Melo Ribeiro: "A indústria é impulsionadora de uma economia forte"

Carlos de Melo Ribeiro, CEO da Siemens Portugal, em discurso direto sobre o tema da quarta revolução industrial

Como estamos de quarta revolução industrial em Portugal?

A atual realidade da Europa é diversa: por um lado em países como a Alemanha, o sector industrial cresceu e aumentou a sua representatividade; por outro, temos economias como a de França, Espanha ou Portugal, que desinvestiram nesse sector focando-se em serviços.

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Para conseguir a necessária reindustrialização, Portugal terá de assentar em novos fundamentos e ter em conta os fatores de mudança que se perspetivam para a evolução da economia Europeia nos próximos 15 anos. Na Siemens é precisamente isso que temos vindo a fazer.

Em que sentido?

Estamos numa fase muito marcada pelo avanço rápido da tecnologia da automação clássica, sob a influência crescente da digitalização, que está no cerne da visão da Indústria do futuro, também conhecida por 4.0.

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A Siemens está na vanguarda da digitalização das empresas (interação entre hardware, software e serviços, ao longo de toda a cadeia de valor industrial), motor desta nova revolução e trabalha diariamente para garantir os pilares que permitirão a sua implementação, sobretudo através do desenvolvimento de novos softwares industriais inovadores.

Esta revolução já está a acontecer?

Já. E o estudo The Digital Enterprise: Europe and Portugal feito pela Deloitte a nosso pedido mostra isso mesmo. Este visava aferir a maturidade digital das empresas portuguesas e analisou 29 países europeus. Portugal ficou a meio da tabela, em 15º lugar, na chamada fase de transição. O estudo, divulgado recentemente, concluiu que Portugal tem um contexto razoavelmente bom para apoiar a transformação digital das empresas, mas estas ainda estão hesitantes em investir e em explorar as oportunidades digitais. Se as empresas portuguesas acelerassem a taxa de adoção de novas tecnologias e investissem no desenvolvimento de serviços digitais e canais online, Portugal tornar-se-ia mais maduro do ponto de vista digital e melhoraria significativamente a sua posição geral neste ranking.

Quais são as grandes vantagens?

É importante não esquecer que a Digitalização aplicada ao sector industrial permite obter ciclos de desenvolvimento mais curtos e económicos; aumentar a capacidade de lidar com produtos e processos de produção mais complexos; obter uma maior eficácia no uso de energia; e personalizar a produção em massa. Ou seja, traz mais valor acrescentado a um preço competitivo.

Quais são os sectores mais adiantados nesta quarta revolução?

Existem vários sectores que já estão bastante ativos nesta área. O sector automóvel é sem dúvida um dos mais dinâmicos. Sabemos isto porque mais de 80% de todas as fábricas europeias de automóveis estão equipadas com tecnologia Siemens de automação e acionamentos. Atualmente, a integração de sistemas de TI utilizados no planeamento e produção fornece uma vantagem significativa na produção industrial e aumenta a competitividade. A Maserati, por exemplo, confiou nos nossos softwares para produzir o modelo Ghibli. Em 2014, esta empresa não só celebrou cem anos de vida da marca, como também comemorou o melhor ano de sempre da sua história com as vendas deste modelo.

Porquê o Ghibli?

Porque o sucesso do Maserati Ghibli é o exemplo perfeito dos benefícios que os fabricantes de automóveis já estão a ter devido à digitalização dos seus processos. Os componentes foram desenvolvidos no software PLM NX da Siemens, o processo de produção foi simulado eficientemente, e ao pormenor, através da utilização do nosso portefólio de soluções digitais. E os processos complexos de produção são planeados, otimizados e monitorizados com recurso a um outro software da Siemens. Agora para tudo isto vingar é necessário apostar na formação e na qualificação de recursos que respondam a estas novas exigências.

Que impacto é que esta quarta revolução trará à economia portuguesa? Vai aumentar riqueza?

A indústria é impulsionadora de uma economia forte e do desenvolvimento do país. Ao evoluir, aumenta a complexidade, mas potencia também a eficiência na produção, o que inevitavelmente gera riqueza. A empresa digital que a Siemens prevê para o futuro, utiliza os seus recursos de forma eficiente poupando, por exemplo, 70% da energia através do uso de tecnologias de acionamento de velocidade variável em motores. Na unidade fabril da Siemens em Amberg, na Alemanha, são produzidas cerca de 1.000 referências diferentes, de forma flexível e eficiente, através do uso das mais recentes ferramentas de software. Estas contribuíram para melhorias significativas de qualidade nos últimos anos e vários aumentos dos volumes de produção realizados pelo mesmo número de pessoas. Resumindo, este novo panorama trará crescentes ganhos de eficiência, um aumento exponencial no dinamismo do sector, e novos players e tecnologias para o mundo industrial.

E os sectores tradicionais?

De acordo com a nossa experiência, os sectores mais tradicionais também estão atentos e querem acompanhar esta mudança. Exemplo disso são as Academias de formação que temos no Instituto Politécnico de Leiria. A PLM Academy: powered by Siemens (software) e a Siemens Automation Academy (automação) pretendem contribuir para a revitalização da indústria nacional e dinamização da empregabilidade, dando resposta à necessidade de formação de colaboradores especializados, sentida pelas indústrias locais da região de Leiria, algumas tradicionais portuguesas, como é o caso da indústria de moldes ou do vidro.

Que grandes desafios podemos esperar de todas estas transformações?

Neste momento estamos a presenciar um desenvolvimento holístico de máquinas e sistemas, o que, por sua vez e naturalmente, exige um desenvolvimento das competências humanas. Esse é um dos grandes desafios. Não obstante toda a autonomia dada ao processo de produção, é e será o ser humano que definirá as funções das máquinas. Por exemplo, é o ser humano que sabe como um material tem que ser processado. Também é ele quem decide se a produção deve ser acelerada ou se é necessário ter em conta uma utilização particularmente eficiente dos recursos. Esta tarefa exige uma compreensão ainda mais profunda do processo de produção por parte dos trabalhadores. Outra área que também poderá apresentar alguns desafios é a da Cyber Security, daí ser uma forte aposta da Siemens que está empenhada em minimizar os riscos associados a esta temática.

E que oportunidades traz esta revolução?

A redução dos custos, a poupança de energia, o aumento da segurança no trabalho, a redução de erros na cadeia de produção, o fim do desperdício, a transparência nos negócios, o aumento da qualidade de vida e a personalização, a uma escala sem precedentes.

Como evitamos que se agravem as desigualdades?

O mais recente estudo do World Economic Forum 2016, concluiu que a Quarta Revolução Industrial vai alterar os modelos de negócio de todas as indústrias. Novas categorias de funções vão aparecer, substituindo totalmente algumas das atuais e/ou complementando outras. O conjunto de competências exigidas quer nas antigas, como nas novas funções vai mudar em muitas das indústrias e mudar a forma como e onde as pessoas trabalham. Estou convicto que num mundo onde a Indústria 4.0 é uma realidade, o homem será o líder criativo e pensador, que aplicará a sua inteligência para conceber todos – e quero dizer mesmo todos – os processos e procedimentos necessários e ensinar as máquinas a executá-los, com base em algoritmos e software, criados e desenvolvidos por ele. Tal como as outras antes, a quarta revolução industrial será obra do homem.

Agora, como disse anteriormente, as qualificações são fundamentais, para que os recursos existentes estejam adequados às novas exigências. E esta é uma área particularmente acarinhada pela Siemens.

Em que medida?

Há cerca de 25 anos fomos uma das primeiras empresas em Portugal a criar uma estrutura de formação tendo por base o ensino Dual alemão, que deu origem à ATEC. E fizemo-lo para suprir as necessidades de formação em áreas específicas ligadas à nossa atividade, mas não só. Atualmente, a ATEC tem em média cerca de 860 formandos por ano e uma taxa de empregabilidade acima dos 85%. Mais recentemente, as academias de formação que inaugurámos em 2014 no Instituto Politécnico de Leiria (uma de software e outra de automação) são já uma forma de preparar os jovens de hoje para as necessidades de amanhã.

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