OPV

“Não houve capacidade negocial da Sonae com os Investidores Institucionais”

Paulo Azevedo, co-presidente executivo da Sonae. Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens
Paulo Azevedo, co-presidente executivo da Sonae. Fotografia: Pedro Granadeiro/Global Imagens

Albino Oliveira (Patris), Carla Maia Santos (XTB), Pedro Lino (DifBroker) e Rui Bárbara (Banco Carregosa) comentam cancelamento da OPV da Sonae MC.

A Oferta Pública de Venda (OPV) da Sonae MC foi cancelada pelo grupo de Paulo Azevedo, após condições adversas nos mercados internacionais terem ditado, falha da colocação junto a investidores institucionais, condição para o avanço da operação que ia colocar em Bolsa uma posição minoritária da empresa dona do Continente e da Well’s.

Albino Oliveira (Patris), Carla Maia Santos (XTB), Pedro Lino (DifBroker) e Rui Bárbara (Banco Carregosa) comentam cancelamento da dispersão em Bolsa.

Sonae falhou a colocou junto a investidores institucionais da OPV invocando condições adversas nos mercados internacionais, situação que ditou o fim da operação. Como comenta?

Albino Oliveira (Patris). “É uma situação normal quando existe uma rápida deterioração das condições de mercado, provocando um aumento da aversão ao risco por parte dos investidores e, consequentemente, uma redução no interesse pela operação.”


Carla Maia Santos (XTB)
. “Esta é uma situação completamente inesperada. Nunca se pensou que uma empresa com este peso na economia portuguesa pudesse voltar atrás na OPV, por não conseguir vender a sua operação a institucionais. Aquando o início da OPV, a situação económica já era controversa com a guerra comercial entre os EUA e os seus parceiros comerciais, a questão sobre a aprovação do orçamento e défice de Itália e a instabilidade dos mercados emergentes. Claro que houve um sell off nos mercados, esta quarta-feira, com a perda de apetite pelo risco por parte dos investidores e transferência de capitais de investimentos arriscados para investimentos menos arriscados como obrigações. Mas parece-me exagerado justificar esta saída da OPV por este crash, uma vez que pode ter sido uma correção normal do mercado e ainda não se pode dizer que se deu início a um bear market. O que me parece é que não houve grande capacidade negocial por parte da Sonae com os Investidores Institucionais.”

Pedro Lino (DifBroker). “Este cancelamento demonstra que a volatilidade dos mercados afeta cada vez mais as decisões dos investidores, quer sejam institucionais ou não. Ou seja, independentemente do horizonte temporal do investimento, ficou claro que mesmo ao preço mínimo os institucionais viam algum risco na operação.”

Rui Bárbara (Banco Carregosa). “É uma decisão compreensível. Para quem conhece o grupo, e tem interesse em estar investido, é mais interessante ter Sonae, que está a desconto, do que Modelo Continente que ia ser vendida sem desconto e muito próxima do seu real valor. Para os investidores estrangeiros, a Sonae MC é uma empresa pequena, de nicho, ligada à dinâmica interna da economia portuguesa. Só os que acreditarem no sul da Europa poderiam estar interessados em comprar. Numa semana em que a Sonae ia fazer o seu marketing lá fora, os fundos internacionais estavam mais preocupados com outros IPO, maiores que o da Sonae MC, ou com a quedas das bolsas que lhes estavam a desfazer as carteiras…”

Era uma operação há muito aguardada, com cronograma conhecido há uma semana. Foi a melhor altura para avançar?

Albino Oliveira (Patris). “O ano de 2018 estava já a revelar-se difícil para os ativos de risco. De qualquer forma, a situação em Itália e a rápida queda dos índices de ações nos EUA conduziram a uma brusca deterioração das condições nos mercados financeiros.”

Carla Maia Santos (XTB). “Os mercados acionistas norte-americanos mantêm-se a negociar em máximos históricos mesmo com a correção de quarta-feira. O mercado europeu negoceia de uma forma mais lateral ao longo deste ano, mesmo assim sempre em topos. Apesar de se continuar a questionar quando termina esta fase expansionista e de confiança do investidor alta, a realidade é que o crescimento continua robusto. Portanto parecia-me uma boa altura para entrar.”

Pedro Lino (DifBroker). “A volatilidade dos mercados, tal como aconteceu no primeiro trimestre deste ano, é difícil de prever e era uma altera interessante para avançar uma vez que, principalmente os mercados americanos, continuavam bastante sustentados.”

Rui Bárbara (Banco Carregosa). “Já tínhamos dito que houve, este ano, alturas melhores para avançar, mas esse é um risco de que não se pode culpar a Sonae. Um IPO demora muito tempo a preparar e nem sempre é possível prever tudo…”

O que está a determinar estas condições adversas de mercado?

Albino Oliveira (Patris). “Provavelmente a rápida subida das yields do Tesouro dos EUA. Yields mais elevadas não têm necessariamente de ter um impacto no mercado. Contudo, a rapidez do movimento poderá ter sido determinante para provocar uma reação adversa por parte dos índices de ações.”

Carla Maia Santos (XTB). “A subida das yields das obrigações a 10 anos norte-americanas despoletou este sell off no mercado acionista. Com esta queda brusca aumentou a volatilidade, levando a que os gestores de fundos e modelos automáticos de negociação fossem ‘obrigados’ a vender, aumentando o tamanho da queda dos índices acionistas. Ao subirem as yields há também uma transferência de investimento de ativos de risco, ou seja, ações para obrigações, consideradas menos arriscadas e agora com uma rentabilidade mais elevada. Esta queda fortíssima de quarta, faz lembrar as quedas dos mercados de fevereiro e coloca muito boas empresas a preço de saldo. O mercado norte-americano tem registado uma estratégia vencedora, que é ‘buy the dip’, comprar na queda.”

Pedro Lino (DifBroker). “A subida dos mercados americanos e sobrevalorização de alguns sectores, como o tecnológico ditou esta correção abrupta. No entanto, existem outros fatores que geram incerteza junto dos investidores, como sejam a guerra comercial entre EUA e Europa e a China, o braço de ferro entre a Itália e a Comissão Europeia, a crise nos mercados emergentes e o abrandamento da economia europeia.”

Rui Bárbara (Banco Carregosa). “Há muitos fatores que se podem apresentar como causas da queda, mas podem ser apenas pretextos para justificar as quedas. O que aconteceu foi que nos EUA as taxas de juro no mercado secundário, numa semana, passaram dos 3% para os 3,25% e os investidores acharam que a subida de juros passou a ser mais rápida. Além disso, muitas empresas têm vivido das taxas de juro próximas de zero, quer pelo financiamento, quer pela remuneração ao investidor, que fica sem outras alternativas ao investimento na bolsa.”

Que impacto esta OPV falhada pode ter no grupo?

Albino Oliveira (Patris). “A evolução das condições de negócio do grupo manter-se-á determinante para a evolução da cotação, assim como o sentimento dos investidores na procura de ativos de risco a nível global. A concretização da operação era importante, não só pelo encaixe que permitiria, mas principalmente ao permitir aumentar a visibilidade quanto ao valor de uma parte importante do grupo Sonae. De qualquer forma, a Sonae poderá sempre decidir no futuro avançar novamente com a operação.”

Carla Maia Santos (XTB). “Com o cancelamento da OPV os investidores que já tinham reservado o capital para investir na Sonae MC, estão a transferir o capital para a Sonae Capital e Sonae SGPS levando a cotação destas empresas da marca Sonae a reagirem em alta.”

Pedro Lino (DifBroker). “Tem um impacto de o grupo não se conseguir financiar através da venda de ativos, e terá, eventualmente, de recorrer a financiamento bancário.”

Rui Bárbara (Banco Carregosa). “Em termos de valor não muda nada, mas acaba por deixar de existir um catalisador que viria revelar o valor que a Sonae acredita ter e que o mercado não lhe reconheceu até agora.”

Um regresso com o intervalo de preço e termos já anunciados faz sentido?

Albino Oliveira (Patris). “Depende do momento que será escolhido para a Sonae regressar com a operação, assim como das condições de mercado, sentimento dos investidores face aos ativos de risco e evolução do negócio operacional da Sonae MC ao longo dos próximos meses.”

Carla Maia Santos (XTB). “Depois deste cancelamento, não me parece que a Sonae volte a anunciar uma OPV tão depressa. Os intervalos de preço terão que ser reajustados aquando entrada novamente em bolsa, face à situação económica do momento e dependendo do valor a dispersar em bolsa.”

Pedro Lino (DifBroker). “Apenas fará sentido quando a apetência dos investidores regressar. Não estou a ver possível até fim do ano.”

Rui Bárbara (Banco Carregosa). “Se o objetivo da Sonae for o mesmo (revelar que o valor da casa mãe não reflete o valor das partes), sim.”

(notícia atualizada às 18h02 com comentário de Albino Oliveira da Patris)

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