertura das candidaturas ao Portugal 2020, porque este programa vai apoiar projetos de reabilitação urbana virados para o sector turístico. Esse apoio é importante, porque é um investimento substancial. Assim, gostaríamos de estar a iniciar as obras já em junho e depois são 18 meses até a abertura. Estaremos certamente abertos para a passagem de ano de 2016 para 2017 e vamos ter uma grande festa na Avenida dos Aliados.

Tem também planos para outro hotel, mas virado para o turismo de saúde. Do que se trata?

Ainda não posso revelar tudo, mas esse será o primeiro e verdadeiro hotel virado para aquilo que, internacionalmente, é muito procurado, as pessoas com mais de 55 anos, que trabalharam muito, que pouparam, que fizeram poucas férias e que agora têm poupanças, capacidade e tempo para o gastar, que querem viver mais e bem. Será um hotel que se quer posicionar no antiaging.

Onde fica?

Em Mesão Frio, em cima do rio, numa propriedade lindíssima com 60 mil metros quadrados de jardins. Será um hotel fabuloso, à beira-rio, virado a sul, um local paradisíaco.

Qual o investimento?

Os orçamentos prévios apontam para mais de 26 milhões.

E quando é que abrirá?

Esse está mais atrasado, mas gostaríamos de arrancar com as obras até ao final do ano.

Em 2010, tentou a admissão à cotação da Douro Azul na Bolsa de Lisboa, mas a operação não avançou. Vai voltar a tentar?

Ela nunca aconteceu porque, na altura, fomos aconselhados a não ir para o mercado e a executar o plano de investimentos com recurso à banca.

Os bancos desviaram-vos da Bolsa?

E ainda bem que nos desviaram, porque, neste momento, sou proprietário a 100%, não tenho sócios.

Abandonou de vez esse projeto?

Não, porque sou um bocado irrequieto. Chegará a uma altura em que já terei navios suficientes, em que a equipa conseguirá tratar da Douro Azul sem um consumo do meu tempo. Vou querer fazer novas coisas, quero ter um período de viragem, diversificar para outro patamar, para outras coisas que tenho em mente.

Quais?

Nesta fase não posso dizer.

Fora do turismo?

Sim. Em 2018, poderá ser uma boa altura para a Douro Azul entrar em Bolsa. Com o resultado dessa entrada em Bolsa, seja ela em Portugal ou não, porque existem investidores estrangeiros muito interessados em entrar no capital da Douro Azul, eu poderia investir noutros negócios. Será um negócio que me dê um novo desafio, que não no sector do turismo.

Comprou o paquete Atlântida por nove milhões de euros, pensou em gastar mais seis milhões na sua reformulação para arrancar com os cruzeiros de luxo no Amazonas no início de 2016, mas desistiu. O que é que correu mal?

Devia era perguntar o que é que correu bem. Aconteceu a união de duas situações. Primeiro, depois de ter comprado o navio e de as entidades internacionais terem visto que o navio navegou, começámos a receber propostas. Tenho propostas de compra da Austrália, que já mandou inspetores, de Singapura, da Coreia do Sul, da China, três da Noruega, uma de Malta, duas da Grécia e uma de um país africano. Vi que teria alguma dificuldade em ter, em poucos anos, uma margem razoável, o que me impediria de investir noutros projetos. Por isso, o projeto Amazonas continua em carteira para arrancar no momento certo. E depois, o governo brasileiro prepara legislação, através da qual é imposta uma taxa de pilotagem a navios estrangeiros com mais de três mil toneladas. Estamos a falar de dois milhões de dólares. Isso torna inviável qualquer projeto turístico como este.

As previsões apontavam para um volume de faturação acima dos 50 milhões, em 2016, mas contavam com a contribuição da operação no Amazonas. Mantém estas previsões?

A piada é que temos conseguido fazer as mesmas coisas sem ir para a Amazónia. A procura na Europa continua muito grande e vai continuar assim, agora com o fortalecimento do dólar. Tivemos o melhor ano de sempre em 2014, com a Douro Azul a chegar aos 32 milhões e com um EBITDA superior a dez milhões.

O seu projeto mais recente é a sua participação, enquanto tubarão, no Shark Tank, versão portuguesa. Qual é o seu objetivo com a participação neste programa?

É um desafio muito grande, permite-me passar a minha mensagem, enquanto empreendedor e empresário, a pessoas mais jovens, ou pessoas que não sendo jovens de idade são-no na carreira de empreendedor. Sem poder entrar em muitos pormenores, apareceram jovens de liceu, de universidades, com patentes, jovens com negócios, apareceram pessoas de idade, que trabalhavam há dez ou vinte anos em empresas que fecharam, apareceram coisas muito interessantes de quem conseguiu dar a volta por cima e agora precisa de ajuda para crescer, porque a ideia é boa. Apareceram muitas ideias interessantes, também de pessoas já com alguma idade, nos seus 60 ou 70 anos, e que, por isso, não deixam de ter ideias. Mas também apareceram empresas já em funcionamento, que querem diversificar e crescer. E nós podemos trazer não só investimento e capital, mas também ter, como em alguns casos em que investi, um papel importante na renegociação dos produtos, de forma a poder torná–los mais acessíveis.

As gravações já terminaram. Investiu em quantos projetos e quanto?

Investi em mais de uma dezena de projetos e muitas centenas de milhares de euros.

Não chegou ao milhão?

Não posso dar números concretos.

Qual a avaliação que faz dos projetos apresentados?

A qualidade é muito boa. Foram investidos vários milhões de euros nos 13 programas, por todos os tubarões. Nenhum de nós tem qualquer tipo de apoio, o dinheiro investido no Shark Tank é dinheiro investido pelos próprios tubarões, que investem por sua conta e risco. Quanto aos projetos, a diversidade foi para mim uma grande surpresa. Desde uma patente ainda sem protótipo, patentes com protótipo, que já se podiam testar, negócios ou ideias de negócio para nascer, algumas surreais, outras com os pés bem assentes na terra e que avançarão certamente e outros que já eram negócios, negócios pequenos, com vontade de crescer. E haverá, certamente, algumas surpresas de negócios grandes.

Investiu com a convicção de que vai ganhar dinheiro ou apostou mais no apoio às ideias?

O objetivo é investir e investir para ganhar dinheiro, não para perder dinheiro. E esse era um objetivo importante. Agora, é óbvio que é importante diversificar um conjunto de ideias. Espero que sejam todas viáveis, e nesta fase ainda acredito nisso, senão não tinha investido. Mas se algumas não forem, também não vem daí grande mal ao mundo, porque basta que uma ou duas tenham um grande sucesso para poder transformar todo o projeto num sucesso.

No início da entrevista disse, a propósito do Porto, que se estava a perder em Portugal o espírito do empreendedorismo. Ora, o Shark Tank é, precisamente, um programa de televisão que mostra ideias de empreendedores. Sente mesmo que se está a perder o espírito empreendedor em Portugal?

Não disse que se estava a perder o espírito do empreendedorismo, o que disse é que algumas empresas que já existem têm alguma dificuldade em saber o que é ser empreendedor e ter técnicas de gestão capazes para o que estão a fazer. Interpretou-me mal. Os portugueses são empreendedores e estão a aparecer cada vez mais. Também tem que ver com a conjuntura, já que a necessidade aguça o engenho. O elevado desemprego dos últimos anos fez que as pessoas procurassem alternativas. E eu fiquei muito feliz por ter visto no Shark Tank pessoas que perderam os empregos e que conseguiram, com ideias bastante simples mas muito eficientes, dar a volta por cima. Investi, com muito gosto, em algumas dessas ideias. Acho que essas ideias vão ser um sucesso, porque não investimos só num projeto e num negócio, investimos em pessoas, e isso fará toda a diferença.

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