Nasce em Portugal sistema inovador para evitar acidentes de comboio

Critical Software desenvolve sistema de segurança para veículos de manutenção de linha e tecnologia para que os comboios nacionais convivam com a nova sinalização europeia.

Um sistema automático de segurança teria evitado que um veículo de manutenção da linha fosse abalroado por um Alfa Pendular a 190 km/hora, em Soure, no dia 31 de julho deste ano. É a partir da Critical Software, em Taveiro (Coimbra), que está a ser desenvolvida tecnologia para que acidentes como este dificilmente se repitam. Também neste local está a nascer um sistema que permitirá aos comboios nacionais conviver com a nova sinalização.

Mais de 1500 dos 2562 quilómetros da rede ferroviária nacional estão cobertos pelo sistema de controlo automático de velocidade, o Convel. Chegou a Portugal no início dos anos 1990 e protege os maquinistas do excesso de velocidade nos troços ou mesmo da ultrapassagem de sinais vermelhos.

Uma das soluções que a Critical Software está a desenvolver permite que este sistema também passe a funcionar nas mais de 50 máquinas de manutenção ao serviço da Infraestruturas de Portugal (IP). Será uma tecnologia mais simples do que a instalada dos comboios de passageiros e de mercadorias.

Este sistema suplementar de segurança "terá uma ação binária", ou seja, só funciona com sinal para avançar ou para frenar, explica ao Dinheiro Vivo o engenheiro principal da Critical Software, Luís Galo.

Vai ser instalado um equipamento eletrónico dentro dos veículos da IP, que inclui uma antena que emite constantemente ondas eletromagnéticas e está em contacto com as balizas, posicionadas no meio dos carris ao pé dos sinais.

"Mesmo que o maquinista não se aperceba de que há um sinal fechado o sistema vai ter capacidade de entender isso automaticamente e acionar imediatamente a frenagem de emergência." Entre 2010 e 2017, houve 15 situações de ultrapassagem do sinal vermelho por parte destas máquinas de manutenção.

A IP ainda não sabe quando é que poderá fechar o contrato e iniciar os ensaios na linha, que irão durar 12 meses. Até lá, estes veículos só poderão circular mediante a passagem de um sinal verde e de uma confirmação por telefone junto dos centros de controlo de operações da empresa.
Ligar Portugal à Europa

O sistema Convel instalado a bordo dos comboios, contudo, está a chegar ao final do período de vida útil. Ao fim de 30 anos, os novos comboios que vão ser comprados pela CP e pela empresa de mercadorias Medway terão de ser equipados com o sistema europeu de controlo e de sinalização (ETCS).

A Critical Software, por isso, também está a desenvolver uma solução transitória (Convel STM), que permitirá aos novos comboios funcionarem com o sistema Convel e o sistema ETCS, a ser instalado ao longo dos próximos 15 anos na rede ferroviária nacional.

O Convel STM também terá de ser instalado nos comboios que já circulam em Portugal. "Será necessário arrancar todo o equipamento Convel instalado no comboio, colocar um computador ETCS e toda a eletrónica necessária para este poder operar." Sem este sistema de transmissão da Critical Software, o computador ETCS fica adormecido porque não consegue interpretar as indicações dadas pelas balizas do Convel.

Nos comboios de passageiros e de mercadorias, este sistema automático não só pode frenar automaticamente o comboio como também adequar a velocidade às restrições da via.

O sistema ETCS permitirá aos comboios de operadores portugueses circularem nas linhas ferroviárias espanholas (partilham a bitola) sem terem de instalar um sistema de controlo de segurança local, como acontecia até agora.

Para já, o Convel STM só serve para o mercado português. Mas a tecnológica admite que a solução "poderá servir para outros mercados, como maiores ou menos modificações". Dentro de dois ou três anos, este poderá começar a ser instalado em todos os comboios.

Há um total de 35 pessoas ligadas ao desenvolvimento dos sistemas. Até membros da equipa da aeronáutica da empresa foram chamados para garantir que os comboios não saem dos carris certos.

Laboratórios testam tecnologia

Os laboratórios da Critical Software de Lisboa, Porto e Taveiro permitem à tecnológica desenvolver sistemas fundamentais para garantir a segurança dos meios de transporte.

Sobre as mesas, podemos encontrar bancadas de testes para a caixa negra dos comboios, que poderão ser automatizadas. De cor laranja, como nos aviões, estão instaladas nas carruagens e locomotivas.

Também é possível simular a cabine de um maquinista de um comboio da Bombardier, que chega a usar dois monitores para poder controlar todos os parâmetros do veículo em tempo real.

Ainda na área da ferrovia, a Critical Software está a ajudar os espanhóis da CAF a desenharem os comboios que serão fornecidos para os caminhos-de-ferro franceses nos próximos anos.

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