Mário Silva: "Não existe duelo ou conflito entre a Santoro e o BPI"

Mário Silva garante que a Santoro está disponível para colaborar com o BPI na identificação de uma solução alternativa à cisão dos ativos africanos

Mário Leite Silva reitera que a Santoro – holding através da qual Isabel dos Santos detém quase 20% do BPI - está disponível para apoiar alternativas viáveis. E sublinha: "Nunca houve uma separação entre a Santoro e a equipa de gestão do BPI".

O presidente da Santoro e administrador não-executivo do BPI considera que os gestores do BPI "não devem continuar a perder tempo a trabalhar em soluções que não merecem o apoio das partes que têm de se pronunciar".

Em declarações ao Dinheiro Vivo, o braço direito de Isabel dos Santos comenta o resultado da Assembleia-geral que chumbou a cisão dos ativos africanos do BPI e apela à gestão de Fernando Ulrich que continue o "processo de diálogo e de esforço" com todas as partes envolvidas para que seja identificada uma solução até ao final de março. Mário Leite Silva diz que apoia a desblindagem de estatutos no âmbito de um movimento de consolidação no setor, reiterando que acredita numa fusão do BCP com o BPI.

Questionado sobre a possibilidade de a Unitel e o BPI retomarem as negociações para a aquisição de mais 10% do BFA pela operadora de telecomunicações angolana com um preço superior, Mário Silva não quer "fazer futurologia".

Como comenta o resultado da Assembleia-geral do BPI?

Na minha interpretação, o que saiu hoje da Assembleia-geral é um apelo feito aos acionistas para que o conselho de administração e a equipa executiva do BPI procurem soluções que possam merecer o consenso de todas as partes envolvidas. A resolução do problema da exposição a grandes riscos é uma situação muito complexa que carece do apoio de muitas partes. Nomeadamente, dos reguladores, acionistas, parceiros, entre outros. Existem diferentes legislações e prazos que têm de ser respeitados.

A cisão dos ativos africanos não era uma solução viável?

Não interessa avaliar se a cisão simples era boa ou má. O que interessa ter em conta é que a cisão simples para acontecer carecia de um acordo de um conjunto de entidades. E já se sabe que esse acordo não existe. A cisão simples não é uma alternativa viável. Independentemente de gostarmos, de acharmos que é boa ou não, o importante é que temos de concentrar-nos em soluções que possam ver a luz do dia. O apelo que saiu daqui hoje vai nesse sentido: pedir ao conselho de administração e à comissão executiva do BPI para continuarem a trabalhar e continuarem o processo de diálogo e de esforço para identificarem alternativas que defendam os superiores interesses do BPI.

Qual a disponibilidade da Santoro nesta nova fase?

Podem contar com a Santoro para todas as soluções que sejam viáveis. Hoje, a Santoro votou contra porque pensa que não se deve continuar a perder tempo a trabalhar em soluções que não merecem o apoio prévio das partes que têm de se pronunciar. Portanto, devemos concentrar as energias em soluções viáveis. O prazo imposto pelo BCE é curto. Não se pode estar a trabalhar em opções que, na realidade, são equívocos.

Houve intransigência por parte do BPI ao querer avançar com uma solução que, como diz, estaria condenada a não ver a luz do dia?

Eu quero acreditar que a mensagem e o apelo passado hoje pelos acionistas serão devidamente interpretados e vão dar origem a diálogos na busca de soluções de consenso entre todas as partes. Repito que podem contar com a Santoro para construir todas as pontes para ser um fator positivo para apoiar soluções que sejam verdadeiramente viáveis.

E que soluções são essas? O reforço da posição da Unitel no Banco Fomento de Angola por um preço mais elevado poderá voltar à mesa das negociações?

Não posso e não devo adiantar. Acho que é muito importante que se respeite o espaço de cada uma das partes e permitir que cada uma se pronuncie para adequar uma solução a todos os sinais que vamos recebendo.

Mas para a Santoro seria uma solução a recuperar? Que permitiria ter o aval do regulador angolano...

A Santoro já se comprometeu a apoiar todas as soluções que sejam verdadeiramente viáveis. Perder tempo e gastar energia em opções que não têm os acordos necessários não é a melhor forma de proteger o interesse da instituição.

E qual é a sua leitura da proposta apresentada ontem pelo conselho de administração de levar a uma nova Assembleia-geral a desblindagem dos estatutos do BPI? Foi uma estratégia para pressionar a Santoro?

Não acredito que existam esse tipo de estratégias. Acho que foi uma coincidência. Eu votei contra, enquanto administrador. Mas quero recordar que eu próprio e a Santoro apresentámos, há oito meses, uma proposta que potenciava uma maior racionalidade para o setor bancário português: uma fusão entre o BCP e o BPI. Temos a ambição de criar a maior instituição financeira portuguesa. Se isso tivesse acontecido, no âmbito da nossa proposta, teria sido feito um aumento de capital e a consequente desblindagem dos estatutos.

Faz depender o voto da desblindagem do objetivo?

Não podemos dizer que somos contra. Entendo que este não é o melhor momento para estarmos a tratar disso. Temos um prazo muito curto para resolver o problema mais premente da exposição aos grandes riscos. Esse prazo está a aproximar-se, agora no início de abril. Estar a trazer outro tema - com a magnitude que uma desblindagem dos estatutos pode ter - não é oportuno. Se isso for feito, no âmbito de movimentos de consolidação, contará com o meu voto favorável.

O que está então ao alcance dos acionistas e da equipa executiva para cumprir o calendário?

Acho que abre-se hoje uma página de diálogo. Tem de haver consenso e bom senso. E com isso estou certo que chegaremos todos a um bom acordo. É preciso dialogar, falar. Contem a Santoro para construir soluções virtuosas. Mais do que isto não posso dizer. Seria fazer futurologia.

Há, de facto, uma separação ou uma fratura entre a Santoro e o BPI?

Isso é totalmente falso. Não existe duelo, afastamento ou conflito. Não existe nada disso. A Santoro investiu no BPI no início do ano de 2009. Atravessou a maior crise financeira que o país viveu nas últimas décadas. Investiu quando o Itaú saiu. Acompanhou e suportou sempre os aumentos de capital. Apoiou na estratégia definida pela comissão executiva. Votou sempre favoravelmente e entusiasticamente os planos de negócio do banco. Portanto, nunca houve uma separação entre a Santoro e a equipa de gestão do BPI. A única vez que houve uma posição diferente entre o CaixaBank e os restantes acionistas foi no âmbito de uma Oferta Pública de Aquisição lançada na terça-feira de Carnaval do ano passado não solicitada, a um preço considerado pelo conselho de administração baixo. No caso da Santoro, considerem por favor, uma total disponibilidade e interesse para dialogar no sentido de construir soluções.

Notícia atualizada às 16 horas

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