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Na Bial a investigação faz-se em dez línguas diferentes

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Com mais de 1300 patentes submetidas, a farmacêutica está apostada em acelerar o desenvolvimento com mais equipas e mais projetos em simultâneo. Investe 50 milhões de euros ao ano

Riccardo Camisasca é italiano e trabalhou em alguns dos gigantes da farmacêutica mundial, da Glaxo à Novartis. Passou pela Takeda, viveu em Milão, foi para Londres, viveu em Basileia e regressou, mais tarde, novamente a Londres, mas é no Porto que está, desde novembro de 2017, a liderar o departamento de desenvolvimento da Bial. Trouxe a família e até já cá compraram casa. E não têm intenção de ir embora. “Tem sido uma experiência fantástica”, garante o médico, especializado em farmacologia clínica e endocrinologia.

Camisasca é apenas um dos exemplos das mais de duas dezenas de investigadores estrangeiros que trabalham nas instalações da farmacêutica portuguesa. Com sede na Trofa, a Bial conta com filiais em nove países, entre os quais Alemanha, Reino Unido, Suíça, Angola, Moçambique e Panamá. E no seu centro de investigação e desenvolvimento há dez nacionalidades distintas representadas: Brasil, República Checa, Espanha, França, Reino Unido, Hungria, Itália, Rússia, Sérvia e Portugal, claro.

No total, o grupo Bial conta com quase mil trabalhadores, dos quais 105 investigadores que trabalham no renovado e ampliado centro de investigação e desenvolvimento, cuja expansão, de 1500 para 3700 metros quadrados, implicou um investimento de cinco milhões de euros. Determinantes para dotar a empresa da capacidade para duplicar os projetos de investigação em curso em simultâneo, reforçando, também, a sua equipa. Segue-se, a partir de 2019, um investimento de 12 milhões destinados à expansão e automação da sua unidade produtiva. “Um medicamento leva, em média, 10 a 12 anos de desenvolvimento antes de chegar ao mercado. Em cada seis ou sete mil moléculas que desenvolvemos, só uma chega ao mercado. E, por isso, quando fazemos planos temos de os fazer a longo prazo. Preparamos o centro de investigação, agora temos de preparar a unidade industrial para o crescimento que temos pela frente nos próximos 10 a 15 anos”, explica António Portela.

E porque o desenvolvimento de uma nova molécula custa “centenas de milhões de euros”, é vital que a empresa, que está presente em 58 países, continue a crescer, preferencialmente a dois dígitos ao ano, de acordo com a meta estabelecida, para poder suportar os custos de investigação. “Precisamos de ter capacidade de fôlego para podermos ter investimentos desta ordem de grandeza”, reconhece. Em 2017, a Bial faturou 272 milhões de euros. Neste ano “vai crescer”, mas não é ainda claro quanto. “Ainda podem acontecer algumas coisas importantes até ao final do ano”, refere António Portela, sem entrar em pormenores.

“Aquilo que tem permitido à Bial crescer, internacionalizar-se e diferenciar-se no mercado é a investigação e desenvolvimento, fundamental para a descoberta de novos medicamentos”, diz o CEO do grupo. Não admira, por isso, que a farmacêutica portuguesa invista, em média, cerca de 50 milhões de euros ao ano nesta área. “As grandes farmacêuticas afetam, em média, 15% a 16% do seu volume de negócios à I&D. Pela nossa dimensão, temos dedicado mais de 20% nos últimos seis ou sete anos. Somos mais pequenos, temos de investir mais se quisermos apanhar o comboio.” E esta é uma aposta para manter.

Com mais de 12 mil moléculas sintetizadas e mais de 1300 patentes submetidas, a Bial conseguiu, em 25 anos, fazer chegar ao mercado dois medicamentos, o Zebinix e o Ongentys, o primeiro contra a epilepsia e o segundo para a doença de Parkinson. No pipeline tem, agora, seis projetos em curso, mas o objetivo é reforçar os seus quadros para que possa ter equipas dedicadas a trabalhar, em simultâneo, em 10 a 12 projetos. “O desenvolvimento de um novo medicamento é uma área muito difícil, com muito risco. Quanto mais projetos tivermos em simultâneo mais oneroso é o processo, mas menor é o risco”, justifica António Portela. A aposta é na área das neurociências, tirando partido do know how adquirido nos últimos 25 anos. Tudo indica que o próximo medicamento da Bial a chegar ao mercado, lá para 2021 ou 2022, seja para combater a hipertensão pulmonar arterial.

E embora Portugal não seja um país com tradição farmacêutica, o caminho trilhado pela Bial tem-lhe permitido conseguir recrutar investigadores para algumas posições mais seniores no exterior. Quer portugueses que foram para fora estudar e por lá ficaram, mas que aceitam o desafio de integrar os quadros de I&D da farmacêutica portuguesa, quer de elementos que fizeram carreira em algumas das principais multinacionais do setor e que veem na modesta dimensão da Bial uma vantagem. É o caso de Riccardo Camisasca, que destaca o ambiente do país, o clima, a segurança, as boas escolas e, claro, o potencial de evolução numa empresa como a Bial. “Foi a oportunidade de me juntar a uma equipa em crescimento numa empresa que é já grande o suficiente para ser sólida. Ao contrário das grandes farmacêuticas, cada vez mais gigantes, que quase se limitam a gerir dinheiro, numa empresa como a Bial temos o potencial para desenvolver um componente de princípio ao fim”, explica. O diretor do departamento de desenvolvimento é perentório: “A decisão foi fácil de tomar e viemos para ficar.”

É também o caso da espanhola Jessica Baiget, licenciada em química terapêutica, que estudou na Escócia e na Austrália, trabalhou para a Glaxo, em Madrid, e para uma empresa de agroquímica em Manchester, mas que nem pensou duas vezes quando viu o anúncio da Bial. “Queria regressar à área farmacêutica e este projeto dá-me esse potencial de desenvolvimento da minha carreira enquanto investigadora.” Sendo de Barcelona, a localização ajudou. “Estou mais próxima de casa e o clima é bem melhor no Porto do que em Manchester”, graceja.

Já a portuguesa Andreia Guimarães é hoje gestora sénior de ensaios clínicos na Bial, o que lhe permitiu regressar a casa depois de ter estudado e trabalhado em Inglaterra e na Bélgica na Roche e na Pfizer. “Estava fora há 10 anos e nunca tinha trabalhado cá. Concorri à posição porque achei que seria interessante poder fazer ensaios clínicos em Portugal.”

Inovação: “A maior parte do que fazemos vai para o lixo”
A Bial foi recentemente distinguida com o Prémio Bartolomeu de Gusmão, na categoria Inovação Tecnológica. António Portela salienta o “orgulho” da equipa, sublinhando que os prémios são sempre “muito bem recebidos”. “Estas são áreas muito difíceis, de muito trabalho e investimento. Não só o desenvolvimento de um medicamento leva 10 a 12 anos como a maior parte do que fazemos vai para o lixo. A persistência, o nível de resiliência tem de ser muito grande”, salienta. Mas mais importante do que os prémios são os testemunhos que recebem de médicos, doentes e cuidadores e que partilham internamente. “Para que tenham noção de que o que estão a fazer na bancada vai ter efeito na vida das pessoas. É isso que nos dá força para continuarmos.”

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