Mário Vaz sobre leilão 5G. "Preocupa-nos a discriminação e favores sem paralelo na Europa"

O CEO da Vodafone acusa a Anacom de criar regras no regulamento para o leilão do 5G com base "numa leitura distorcida e ficcionada da realidade".

A Mário Vaz não preocupa a entrada de novos operadores no mercado nacional através do leilão do 5G, mas ao CEO da Vodafone preocupa-o "a discriminação e favores sem paralelo na Europa". Na sua audição no Parlamento sobre o regulamento do leilão do 5G, o gestor não poupou críticas à Anacom que avançou com um regulamento para a quinta geração móvel com base "numa leitura distorcida e ficcionada da realidade".

O 5G é um processo "inevitável" e "irreversível - necessário para a criação de riqueza e que, segundo um estudo da Roland Berger, citado pelo gestor, será responsável até 2035 por 5% da riqueza mundial e que para Portugal poderá gerar 35 mil milhões de euros de riqueza - mas que em Portugal tem registado um "atraso temporal que nunca aconteceu em tempos anteriores".

O gestor, tal como já tinha feito Miguel Almeida, CEO da NOS, desmente a ideia de que em Portugal não há concorrência no sector. Há 600 mil utilizadores que todos os anos migram de operador, diz. "Isto é um mercado competitivo, pelo preço e pela qualidade de rede".

Novos operadores sem obrigações

"Não nos preocupa a entrada de novos operadores", diz Mário Vaz. "Mas preocupa-me a discriminação e favores sem paralelo na Europa", disse, numa referência às condições mais favoráveis para os operadores entrantes, ao nível de desconto de 25% no espectro, bem como reserva do mesmo no leilão.

Preocupa ao CEO da Vodafone a "premiação" da Dense Air com espectro, quando nem cumpriu com a obrigação de lançar serviço comercial nos dez anos em que detém a licença. Ou seja, diz, a Anacom "premiou o incumprimento" e "ressuscitou uma licença morta", atribuindo até 2025 "espectro crucial" para o leilão do 5G.

Mário Vaz critica o facto de o leilão não exigir obrigações aos novos operadores que venham a entrar. Terão desconto no espectro, sendo os operadores já no mercado obrigados a dar acesso à sua rede através de roaming nacional, e com custos mais reduzidos poderão eventualmente oferecer preços mais baixos. "O que vai acontecer aos operadores existentes? Terão de adaptar o seu negócio", diz.

Em Espanha, diz o CEO da Vodafone, esse esforço de adaptação custou 10 mil empregos, segundo o estudo da Roland Berger, que aponta um custo para Portugal na ordem dos 2 mil postos de trabalho, dos atuais 17 mil empregos criados pelos atuais operadores no mercado. "O novo operador não vai criar nem de perto nem de longe esses dois mil empregos", diz.

Investimento: "não houve regulador que nos ajudasse"

Situações que "hipoteca o futuro do país" e dificulta já obter mais investimento da casa mãe. A Vodafone, diz, está a sentir dificuldades em trazer para Portugal um centro de excelência, para 5G, que iria dar emprego a 400 pessoas, devido a "imprevisibilidade e ineficiência de investimento".

A companhia, lembra, tem investido em Portugal. Só em rede de fibra já investiu 500 milhões de euros nos últimos anos, tendo já ligado 2,2 milhões de casas e empresas, para responder às exigências colocadas pelo mercado concorrencial. "Não houve regulador que nos ajudasse", diz.

As atuais regras do leilão 5G tornam "muito difícil demonstrar que é rentável fazer esse tipo de investimento" com Portugal a comparar mal com outros mercados em termos de "retorno do capital investido".

"Vamos fazer um investimento para estender o tapete vermelho a outros?", questiona. "Isto foi mal pensado, tem de ser refeito", reforça.

5G não resolve cobertura, nem o roaming

O CEO da Vodafone também desmistifica a ideia de que os problemas de cobertura do país serão resolvidos com o 5G. "O 5G não resolve a cobertura. É uma tecnologia evolutiva", diz. Se temos de resolver o problema da cobertura do país, diz, "vamos fazê-lo de forma eficiente e racional".

O roaming nacional é "apenas para o novo entrante", não "é uma solução para a cobertura". O gestor diz que não há problemas em se fazer "roaming localizado" em zonas remotas onde esse problema existe, mas "o investimento tem de ser repartido por todos, de acordo com o beneficio adquirido" no leilão.

"Roaming localizado é possível, mas não é necessariamente o melhor", afirma. Mas, se queremos dar, como educação e saúde, telecomunicações aos portugueses, "temos de também envolver o Estado".

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