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O encontro do mês: Jorge Brito Pereira, o presidente da Zon Optimus e ainda…

Jorge Brito Pereira
Jorge Brito Pereira

Conheço o Jorge Brito Pereira há quase 30 anos. Fomos colegas na faculdade. Ao contrário do que muita gente diz, as pessoas mudam, algumas mudam realmente muito. Não é o caso do presidente do conselho de administração da Zon Optimus. Ele mudou pouco. Como me diz durante o nosso encontro, está mais cínico, mas também não há quem não esteja com mais três décadas em cima.

Leia aqui todos os encontros do mês, por Pedro Marques Lopes

Que o rapaz é fino como um alho ninguém duvida. Um tipo que aos 24 anos escreve um livro com dois outros advogados sobre o excitante (para ele, sem dúvida) tema das ofertas públicas de aquisição e aos 28 é chamado a dar um parecer sobre a que poderia ter sido a maior fusão bancária em Portugal (BPI/BES) não terá sido propriamente abandonado na altura em que a inteligência foi distribuída. Também não terá sido por obra e graça do divino Espírito Santo que se tornou um dos mais requisitados advogados de negócios.

Há, porém, algo que o distingue: o Jorge não encaixa numa daquelas gavetas fáceis. Aquelas que nos permitem dizer que alguém é isto ou aquilo. Não era o típico aluno da Católica dos anos 80, vinha do Liceu da Amadora, estava longe de ser um betinho da Católica e não estava nada interessado em passar a ser. Hoje, não tem pinta de professor e, no entanto, dá aulas desde o quinto ano da faculdade; está longe do estereótipo do poderoso advogado de negócios, dos que debitam nomes, dão a entender que sabem muitas coisas e aparecem ao lado de tudo o que é político e grande empresário. Ah, não tem sequer aquele ar senatorial que associamos a um chairman de uma grande companhia. Se eu não conhecesse muitos advogados, diria que esta, digamos, ambiguidade seria própria da profissão. Mas não é verdade.

“Eu não era o típico gajo que ia para um grande escritório logo depois da faculdade. Não venho de uma linhagem de advogados, não fazia parte de uma elite, não conhecia a gente do meio. O único possível seria a PLMJ, que era menos tradicional, mais aberto. E de facto foi para lá que fui e apenas porque uma colega me levou. Acho que o [José Miguel] Júdice gostou logo de mim.” O Jorge aproveita esta história para me dizer algo que irá repetir ao longo do jantar: “As empresas e o país mudaram muito, para melhor. Hoje seria impensável um processo de seleção como o meu. É tudo muito mais profissional. Acompanhamos os melhores alunos das faculdades, testamo-los.”

Outra coisa que mudou muito é o número de advogados especializados em mercados de capitais e empresas. O Jorge apanhou esse barco quando ele ainda não estava propriamente ao largo. Por muito bom que o rapaz fosse, tornar-se, aos 28 anos, um dos cinco advogados a quem foi pedido um parecer sobre a fusão do BPI/BES talvez fosse impossível num mercado mais maduro. “É verdade. Na altura estava a pensar em ir para o estrangeiro… Há algo que talvez fique mal dizer, mas Portugal tem menos competição. Pode ter menos perspetivas, mas se formos bons conseguimos chegar onde queremos mais depressa e com menos concorrência.”

Tendo mais ou menos terreno virgem para desbravar, Jorge Brito Pereira tornou-se um dos maiores advogados da área em Portugal. Já fez mais de 30 fusões relevantes, esteve na privatização do BPN, da REN e doutras tantas que fazem títulos de jornais. Privatizações? Ele? Um tipo que sempre vi como um esquerdalho envolver-se em privatizações, até as mais recentes e polémicas? Será?

“Calma”, diz-me. “Considero-me de esquerda nas questões de costumes. Acho, por exemplo, inacreditável que haja sequer polémica sobre os homossexuais poderem adotar ou casar. Mas quanto menos o Estado se meter na economia, melhor. O Estado deve manter alguns sectores, mas em Portugal ainda está demais.”

É uma posição razoável. “Não nos podemos esquecer que os Descobrimentos não foram de iniciativa privada. O Estado é fundamental, mas funciona mal.” Então se calhar pensa que algumas das privatizações em que esteve envolvido não deviam ter sido feitas, digo eu. “Não senhor”, diz imediatamente, antes que eu me atire para fora de pé. “Aliás, acho que o Estado tem aí dois problemas. O primeiro é interferir indiretamente na atividade económica, mais por entraves burocráticos e legislativos do que por estar diretamente nos mercados. Segundo, se o Estado quer estar, tem de meter dinheiro. O pior é querer mandar sem meter dinheiro.”

Ora, aí estamos de acordo. E o facto de as privatizações serem em muitos casos a favor de estrangeiros, mesmo de Estados estrangeiros, não é um problema? Não há casos de autênticas nacionalizações de empresas portuguesas por Estados estrangeiros? “Eu, como português, prefiro capital estrangeiro. Melhor: quero é que venha capital. Vivemos há muitas gerações com uma profunda escassez de capital.”

Insisto: não é estranho querermos liberalizar a economia e metermos outros Estados nos nossos mercados? “São opções políticas dos outros Estados e do nosso. O dinheiro é dinheiro e é dinheiro. Para Portugal, é extremamente importante que venha. É bom que se note que até os países considerados mais liberais têm fundos soberanos para investir noutros.”

Estava quase a passá-lo da coluna da esquerda para a da direita na minha agenda mental quando me lembrei duma frase que o ouvi dizer num programa de rádio: “De perto ninguém é normal.” É uma frase tirada de uma música do Caetano Veloso, artista que o Jorge venera.

É outra das partes deste personagem que não encaixa na imagem de grande advogado, figurão dos negócios e tudo o mais. Os seus heróis e referências nunca são empresários, políticos, poderosos. Passa por estes nomes com normalidade, mas entusiasma-se com Chico Buarque, Caetano, Muse (não há bela sem senão), escritores, atores, os Smiths (com essa perdoa-se os Muse e os Pink Floyd).

Também conta de passagem pequenas histórias de negócios, embora sem sumo nenhum, e informação é coisa que não lhe falta. Sobre a vez em que conheceu um membro dos Pink Floyd não faltam detalhes, parece que foi ontem. É evidente que prefere usar o tempo a falar de livros, discos, peças, espetáculos – e é isso que faz comigo, de tal maneira que o jantar se revela curto para tudo o que tínhamos para falar e lá fomos beber um copo a outro lado. Quem teve de se levantar cedo para se reunir com uns senhores chineses foi ele, não eu.

A discrição faz parte da sua profissão. “Tenho mesmo de ser discreto. E faço esforço para o ser.” Deve ser um sacrifício horrível para um tipo como ele. “Eh pá, se eu não fizesse aquilo que faço tinha mais de cem blogues e escrevia em todos os jornais.” Pois é, o nosso senador gosta mesmo de dar opiniões, adora discutir. “Quando aceitei ser chairman da Zon Optimus andei três semanas a apagar entradas no meu Facebook. Não é que me arrependesse do que lá escrevi, mas…” Há alguma preocupação com a notoriedade que o cargo lhe pode trazer. Por enquanto, não tem de se preocupar: no restaurante só foi reconhecido por um diretor de jornal que passou por ali; mas, para infelicidade dele, o António Zambujo nem lhe disse boa-noite.

Adiante. Isso de ser chairman não é coisa para um tipo de bengala, com mais de 60 anos? “Pois, pensei que me aconteceria nessa idade. Mas foi agora.” Confesso, digo-lhe à queima–roupa, que achei estranho que o advogado que lutou ao lado da PT contra a OPA da Sonae fosse aceite, até convidado, para presidente do conselho de administração de uma empresa da… Sonae. “Eu achei bom sinal”, diz e tem razão. “Não te esqueças que eu era advogado da Zon – agora já não posso ser – e sou advogado de uma grande acionista, a Isabel dos Santos.” Clientes, este e outros, sobre os quais naturalmente não pode, como advogado, falar. Uma pena, digo eu.

Era, no entanto, capaz de garantir que por esta altura o tipo já percebe umas coisas de telecom. “Tenho estudado feito maluco, mas não foi por isso que fui escolhido, nem me parece que na parte técnica me vá alguma vez atrever a mandar bitaites. Nem é a minha função. Sou o conciliador, conheço bem os principais acionistas. Por outro lado, depois de ter feito tantas fusões, apetecia-me ver como era o depois, o a seguir. Nós, os advogados, ficamos sempre à porta. No fundo, teria de haver uma altura em que eu entraria. Foi agora.”

E em que é que a vida de um advogado se altera quando vai para um cargo destes? “Recebe-se muito mais convites para almoçar…”, diz-me. Seria uma indireta?

O Jorge insiste. “Sou advogado. Ser chairman não altera o que sou, que sempre quis ser e adoro ser: advogado.” E a imagem que há dos advogados de negócios? Lobistas de moral flexível, homens de negócios mais que advogados? “Lobista não sou. Claro que há advogados que o fazem, e é legítimo, mas eu não.”

E, pronto, finalmente lá se abespinhou um bocadinho: “Não vivo bem com tudo o que fiz, mas não faço, nem me lembro de ter feito nada que considere eticamente reprovável.” E tornou-se também um homem de negócios? “Há um mito na minha profissão, pelo menos da forma como eu a exerço: que ajudamos a fazer negócios. Só ajudamos na perspetiva jurídica. Não interferimos. Os nossos serviços são jurídicos. Há algo de que estou certo: quem me escolhe é pelas minhas qualidades como advogado, não por conhecer este ou aquele, por saber desta ou daquela área de negócio.” E nunca lhe apetece dizer nada? “Ui, às vezes apetece, mas só fiz um comentário uma vez – e arrependi–me logo. Por acaso, eu tinha razão.”

Volto aos lóbis. Não me lixem: um tipo que lida com empresas tão grandes, que conhece tanta gente, que passa a vida em encontros com advogados importantes não é solicitado para dar uma palavrinha, abrir uma porta? “Bom, isso não é lóbi, e não é tão comum como se pensa. De toda a forma não é coisa em que pense.” Se o homem diz, está dito. Mas, digo eu, no sector dele há demasiadas coincidências e facilitadores. Admito, porém, talvez menos advogados e muitos mais de outras áreas.

E a fama de que, por exemplo, o escritório dele e outros serem uma espécie de ministério informal de todos os governos? “No nosso caso não é verdade. Aliás, apesar de em Portugal ser praticamente impossível não estar sempre a dar de caras com o Estado, o nosso escritório pouco trabalha com entidades governamentais.”

E a política? “Há boa e má gente.” Pois, e há bons e maus advogados e maus e bons picheleiros. Eu estava mais interessado no “mas”. “Os bem preparados na teoria não percebem nada da prática política, e os da prática não leram o suficiente.” As palavras não foram exatamente estas, mas não me parece que haja quem não perceba. Não me lembro de um advogado do seu nível que não tenha tido experiência direta ou indireta na política. “Hum?” É a resposta; talvez um dia se lembre desta pergunta.

Entretanto, se vir um tipo de meia–idade muito parecido com um dos melhores advogados portugueses a correr uma maratona ou a tocar numa banda ou a fazer um curso de cozinha ou aos saltos num festival de verão, é bem capaz de ser o Jorge Brito Pereira. E se ouvir um tipo igualzinho ao chairman da Zon Optimus e advogado de Isabel dos Santos cantar baixinho um poema de Raul Seixas, é bem provável que seja ele outra vez. Se a estrofe for: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, é mesmo, não engana.

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