Gás

Megaprojetos de gás em Moçambique ameaçados por grupos islâmicos radicais

Palma, província de Cabo Delgado, Moçambique. D.R.
Palma, província de Cabo Delgado, Moçambique. D.R.

Projetos das gigantes Total, Exxon Mobil e Eni já empregam cinco mil trabalhadores, sobretudo na construção. Há empreiteiros portugueses envolvidos.

O regresso ao trabalho nas obras de construção dos megaprojetos de gás no Norte de Moçambique, na sexta-feira, foi ensombrado por novo alerta de ataque armado nas proximidades, relataram dois funcionários à Lusa, residentes na vila de Palma, Cabo Delgado.

A onda de violência na região teve origem há dois anos em mesquitas radicalizadas e já provocou cerca de 300 mortes na província de Cabo Delgado e afeta 60.000 pessoas, obrigadas a abandonar as suas terras e locais de residência, de acordo com a mais recente revisão do plano global de ajuda humanitária das Nações Unidas.

“Vimos o movimento de pessoas que passam por este sofrimento”, a fugir de ataques armados: “estiveram por ali a circular, nas estradas, próximas da zona onde fazemos o nosso trabalho dia a dia”, contou um trabalhador, sob anonimato, alegando razões de segurança.

Algumas obras estiveram paradas e os trabalhadores foram dispensados na quinta-feira, depois de um ataque no dia anterior ter feito oito a 10 mortos na aldeia de Nsemo, junto aos estaleiros.

Mega projetos da Total, Exxon Mobil e Eni

Os trabalhos de consórcio petrolíferos liderados pela Total, Exxon Mobil e Eni movimentam cerca de cinco mil trabalhadores, segundo anunciado pelas empresas, sobretudo em obras de construção civil, que incluem alguns empreiteiros portugueses.

Esta sexta-feira, as operações foram retomadas, mas segundo descreveu o funcionário ouvido pela Lusa, além de Nsemo, desta vez as pessoas fugiam de Monjane, povoação também nas imediações das obras, por entre caminhos em terra e vegetação, e que foi atacada durante a tarde, indicaram residentes.

Pelo menos dois trabalhadores ligados à edificação dos megaprojetos vivem em Monjane e deram o sinal de alerta aos colegas.

“Foi entre as 14h00 e as 15h00 (menos duas horas em Lisboa) e a zona foi queimada”, descreveu o mesmo funcionário.

Quem fugia, fazia-o como podia: em carrinhas de caixa aberta, de motorizada, bicicleta ou a pé, num cenário de deslocação que já dura, como referido, há pelo menos dois anos, quando os ataques começaram, tendo origem pessoas de mesquitas radicalizadas de Mocímboa da Praia.

No caso concreto de Monjane, esta aldeia já tinha sido alvo de um ataque sangrento em maio de 2018, em que morreram cinco pessoas, segundo descreveu na altura Salimo Chingu, líder tradicional da povoação, à Lusa.

“Hoje voltámos a trabalhar, mas a situação é perigosa”, contou outro trabalhador à Lusa, na sexta-feira.

“Uma pessoa entra no carro para o serviço e pensa: vou chegar ao posto de trabalho? Voltarei para casa ou não? Isto é assim, no geral, no distrito” de Palma, descreve.

“Matanças feitas de qualquer maneira”

Esta semana foi pior, porque “as zonas atacadas são próximas de onde estamos a trabalhar”.

Quem morre, nas aldeias, “são pessoas inocentes, não sabem de nada” do que se passa, tal como ele próprio, quando questionado sobre quem são os agressores.

“É uma situação incontrolável. São matanças feitas de qualquer maneira”, diz, enquanto o colega lamenta: “Não há muito emprego e por isso persistimos em ficar na zona”.

Pedem que as autoridades “olhem para o distrito de Palma porque as forças de segurança, que estão no terreno, “não conseguem dominar essa quadrilha”.

“As festas [do mês de dezembro] estão a aproximar-se e nós não sabemos como vai ser a nossa vida”, acrescenta.

Futura “cidade do gás” vai ter 150 mil habitantes

A aldeia de Nsemo pertence à localidade de Mute, posto administrativo de Palma, vila em cujas imediações está a ser construída a futura “cidade do gás”.

Este projeto, cujo plano diretor foi apresentado na quinta-feira numa conferência do setor, em Maputo, vai custar pelo menos 1.500 milhões de euros e albergar 150 mil habitantes, referiu fonte oficial à Lusa.

A exploração de gás natural na bacia do Rovuma a partir de 2022 deverá colocar Moçambique entre os principais países produtores a nível mundial e impulsionar a economia daquela que é uma das nações mais pobres do planeta.

Em resposta a questões da Lusa, a Total indicou na sexta-feira que está atenta à situação de violência, considerando que a segurança dos trabalhadores é uma prioridade.

“Continuaremos a monitorizar de perto a situação e a trabalhar com as autoridades competentes e outras partes interessadas para garantir um ambiente de trabalho seguro para os nossos colaboradores e para as comunidades locais”, referiu fonte da Total.

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