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Novas greves na Ryanair podem avançar ainda no verão 

Ryanair CEO Michael O'Leary REUTERS/Yves Herman
Ryanair CEO Michael O'Leary REUTERS/Yves Herman

Novas greves deverão acontecer ainda no verão se Ryanair não atender às exigências sindicais.

O braço de ferro entre a Ryanair e os trabalhadores está para durar. A greve europeia que paralisa esta quarta e quinta-feira, 25 e 26, os tripulantes de cabine de Portugal, Espanha, Itália e Bélgica pode ser apenas a ponta do iceberg. A garantia é dada pelo Sindicato Nacional Do Pessoal De Voo Da Aviação Civil (SNPVAC) que adianta que já estão estipuladas novas datas de protesto. “Vamos avançar com mais greves se a Ryanair não mudar a sua atitude. Já estão definidas as datas de novas greves mas ainda não podemos divulgar. Vão realizar-se ainda no período de verão” revela ao Dinheiro Vivo Bruno Fialho, representante da estrutura sindical.

Esta quarta-feira decorre o primeiro de dois dias de greve europeia conjunta que tem como mote a exigência de melhores condições de trabalho e o reconhecimento das leis nacionais de cada país, em detrimento da lei irlandesa. “No fundo, aquilo que se pede não é nada de extraordinário, são três coisas essenciais. É o reconhecimento da lei, é começar negociações para um acordo de empresa e que os tripulantes que operam para a Ryanair, Crewlink e Workforce, tenham todos os mesmos direitos”, explicou ao Dinheiro Vivo a presidente do SNPVAC, Luciana Passo.

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Em Portugal, a adesão ao protesto é de 80%, segundo dados avançados ao longo da manhã pela estrutura sindical. “Este número poderá aumentar. Para amanhã as perspetivas de adesão são mais elevadas porque o medo dos poucos que não aderem à greve acaba por desfasar-se no segundo dia. Congratulamo-nos porque os tripulantes de cabine da Ryanair conseguiram lutar contra as ameaças que têm sido perpetuadas pelo Michael O’Leary (presidente-executivo da Ryanair). Mostraram uma grande força interior ao fazer a greve hoje e amanhã. Estão de parabéns”, refere Bruno Fialho.

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A transportadora irlandesa enviou nos últimos dias cartas aos tripulantes nas quais refere que serão tomadas medidas, como despedimento e o não-pagamento de bónus, caso os trabalhadores não trabalhem nos dias 25 e 26, incluindo os que estão de folga. “Infelizmente, numa altura delicada como esta, os nossos passageiros estão em primeiro lugar e precisamos de nos certificar de que temos tripulação suficiente para cobrir as escalas. O não cumprimento destas obrigações levará a medidas disciplinares, incluindo despedimento e o não-pagamento de bónus salariais”, ameaça a transportada no documento a que o Dinheiro Vivo teve acesso.

 

“É lamentável que no século XXI ainda existam empregadores que utilizem esse tipo de abusos. Estas cartas foram enviadas também a tripulantes portugueses, a ameaçar despedimentos caso faltem dia 25 e 26 ao trabalho e caso não aceitem trabalhar no dia de folga. Caso recusem serão alvo de despedimentos. Esta atitude já não nos surpreende mas causa perplexidade. Como é que em Portugal ainda se deixa uma empresa estar a trabalhar desta forma, sem cumprir a legislação nacional, a constituição contra todas as regras do bom senso?”, questiona o representante da SNPVAC.

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A Ryanair definiu a greve como “desnecessária”, e publicou ontem uma lista de factos sobre as condições laborais dos seus trabalhadores. A empresa alega, entre vários fatores, que paga um salário que pode chegar aos 40 mil euros anuais, por cada cinco dias a trabalhar os tripulantes têm três de folga, e regalias várias como elevados bónus e subsídio de doença. Foram também divulgados recibos de vencimento dos tripulantes de vários países.

salarios ryanair“Estes recibos de vencimento são falsos. E mesmo que fossem verdadeiros, nem que fossem recibos de 10 mil euros, nada compra a dignidade humana. Estamos no ponto que a Ryanair não compreende que é a dignidade humana. Os recibos são completamente desfasados da realidade. A Ryanair joga sujo, joga desta forma com mentiras, abusos, ameaças e medo”, acusa Bruno Fialho. O sindicalista explica ao Dinheiro Vivo que há trabalhadores que recebem valores inferiores ao salário mínimo nacional. “A Ryanair não paga salário base a muitos dos tripulantes. Existem tripulantes que chegam a ganhar 300 ou 400 euros. Se não voarem não ganham nada. Gostaria que a Ryanair tivesse publicado esses recibos de 300 euros. Nos meses de inverno, em Faro, há tripulantes a receber entre 400 e 800 euros, dependendo do número de voos que operem”.

Cancelamentos em Portugal

A companhia irlandesa prevê o cancelamento de 50 voos de e para Portugal por dia. A nível europeu, serão cancelados, por dia, até 300 dos 2400 voos que estavam previstos para estes dois dias. Portugal é o segundo país mais afetado por esta paralisação.

“Estes cancelamentos, que lamentamos profundamente, irão afetar aproximadamente 12% dos passageiros que iriam viajar com a Ryanair na quarta e quinta-feira da próxima semana, podendo estes passageiros remarcar ou solicitar voos alternativos num intervalo de 7 dias antes/após os dias 25 e 26”, referiu a companhia irlandesa em nota enviada às redações.

Leia também: Ryanair continua a não cumprir leis nacionais e ignora greve europeia

Esta manhã o SNPVAC confirmou o cancelamento de 50% dos voos da Ryanair com partida e chegada aos aeroportos do continente.

Em abril, os tripulantes da transportadora aérea irlandesa com base em Portugal realizaram um primeiro protesto que resultou numa greve de três dias não consecutivos. Nesta altura, a empresa liderada por Michael O’Leary substituiu os tripulantes grevistas por trabalhadores de outras bases. O SNPVAC não acredita que esta atitude se repita por estes dias. “A Europa toda está em greve, não há tripulantes. Em Itália estão completamente parados na pista. É uma situação transversal e eles não têm aonde ir buscar pessoal”, garante Bruno Fialho.

Tripulantes de cabine da Ryanair na Bélgica

Recentemente, Kenny Jacobs, responsável de marketing da Ryanair, afirmou ao Dinheiro Vivo que a companhia irlandesa tem abertura para negociar com os sindicatos, mas impõe restrições. “Queremos reconhecer um sindicato em Portugal. Não há obstáculos em relação a isso. Mas não queremos estar com pessoas do sindicato que pertençam a outras companhias. Não fizemos isso noutros países. Só aceitamos dialogar com trabalhadores da Ryanair”, disse.

Em Portugal não há membros da Ryanair na direção do SNPVAC, situação que tem impedido as conversações entre as partes. O SNPVAC já lamentou por diversas vezes a situação , afirmando que esteve sempre disponível para chegar a um acordo.

“Apelo ao Governo português que interfira rapidamente e coloque um ponto final a este clima de ameaças e desrespeito pela constituição portuguesa”, acrescenta Bruno Fialho.

Ryanair reduz frota em Dublin e ameaça 300 postos de trabalho

A empresa de aviação anunciou esta manhã a redução de 20% da sua frota em Dublin, Irlanda, ameaçando 300 postos de trabalho, relacionando a medida com a queda das reservas e à greve dos pilotos no país, divulgou a Lusa.

A companhia, de preços de baixos custos, indica que a medida foi já comunicada à bolsa de Londres. O grupo acrescenta que vai dar prioridade às atividades na Polónia.

Em Dublin, a Ryanair vai passar assim a dispor de 24 aparelhos sendo que atualmente tem 30 aviões na capital irlandesa. A medida põe em causa os postos de trabalho de 100 pilotos e de 200 elementos do pessoal de cabine.

“Ainda não temos a confirmação oficial desta informação mas tudo é possível. Mais uma vez se constata a forma de trabalhar da Ryanair: as pessoas ou são despedidas ou são escravizadas”, comentou ao Dinheiro Vivo Bruno Fialho, do Sindicato Nacional Do Pessoal De Voo Da Aviação Civil (SNPVAC).

Sobre a possibilidade de a transportadora low-cost vir a tomar semelhante atitude em Portugal, o sindicalista é apreensivo. “Se acontecer em Portugal e no resto da Europa a Ryanair fecha, por isso não sei como é que isso vai ser possível. Em termos económicos e financeiros não sei como é que a empresa vai sobreviver”, conclui.

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