Miguel Almeida Henriques: "É preciso vias verdes no licenciamento da energia solar"

Fundador da Grow Capital tem estado focado nas renováveis, sobretudo solar, e vê no autoconsumo a solução de futuro. Critica os custos de contexto e as demoras nos licenciamentos, que tiram valor aos projetos. E explica outros investimentos, que vão do mar à saúde.

Miguel Almeida Henriques é formado em Gestão de Empresas e tem mais de 20 anos de experiência na área da Gestão de Ativos. Exercendo funções de administrador em diversas empresas, Fundos de Investimento Imobiliário e Hedge Funds, é hoje partner da Grow Capital e tem estado particularmente envolvido da Grow Energy, braço da gestora de investimentos focada na produção de energias renováveis e eficiência energética, temas centrais no atual processo de descarbonização europeia e na resposta à necessidade de independência energética decorrente da guerra na Ucrânia.

É mesmo por aqui que começamos. A independência energética é uma questão de sobrevivência em 2023 e isso passa muito por as empresas conseguirem produzir energia para a sua atividade. A Grow Energy acaba de ganhar um contrato de 60 milhões para instalar painéis fotovoltaicos nas 2 mil lojas da Biedronka, subsidiária do grupo Jerónimo Martins na Polónia. Há mais projetos a caminho?
A Grow começou atividade em 1999, focada em investimentos e ativos financeiros - fomos pioneiros nos hedge funds em Portugal e há uns oito anos arrancámos com as renováveis, especificamente o solar. Entendemos que o ambiente de taxas de juro pós-crise 2008 iria perdurar e havia um mercado grande e muita tecnologia em desenvolvimento nessas áreas e começámos a fazer centrais fotovoltaicas em Portugal em 2014/2015. Fizemos a primeira do país para autoconsumo nos Hotéis Pestana, na Madeira. Agora, esse contrato que referiu ganhou muita visibilidade, desde logo pela dimensão, mas também por ser uma empresa de referência - a segunda maior polaca e detida por um grupo português - e porque abre caminho ao que acredito que vai ser o futuro da energia e responde às preocupações das empresas, de redução de custos económicos e ambientais e aumento da independência e segurança energética.

E têm investimentos a caminho para o grupo JM também por cá?
Temos. Estamos a instalar 12 centrais para a JM e temos já em funcionamento 130 em Portugal, num total (incluindo Polónia) construído e em construção de 200 MW. Há cinco anos, eram 5MW. Temos o objetivo de atingir 500MW nos próximos três anos, há muitos projetos em curso e com o custo da energia e consequências da guerra as empresas estão muito mais despertas para estas soluções. O mercado está a crescer bastante.

Como é que funciona o modelo de negócio? O cliente não paga...
A grande vantagem deste modelo é desde logo o solar ser a energia mais barata dentro das renováveis. O preço da tecnologia caiu bastante - há um indicador que compara todas as fontes, o levelized cost of electricity (LCOE), e neste momento, com a queda dos custos dos painéis fotovoltaicos, as centrais são mais competitivas. O modelo que usamos no autoconsumo é uma solução chave na mão: fazemos a montagem toda da central, a operação e manutenção, com investimento 100% nosso, sem um cêntimo da empresa cliente. E depois fazemos partilha da poupança. Com o atual nível dos preços energéticos, as poupanças das empresas podem chegar a 60%. Portanto imagine o que isto significa para uma empresa: com investimento zero, deixa de emitir CO2 (só para a JM, isto significa evitar 75 mil toneladas por ano) e pagam-nos uma parte da poupança de acordo com a performance da central. Ao fim de uns 15 anos, a central fica na posse da empresa e terá mais uns 15 anos de vida útil.

É uma espécie de PPP entre privados.
É, mas numa lógica de partilha de poupança. Os contratos que suportam este modelo de negócio têm que ver com o desempenho da central.

Este tipo de investimento faz sentido em condomínios residenciais também?
Cada vez mais faz sentido em todo o lado. O solar em Portugal pesa 5% no mix energético - porque era o mais caro; mas o LCOE caiu mais de 70% nos últimos dez/doze anos. Mas o nosso mercado são as unidades para autoconsumo em empresas com consumos energéticos de dez mil euros por mês, por questões de escala. Nós somos uma empresa de consultoria e especializámo-nos muito no renovável e autoconsumo, não temos dimensão e estrutura para andar a fazer instalação em casas particulares. Acima de tudo, interessam-nos clientes com consumos elevados e estabilidade nos consumos: por exemplo, um hospital claramente tem consumos todos os dias, ao passo que há indústrias que param ao fim de semana.

E faria sentido tornarem-se um provedor para grandes estruturas públicas?
Faria todo o sentido. Já tivemos uma experiência em eficiência energética, num concurso em que entrámos com a Galp para substituir todos os semáforos de Lisboa: 8 mil semáforos, 20 mil lâmpadas que geraram logo uma poupança à CML, sem investimento, de 400 mil euros. Ao fim de três anos de contrato, estavam a poupar 1 milhão de euros. Porque é que não se faz mais? Não tenho resposta, mas suponho que porque há mais inércia no setor público. Gostávamos de fazer em escolas, hospitais edifícios públicos , mas não tem acontecido.

Mas há contactos nesse sentido?
Não. Os concursos públicos não avançam e temos tanto trabalho no privado que os custos de contexto e demoras nos licenciamentos acabam por não compensar, porque as margens são baixas e o tempo de execução e implementação de projetos é muito importante. Não podemos estar 6 a 8 meses a negociar sem saber se vai resultar.

O preço da energia é o grande risco que vê para o próximo ano?
Não é só, há outros que já vêm da pandemia. É difícil fazer previsões de crescimento, inflação, há a geopolítica, questões emocionais e de confiança. A energia tem impacto grande, mas o nosso cenário central é que os próximos dois anos serão difíceis, de grande abrandamento económico ou mesmo recessão em vários países. A grande questão é até onde vão subir os juros. Já vemos as taxas de longo prazo a cair pela travagem da economia e portanto já poderemos ter atingido o pico da inflação e os juros estabilizarem...

A produção de Renováveis tem vindo a aumentar em Portugal e em novembro, segundo dados da REN já abasteceram 58% do consumo. É suficiente?
Acho que não estamos mal em comparação com outros países. Este ano nem será bom exemplo porque a hídrica penalizou-nos, mas claramente há espaço e necessidade de crescer. Nós especializámo-nos na produção descentralizada e achamos que o futuro está aí, porque se consegue ser muito mais competitivo em preço: é produzir energia onde ela é consumida, evitando perdas no transporte, na distribuição, emissões...

O programa para a criação de Comunidades de Autoconsumo Coletivo previa um financiamento inicial de 30 milhões, além dos 610 milhões do Plano de Recuperação e Resiliência, nomeadamente para eficiência energética dos edifícios. Candidataram-se?
Não. Talvez pelo nosso ADN temos tendência para fazer propostas para o privado. Tivemos contactos com comunidades de energia, nomeadamente parques industriais, mas ainda há muita inércia e burocracia.

As comunidades de energia renovável foram lançadas em agosto de 2021 mas até agora só três estão aprovadas e há 170 à espera. O enorme atraso nas licenças é um problema?
É verdade. Nós temos 14 MW para desenvolver e carecem de licenciamento camarário e só para aprovar o PIP estamos há um ano à espera. E depois ainda faltam os licenciamentos para construção da própria central. Isto altera totalmente os economicos do projeto e penaliza-o.

O que era preciso para os processos serem mais ágeis?
Há demasiadas entidades a opinar - acontece nos licenciamentos das fotovoltaicas mas também no imobiliário, onde também temos alguma presença. A pandemia trouxe choques e atrasos a estes processos nas câmaras, mas depois tem as comissões mistas, as CCDR, a APA... todos cumprem o seu papel e terão uma palavra a dizer, mas a verdade é que a máquina não funciona. A burocracia é enorme e o tempo imenso. Há que agilizar processos.

Mas como?
Caberá aos governantes decidir. Eu diria que é pôr vias verdes nestes processos e ter uma maior concentração em menos entidades.

A inflação será ainda um travão quer à atividade económica quer ao consumo. Será preciso uma recessão para a controlar ou estamos em risco de estagflação?
Em risco estamos sempre... mas esta inflação estaria sempre aqui, porque vem muito dos custos energéticos e das questões da pandemia, nomeadamente dos efeitos na cadeia toda de fornecimento, com falta de stocks, de equipamentos e materiais. O que me parece é que já não há volta a dar. É sempre difícil evitar a inflação sem criar abrandamento ou mesmo alguma recessão. A margem de equilíbrio é muito fina. Eu diria que a inflação vai abrandar com a travagem económica e ainda mais se houver solução para a guerra, nomeadamente com soluções para a energia.

Este tipo de soluções não devia ser prioridade para setores básicos da economia, em que os custos de contexto são enormes?
É verdade, há setores que estão a ser altamente penalizados, mas isto não é carregar no botão e aparecem centrais, tem de planear, demora...

Mas devia partir da iniciativa privada ou do governo?
Eu acho que cabe sempre à iniciativa privada, o governo só tem de criar as condições para poder investir: legislar, regular e não estorvar. É o que se pretende de qualquer governo. Claro que este tema da produção descentralizada tem efeitos fortes na economia, porque o custo de produção é muito inferior.

Está otimista para 2023 ou devíamos ter cautela?
O governo prevê 1,3% de crescimento para 2023, a previsão é muito difícil. É possível atingir, mas há condicionantes de Portugal e da Europa, algumas estruturais e outras conjunturais. Primeiro, desde logo a competitividade global, pesando a demografia europeia e a globalização. É um tema que se vai colocar sempre e obrigará eventualmente a uma mudança no modelo económico europeu: com uma população muito envelhecida não podemos - porque não haverá capacidade de - continuar a subsidiar o Estado Social, e depois num mundo onde temos de ser competitivos com outras zonas do mundo em comércio livre (o que traz riqueza e tira milhões de pessoas da pobreza). E depois há as conjunturais, ainda na ressaca da pandemia e da guerra, desde logo pelo drama humanitário, mas também pelas consequências, da energia à situação com a Rússia.

Poderá o PRR ser um fator competitivo de que Portugal possa tirar partido?
Sim, desde que seja bem aplicado pode ser uma alavancagem fortíssima para esses investimentos. Tem é de chegar à economia.

E ainda não está a chegar?
A informação que tenho é que chega muito devagar.

A Grow Capital trabalha mais áreas. Têm projetos desde as conservas até à saúde... onde há até um modelo de negócio bastante inovador de fornecer salas de operações. Como funciona?
A Grow trabalha, como disse, investimentos alternativos, que são todos os que não têm que ver com ativos tradicionais, não correlacionados com os mercados. No início focámo-nos nos hedge funds e levantámos cerca de mil milhões em três ou quatro anos junto dos investidores. Em 2007 diversificámos para a Polónia, em imobiliário, com 2 mil apartamentos, e depois fizemos investimentos em M&A em Portugal. Agora temos outras coisas em curso. Há um ano comprámos a Conserveira do Sul, em Olhão, uma empresa com 70 anos e num setor que nos agrada. Tudo o que está relacionado com Economia do Mar é bom e defensivo até em alturas de crise - as pessoas consomem mais conserva de sardinha e cavala, até porque é peixe de mar, muito saudável. É uma empresa com mais de 90 empregados e tem corrido muito bem, com a exportações a aumentar neste ano de 12% para 26%. Temos vários projetos e quando foi a transição da família, já na quarta geração, para nós, tivemos todos a preocupação de não dispensar ninguém. E há potencial para crescer.

E a saúde?
É outro investimento que estamos a estudar. O que estamos a ver são centros cirúrgicos de ambulatório. Há muitas cirurgias feitas em hospitais públicos e privados com enormes listas de espera e muitas em ambulatório que não tinham necessidade de ser feitas em hospitais e estão a ocupar salas e recursos. É um modelo que existe muito nos EUA e agora chegou à Europa. Além de vermos tendências de longo prazo, a Grow tenta também entrar em negócios em que estamos do lado certo. É assim na energia, é assim na saúde - ganhar dinheiro e baixar listas de espera -, é assim nas conservas com a alimentação saudável a 3 ou 4 euros, e é assim noutros projetos ligados ao mar. Por exemplo, estamos a analisar a entrada numa área em que temos imenso potencial, que tem que ver com o turismo de experiência e aventura, potenciando esta nossa costa que é diferente, tem ondas grandes, tem vento...

Mas voltando à saúde, como é que isso funciona? E pode resolver o problema da falta de pessoas, há profissionais para usarem as salas e reduzir a espera?
Sim, porque liberta recursos humanos. Quando vai para o hospital são muitos enfermeiros, anestesistas, auxiliares alocados, que em ambulatório não são necessários. Dependerá do investimento feito, mas seguramente ajudará a baixar as listas de espera.

Já está a funcionar?
Já. Nós temos um promotor que iniciou a empresa e nós queremos comprar 75%, para a fazer crescer e disponibilizar as salas a quem as quiser usar. Podem ser médicos diretamente, hospitais privados ou públicos. É mais uma plataforma disponível, a determinado preço - muito mais competitivo do que o de mercado.

E o hidrogénio, é um interesse em estudo?
Não, porque elegemos e queremos ser altamente competitivos na produção descentralizada, autoconsumo, solar. Temos experiência, não ficamos a dever às grandes utilities, temos vantagens comparativas significativas - não temos uma marca forte, claro, mas temos a experiência, a independência para fazer só isso junto dos potenciais clientes, temos um serviço único ao cliente e não gostamos de surpresas. Damos muito valor à previsibilidade dos resultados. E muitas vezes sacrificamos performance para ter o melhor equipamento do mercado, e por isso também não temos estrutura para começar na nova tecnologia do solar. Não, queremos soluções testadas e sem surpresas. Quando se fala de hidrogénio, pode ser muito interessante, mas não é nosso campeonato, como não o são os leilões de centrais de grande escala - são produções feitas que depois têm de ser transportadas, ao contrário do que acreditamos, até com impactos ambientais.

Que áreas de investimento vê com maior potencial de desenvolvimento no próximo ano?
Há setores de que gostamos - saúde, mar - e tendências que se têm consolidado, como a alimentação saudável, cozinha natural, orgânica... são áreas em grande crescimento, nas quais estamos também a analisar projetos. Temos consciência de que os tempos são desafiantes - as taxas de juros prejudicam a todos, mesmo tendo nós uma ação com base de capitais próprios muito elevada. Para lhe dar um exemplo, neste investimento que arrancou em outubro, e já concluímos as primeiras 100 centrais na Polónia, não temos um cêntimo de dívida. Mas ainda assim será desafiante.

E sente o travão em abastecimentos?
Já esteve pior. Houve muitos constrangimentos de material, sentimo-lo na conserveira, por exemplo, não só com o peixe mas com o óleo de palma, o azeite, preços que triplicaram... Neste momento, as commodities já caíram bastante, o comércio internacional já começa a fluir - ainda que na China haja ainda estas restrições - e por aí as coisas estão a compor-se. Mas os outros desafios, nomeadamente taxas de juro e inflação, mantêm-se.

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