Negócio da Farfetch deu lucro pela primeira vez no último trimestre de 2020

Plataforma de moda de luxo de José Neves registou resultados operacionais positivos entre outubro e dezembro. Prejuízos ultrapassaram os 3 mil milhões de dólares, quase tudo por motivos contabilísticos.

O negócio da Farfetch deu lucro pela primeira vez. No último trimestre de 2020, a plataforma de moda de luxo liderada pelo português José Neves conseguiu resultados operacionais positivos. A empresa apresentou esta quinta-feira os resultados anuais, que também revelaram prejuízos recorde, de 3,3 mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros) sobretudo por motivos contabilísticos.

No trimestre do Natal e da Black Friday, a Farfetch conseguiu que o negócio gerasse receitas superiores aos gastos de 10,376 milhões de dólares, o que compara com as perdas de 17,926 milhões de dólares registadas no último trimestre de 2019. O indicador operacional de referência, a margem de EBITDA, foi de 2,2% no quarto trimestre, o que compara com os 5,3% negativos do mesmo período de 2019.

"Ultrapassámos as nossas expectativas iniciais para este ano; acelerámos o crescimento na nossa plataforma digital, melhorámos as nossas margens operacionais em todas as áreas de negócio e conseguimos entregar fortes encaixes operacionais", destaca o responsável financeira da Farfetch, Elliot Jordan, citado no comunicado de apresentação de resultados.

A empresa já tinha indicado, em novembro, que poderia apresentar lucros operacionais no último trimestre de 2020.

Só no último trimestre, o valor bruto das mercadorias disponíveis na plataforma da Farfetch ultrapassou os mil milhões de dólares (1,056 mil milhões), o que correspondeu a um crescimento de 42,9% face a 2019. Em termos anuais, os produtos à venda na plataforma valeram mais de 3,1 mil milhões de dólares, um aumento de 47,6% face a todo o ano anterior.

A Farfetch terminou 2020 com receitas de 1,67 mil milhões de dólares. Com o crescimento de 63,7% face a 2019, a empresa superou ligeiramente as estimativas dos analistas, que antecipavam um encaixe de 1,65 mil milhões de dólares com as peças disponibilizadas na internet por mais de 3500 marcas.

Explicação para os prejuízos

A empresa registou os maiores prejuízos de sempre, no valor de 3,3 mil milhões de dólares, praticamente 10 vezes mais do que os 373,7 milhões de dólares de perdas de todo o ano de 2019. Mas os resultados negativos são sobretudo contabilísticos, segundo o responsável financeira da Farfetch.

"O prejuízo reflete o impacto não monetário das obrigações convertíveis (convertible notes). Em 2020, a Farfetch obteve um financiamento de 1,2 mil milhões de dólares a taxas de juros baixas ou inexistentes, através de obrigações convertíveis. Este financiamento permitiu-nos investir no negócio e executar a nossa visão para a plataforma. Como acontece com qualquer operação de financiamento, fizemos uma avaliação do retorno do investimento e acreditamos que o valor criado por esses investimentos para os acionistas excede em muito o custo para o negócio", justifica Elliot Jordan.

Estas obrigações tiveram um peso ainda maior nas contas da tecnológica por causa da forte subida das ações: no início do ano, valiam pouco mais de 11 dólares; terminaram o ano cotadas perto dos 64 dólares. A nível contabilístico, a subida dos títulos da Farfetch teve um impacto de 2,35 mil milhões de dólares, contribuindo fortemente para os prejuízos anuais.

"À medida que a avaliação de mercado da empresa aumenta, também aumenta o valor das obrigações e o custo a elas associado, ainda que numa fração reduzida comparativamente com a valorização no mercado. O contrário seria igualmente verdade - uma desvalorização do valor das ações representaria uma redução do valor das obrigações convertíveis", acrescenta o mesmo responsável.

A forte subida da Farfetch na bolsa também levou ao forte crescimento dos custos dos pagamentos baseados em ações, que passaram dos 158,4 para 291,6 milhões de dólares. Desde há vários anos que uma percentagem do salário dos mais de 5000 funcionários da Farfetch corresponde a ações da empresa.

Com a ajuda do financiamento privado, a empresa terminou 2020 com um total de 1,573 mil milhões de dólares de tesouraria, o que compara com os 322,4 milhões de dólares que estavam nos cofres da empresa no final de 2019.

Mais 282 mil clientes

No último trimestre do ano, a Farfetch ganhou 282 mil clientes face aos três meses anteriores. No total, já há mais de 3 milhões de pessoas que compraram produtos na plataforma. Ainda assim, este ganho de clientes foi inferior ao registado entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020: no primeiro confinamento, houve perto de 500 mil pessoas que se juntaram à plataforma.

Em média, cada consumidor gastou 626 dólares por encomenda entre outubro e dezembro, menos 10 dólares do que no quarto trimestre de 2019. Isto deve-se a uma "maior percentagem de vendas com menos items por encomenda, o que foi parcialmente compensado por um maior preço por unidade".

Previsões positivas para 2021

A Farfetch pretende que o negócio dê lucro em todo o ano de 2021, com uma margem de EBITDA entre 1% e 2%, reafirmando o objetivo estabelecido em anos anteriores. O valor bruto dos bens à venda deverá variar entre 3,6 e os 3,7 mil milhões de dólares, correspondendo a um ganho de 30% a 35% face a 2020.

Estas perspetivas, no entanto, têm de ser analisadas com precaução. O coronavírus poderá provocar problemas nas operações e no envio de encomendas; reduzir o inventário de marcas e retalhistas, além de diminuir a confiança dos consumidores.

O brexit também pode ter impacto por causa do aumento de custos de envio de produtos de e para o Reino Unido.

(Notícia atualizada pela última vez às 22h25 com mais informação)

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