Obituário

Morreu Alexandre Soares dos Santos, o senhor Jerónimo Martins (1934 – 2019)

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (D), agraciou o empresário, Alexandre Soares dos Santos (E), com a Ordem de Grã-Cruz de Mérito Empresarial, no Palácio de Belém, em Lisboa, 20 de abril de 2017. 

Fotografia: PAULO NOVAIS/LUSA
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (D), agraciou o empresário, Alexandre Soares dos Santos (E), com a Ordem de Grã-Cruz de Mérito Empresarial, no Palácio de Belém, em Lisboa, 20 de abril de 2017. Fotografia: PAULO NOVAIS/LUSA

Recebeu um grupo com grande foco industrial e transformou-o num gigante. Morreu hoje. Tinha 84 anos.

Há decisões que mudam toda uma vida. A de Alexandre Soares dos Santos foi ter abandonado aos 22 anos o curso de Direito e rumado à Alemanha para fazer uma carreira na Unilever. O gestor que em 1968 agarrou o grupo Jerónimo Martins (JM), transformando-o no que é atualmente um grupo de distribuição com presença em Portugal, Polónia e Colômbia, morreu hoje. Tinha 84 anos.

Em reação à sua morte, confirmada pela Jerónimo Martins ao final desta noite, o Presidente da República, enalteceu o “relevante papel na vida económica, social e cultural portuguesa” do empresário, que condecorou há dois anos. Fonte oficial do grupo Jerónimo Martins informou que “as cerimónias fúnebres serão, por vontade expressa do senhor Soares dos Santos, reservadas à família mais próxima”.

Desde 2013 que Soares dos Santos estava afastado de funções na JM. Deixa uma fortuna pessoal de mais de 1,8 mil milhões aos sete filhos, um grupo de distribuição multinacional e duas fundações, a Francisco Manuel Soares dos Santos e a Oceano Azul. “Uma lição de vida, de conduta. É a única coisa que me interessa deixar. O resto é património que têm de continuar, para o qual outras pessoas contribuíram”, disse em entrevista ao Público em 2012.

O que é hoje a Jerónimo Martins – um gigante com mais de 4000 lojas Pingo Doce, Recheio, Biedronka, Hebe e Ara, em três mercados, mais de 100 mil funcionários e que gera receitas de mais de 17,3 mil milhões de euros – começou a ser desenhado por Alexandre Soares dos Santos quando assumiu a liderança do grupo, após a morte do pai, Elísio Alexandre dos Santos (59 anos), numa visita ao Brasil, país onde Soares dos Santos trabalhava como diretor de marketing da Unilever.

“Quem mais me influenciou, positiva e negativamente, foi o meu pai”, de quem (bem como do avô) diz ter herdado o espírito empreendedor. Mas não hesitou em cortar com a estratégia do pai quando tomou as rédeas da Jerónimo Martins.

Aposta na distribuição
Elísio Alexandre dos Santos favorecia o lado industrial do grupo, tendo fundado a fábrica de margarinas FIMA (1944) e negociado uma parceria entre o grupo português e a holandesa Unilever, que levou à criação das Indústrias Lever Portuguesa (1950), comprou a fábrica de gelados Olá e a de chocolates Excelsior. Alexandre Soares dos Santos tomou a direção oposta. “Entrei na distribuição para ter um contrapoder à Unilever. ‘Se tu tens a parte da inovação, eu tenho a parte da venda. A Unilever que era 60% a 65% da JM, hoje é 4% a 5%.

E assim nasceu um grupo de distribuição. Desenvolveu-se, onde vai parar não sei”, disse em entrevista (Público/2012). E foi nesse contexto que, em 1978, fundou a cadeia de supermercados Pingo Doce, cuja primeira loja abriu em 1980. Décadas e centenas de lojas depois o grupo assumiu-se claramente como tendo a sua atividade core na distribuição. “A Jerónimo Martins é uma empresa de distribuição e assume-se como tal. Chamem-nos merceeiros, estou-me nas tintas”, disse. (Público 2012)

Navegou as águas agitadas do pós-25 de abril, período que descreveu como de explosão do consumo. “Em termos de vendas, o 25 de abril foi uma mina. Passaram a comer gelados na rua, que não comiam”, lembra. Eventualmente, desses tempos talvez venha a sua visão sobre o papel dos sindicatos. “São um braço político dos partidos, não fazem nada. Aliás, nem percebem nem se perguntam porque estão a perder tantos aderentes, mas por alguma razão as pessoas estão a deixar os sindicatos. Eu sou francamente favorável às comissões de trabalhadores, que, regra geral, têm interesse em defender a companhia onde trabalham, em defender o seu trabalho. Veja que a Intersindical vai meter-se na Autoeuropa e cria logo problemas. É o que é”, disse em entrevista ao Sapo 24.

Empresário não entra na política
Assumido “católico, crente e praticante”, o homem que chegou a dizer que chegaria a contratar o antigo primeiro-ministro José Sócrates como estagiário — “e se não quisesse e se portasse mal, a gente convidava-o a ir para outro sítio” — manteve sempre distância do mundo da política. “Defendo que o empresário não tem que se meter em política. Há um conflito entre estar no Governo e estar no empresariado. A gente obedece a um objetivo: a defesa do interesse da empresa e dos que lá trabalham. Uma vez um político, um tipo que respeito, disse-me: ‘Os objetivos de um político são as próximas eleições. Os seus, não”.

Mas não se livra das críticas de praticar salários baixos, nem de ter transferido a sede da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (maior acionista da JM) para a Holanda, país que, garante, dá ao grupo “uma garantia de proteção do investimento no estrangeiro que Portugal não dá” e menos burocrático, justificou em junho de 2018 em entrevista ao Sapo 24. Um ano antes, durante a inauguração do centro de logística de Alfena, lançou farpas àqueles que criticam os salários elevados nas companhias. “Não são salários da Rua Augusta ou da Rua do Ouro, são salários do mundo”, para “conquistar os melhores” profissionais, disse citado pelo Dinheiro Vivo. E frisou a ambição multinacional do grupo, “a única empresa portuguesa verdadeiramente multinacional”.

O fracasso no Brasil
O salto para o mercado externo deu-se no mesmo ano (1997) em duas frentes: Brasil e Polónia. Na Europa do Leste, com a compra da Biedronka; no Brasil através da aquisição dos Supermercados Sé. Mas pouco tempo depois, em julho de 2002, a JM vendeu os ativos brasileiros ao grupo Pão de Açúcar, por 143 milhões de euros. Mercado ‘azarado’ para as cadeias de distribuição nacionais: em 2005 foi a vez da Sonae, a dona do Continente, o seu maior rival, vender os ativos que tinha neste país.

“A decisão de sair do Brasil não teve que ver com o insucesso da operação, que estava a funcionar bem. A holding em Portugal é que não tinha dinheiro para suportar operações em dois países grandes, Brasil e Polónia”, disse em 2012 Alexandre Soares dos Santos, citado pelo Jornal de Notícias.

“Uma grande lição”, considerou o gestor. “Demonstrou que sem um balanço financeiro, e sem recursos humanos, não vale a pena. Fomos dois anos mais cedo para a América do Sul, porque nos ofereceram uma companhia extraordinária e não muito cara. A posteriori, percebo que devíamos ter comprado aquela companhia e tê-la deixado quieta enquanto consolidávamos a Polónia. Não o fizemos”, admitiu em 2012. “Se tivéssemos ficado no Brasil, não éramos líderes nem na Polónia nem no Brasil. Saímos do Brasil, ficámos líderes na Polónia. Tomou-se a Polónia como um desafio sério. Tínhamos que demonstrar aos investidores que éramos muito bons e que íamos transformar aquilo num sucesso” (Público).

E não havia margem para falhar. Desde 1989, quando Alexandre Soares dos Santos comprou a participação que a família Vale, a Sociedade Francisco Manuel dos Santos passou a deter o controlo do grupo, tendo a JM entrado em Bolsa nesse mesmo ano. Assim, em 2003, fazer sair a companhia da pior crise da sua história estava nas mãos do gestor. Tiverem de vender ativos para abater dívida de 1,8 mil milhões para uns mais razoáveis 700 milhões de dívida líquida. Hoje o grupo lidera na Polónia, onde é o maior empregador privado, representando este mercado da Europa do Leste mais de metade das receitas: dos 17,3 mil milhões com que fechou 2018, mais de 11,7 mil milhões são oriundas do mercado polaco.

O embate do Brasil trouxe “humildade e focagem”, admitiu Alexandre Soares dos Santos que chegou a apresentar a demissão. Ficou. O filho Pedro Soares dos Santos (hoje CEO do grupo) seguiu para a Polónia, tendo o gestor ido buscar Luís Palha da Silva, o financeiro, para liderar o grupo (onde permaneceu de 2004 a 2010). Venderam empresas para abater dívida, mas contou com o apoio do BCP, de Jardim Gonçalves.

“Quando falhei no Brasil, estrondosamente, quem me deitou a mão a sério foi um banco português chefiado pelo Eng. Jardim Gonçalves, que eu nem conhecia. E o Eng. Jardim Gonçalves foi verdadeiramente impecável, percebeu qual tinha sido o problema no Brasil, percebeu o projeto e nós recuperámos”, recordou em junho ao Sapo 24. “Uma banca nacionalizada ou uma banca de amigos não fazia isso”, comentou ainda o gestor que sobre o setor bancário nacional disse: “Isto é uma terra de primos e os primos passaram a vida a fazer jeito uns aos outros. Depois estouram-se todos, estouram os bancos e os primos. Isto acabou com a banca em Portugal, hoje não há dinheiro no país para ter um banco”. (Sapo 24)

A experiência Brasil também deixou outro ensinamento: ter um grupo com capacidade financeira. “Em 2007 disse ao Pedro [Soares dos Santos] e ao Luís Palha ‘quero estar sentado em dinheiro’. Não queria ficar dependente. A crise não é do euro. A crise é que a banca deixou de financiar as empresas. E as empresas estavam todas subcapitalizadas, não tinham dinheiro para o negócio do dia-a-dia. A maior parte das empresas deslocavam os cash flows que recebiam para jogar na bolsa. Ora na bolsa jogam vocês, não joga a sua empresa. Nós, só em 2011, perdemos 22 fornecedores – por falta de apoio bancário”, recordou. Em abril de 2012, a JM fechou com a CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal um acordo que permitiu aos fornecedores receber 50 dias mais cedo do habitual, garantindo a cerca de 700 produtores que durante 12 meses serão pagos a 10 dias pela distribuidora, medida que terá tido um impacto de 80 a 100 milhões no capital circulante do grupo, foi noticiado na altura.

Em novembro de 2013 deixou a presidência do conselho de administração do grupo “por razões pessoais”. Tinha 79 anos, dos quais 56 a trabalhar no grupo. “É minha convicção absoluta que, nas atuais circunstâncias de experiência e de maturidade de Jerónimo Martins, o esforço permanente que o exercício do cargo de presidente do conselho de administração exige de mim deixou de justificar-se”, disse na despedida.

“Está na hora de dedicar-me aos demais projetos que me ocupam, nomeadamente a presidência do conselho de administração da sociedade Francisco Manuel dos Santos e a Fundação Francisco Manuel dos Santos, com a confiança de quem sabe que deixa entregue a principal obra da sua vida”, justificou citado pela Lusa. Desde 2009, que o filho Pedro Soares dos Santos era administador-delegado do grupo.

Antes de sair ainda houve tempo de ver a JM adicionar mais um carimbo no passaporte: Colômbia, onde já têm mais de 500 lojas Ara e gera receitas de mais de 599 milhões de euros, segundo as contas de 2018. Mas nunca deixou de lançar novos desafios. “Se a Colômbia for um sucesso razoável, não tenha dúvida que a seguir entramos no México”, disse, ainda antes de sair de funções, em entrevista ao Expresso. A geografia ainda não se concretizou, mas anos depois, o gestor voltou a traçar ambições para novas internacionalizações e deixou uma certeza. “A minha família não vende, a minha família está em Portugal, queremos crescer, mas crescer no mundo”, disse o gestor o ano passado, citado pelo Dinheiro Vivo. “Vamos expandir nos próximos dois, três anos para outros lugares.”

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