"O eucalipto devia ser visto como instrumento para os objetivos de neutralidade carbónica"

Francisco Gomes da Silva é representante da indústria do papel e pede que se olhe a floresta "além da espuma ideológica". Lamenta falta de programas públicos de intervenção e admite que Pedrógão pode repetir-se. "O que há no terreno não é melhor do que o que estava em 2017."

Antigo Secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural no governo de Passos Coelho, Francisco Gomes da Silva é há pouco mais de um ano diretor-geral da CELPA, a Associação da Indústria Papeleira, que tem entre os seus objetivos estimular a investigação científica técnica e tecnológica, bem como a elaboração de estudos económicos relativamente à sua atividade. Engenheiro Agrónomo, tem dividido a atividade profissional entre o ensino universitário, no Instituto Superior de Agronomia, a consultadoria agrícola e florestal e a gestão de empresas.

Na semana passada três jornais dos Açores tiveram que suspender a impressão por falta de papel. É uma situação pontual ou vamos enfrentar escassez de alguns tipos de papel no mercado?
Existe escassez de alguns tipos, sim. O consumo de papel ao longo dos últimos anos tem vindo a diminuir, nomeadamente de impressão e em concreto o de jornal - que não é produzido pelas associadas da Celpa, é todo importado - e isso traduziu-se no fecho de algumas indústrias pelo mundo, diminuição de produção de outras e diversificação de outras, nomeadamente para papel de embalagem, que tem vindo a crescer. Com o lockdown da pandemia, acentuou-se a quebra de procura e encerraram mais máquinas ou indústrias e desde que arrancou a recuperação no pós-pandemia, há uma pressão muito grande da procura de papel. Entre a redução da capacidade instalada à escala mundial - este é um mercado completamente globalizado, a Europa exporta para diversas latitudes relativamente próximas e importa de outras longínquas - e o risco associado às condições de produção que vivemos, nomeadamente pela guerra, não posso dizer que seja puramente conjuntural.

Os custos dispararam.
Já tinham subido muito por causa da logística - esta indústria envolve muita logística, quer no transporte de matéria-prima quer no de produtos acabados. E a isto veio juntar-se o problema dos custos da energia, com tudo o que acarreta de aumento dos preços dos diversos fatores de produção. Em todo o caso, entre as associadas da Celpa, nenhuma empresa reduziu produção, pelo contrário, estão a produzir nos limites da sua capacidade instalada, tendo em conta a matéria-prima.

Há risco de rutura de stocks?
Em teoria poderão existir ruturas. E também no mercado das embalagens, que é um mercado em crescimento, mas as indústrias cresceram, ajustaram-se para esse papel de fabrico de embalagens, portanto, pode acontecer, mas a expectativa é que face a este aumento de procura a indústria venha de novo a ajustar-se. Tudo depende dos desenvolvimentos da guerra na Europa, que tem um conjunto de repercussões que podem levar a ruturas nas cadeias de abastecimento.

Essas ruturas podem passar também pelo acesso à energia... Pode subir o preço ao consumidor?
Tem subido. O aumento do preço da energia que as indústrias enfrentam reflete-se inevitavelmente nos custos de produção e havendo procura acrescida é natural que esse aumento nos fatores de produção se reflita nos preços. Tem havido anúncios de ajustamento de preços de algumas associadas, tendo em conta também o custo da energia. Quanto vai durar esta crise energética, tendo em conta essencialmente a guerra na Ucrânia e as soluções mais ou menos definitivas que se encontrarão para a energia na Europa, em particular na Península Ibérica e em concreto em Portugal, será determinante na rapidez com que se ultrapassará esta fase.

A pasta de papel já aumentou no mercado internacional 210 dólares desde o início do ano e está agora nos 1350 dólares/tonelada. A tendência vai manter-se?
É difícil dizer... Uma das questões que hoje as indústrias enfrentam é a incerteza, não podem sequer contar com ser assim ou ao contrário. Há sempre dois elementos a ter em conta: um é até que ponto a indústria mundial (há fábricas da China aos EUA, passando pela Europa) sentirá o estímulo suficiente para reajustar a oferta, nomeadamente nos segmentos onde se tem verificado mais escassez de papel - e aí cada empresa fala por si, se tem ou não condições de aumentar capacidade; outro são questões associadas à estrutura de custos e que têm muito que ver com logística e energia. A expectativa que temos é que a crise energética na Europa encontre uma via de solução. Ela ainda não existe, por isso continuamos a ter aumentos de preços. No último mês o mix energético subiu cerca de 27% e não podemos dizer se vai agravar-se ou amenizar-se. Para bem de todos, era bom que fosse transitório e conseguíssemos retomar a normalidade.

Ainda assim, o setor da pasta e papel contou em abril com exportações de 306 milhões, um crescimento de 32,8%, segundo o INE. O que contribuiu para isso?
Acontece muito por força do aumento da procura. Os mercados de consumo de papel nos seus diferentes segmentos acordaram no pós-pandemia e estão dinâmicos, a pressão é muito grande e as indústrias respondem ao limite da sua capacidade. No caso das portuguesas, associadas da Celpa, incorporando custos acrescidos. Uma vez que há procura, a exportação faz-se a preços mais elevados. Do valor de aumento que refere, relativamente a abril de 2021, parte significativa tem que ver com aumentos de preços, outra com subida no volume.

Com os custos da energia a pressionar o setor, o consumo de energia da indústria não devia apoiar-se mais no autoconsumo?
E está a acontecer. Temos de ter em conta que cada fábrica é um caso, são estruturas diferentes e têm origens de energia distintas. Em todo o caso, as indústrias da pasta e papel em Portugal produzem, no global um volume de energia suficiente para o que consomem. 70% dessa energia vem de fontes renováveis.

Sobretudo biomassa?
Uma parte da biomassa residual da exploração florestal - das bicadas das árvores sem diâmetro para entrar na máquina do papel - outra por utilização energética de resíduos da transformação, os licores negros, que podem ser queimados com recuperação dos químicos emitidos. É uma indústria com grande grau de circularidade. O consumo de energia produzida quer a partir destas caldeiras de biomassa quer de regimes de cogeração - gás natural em parte - é já muito significativo. Mas há sempre uma componente de energia adquirida na rede, que tem tido as oscilações de preço que sabemos. Uma das vantagens hoje, tendo em conta a capacidade de produção de energia a partir de fontes renováveis que esta indústria já tem no país, é conseguir, com limites, alguma capacidade tampão para que o custo não dispare ainda mais.

Mas está previsto aumentar a capacidade de produção de cogeração além dos 3 TWh?
Há projetos de todas as associadas da Celpa para ampliar a geração de energia de diferentes tipos, desde captação de fotovoltaico em unidades fabris que têm área industrial disponível à volta até caldeiras relativamente recentes com níveis de eficiência maiores. No que é o roteiro que cada empresa tem para a descarbonização, e todas já os apresentaram publicamente, há projetos muito particulares, dado até ser este um segmento onde a questão das emissões é relevante.

Há pressão para substituir parte da floresta de produção por painéis solares?
Tem sido um assunto falado. Os projetos para aumentar a capacidade de produção fotovoltaica são grandes e alguns têm aparecido para serem instalados em áreas de floresta. Isso, do meu ponto de vista, levanta uma questão que devemos enfrentar de forma clara: é importante o aumento de capacidade instalada de energia fotovoltaica para cumprir os objetivos de descarbonização, mas não podemos fazê-lo à conta da área de floresta. A floresta., seja qual for e desde que gerida de forma sustentável, é também um sumidouro de carbono. Não faz sentido prescindir de um sumidouro de carbono para atingir metas de descarbonização. O que eu defendo é que sempre que haja necessidade de aprovar um projeto fotovoltaico em área florestal, o mínimo que se devia exigir era que o promotor compensasse: se tem de retirar 300ha de floresta para instalar painéis e ramais de acesso, compense com 300 ou 400ha. Assim teríamos a energia fotovoltaica, que é um bem em si mesmo, a financiar a expansão da área florestal, que também aumenta o sequestro de CO2. Além disso, a madeira é uma matéria-prima por excelência circular, biodegradável, renovável e reciclável, pelo que teríamos um círculo virtuoso.

Mas compensar financeiramente ou por replantação?
Por replantação. Não significa que não haja projetos financeiramente louváveis, que compensem, que financiem floresta algures numa zona da Amazónia, por exemplo, mas Portugal tem na sua floresta um conjunto de problemas e questões a resolver e todos estes instrumentos podem ser úteis. Seria um contributo para que a nossa floresta passasse a ser mais bem gerida, mais diversa, mais sustentável.

Tem dados sobre a área florestal substituída por painéis solares?
Não, mas há objetivos no Plano Nacional de Energia e Clima de uns milhares de hectares de área de fotovoltaico até 2030 e claro que nem todos caem em áreas de floresta, mas alguns sim - aquele do Cercal foi muito falado, que vai levar ao arranque de 900ha. Não há razão para isso... Ou se calhar há, porque aquela central faz muita falta, mas então quem faz esse investimento que invista ao lado a instalar 900ha de floresta do mesmo tipo.

A Celpa tem desempenhado um papel na recuperação de Pedrógão depois dos fogos. Passado cinco anos, que resultados há?
Tentando retirar daqui o enorme drama humano, todos recordamos o grau de destruição na área florestal, em dimensão e severidade. O que a Celpa fez, logo a partir de 2018, foi, através das empresas associadas e depois diretamente a associação, ir para a zona procurar implementar soluções. Não à escala de todo o incêndio, não temos essa capacidade financeira, mas com projetos que pudessem exemplificar o tipo de intervenção. E conseguimos fazê-lo na zona de Pedrógão, numa área de 130ha - não é muito, mas é um exemplo, porque pertencem a cerca de 50 proprietários que nem conheciam os limites das suas propriedades. Fomos para o terreno com apoio da câmara e da associação de promotores florestais e identificámo-los, marcámos extremas, fizemos o projeto em conjunto, implementámos e cada proprietário contribuiu com uma pequena parte no serviço de plantação. A Celpa suportou o custo de tudo o resto. E temos hoje ali uma zona de floresta diversa em espécies, onde o eucalipto tem um papel importante enquanto fonte de rendimento que permite manter as restantes áreas de floresta. O que pretendemos é que o Estado pegue no exemplo. A Celpa gastou dinheiro com isto, mas há dinheiro das políticas públicas, do PRR, dos fundos europeus para se substituir a nós do ponto de vista financeiro e com uma lição: as coisas podem ser feitas no terreno desde que haja uma entidade que dinamize os acontecimentos.

É preciso que alguém puxe...
Um proprietário que tem meio hectare ou menos não vai candidatar-se a uma medida que está aberta em Lisboa, via internet, para o reflorestar. Portanto, face a uma desgraça como aquela, vira as costas, abandona - e é a atitude mais racional que pode ter. O que é preciso, portanto, é encontrar uma entidade com a qual o Estado estabeleça um contrato-programa (e há muitas, não tem de ser a Celpa), objetivos e que os dinheiros das políticas públicas sirvam para reformar estas áreas. Só em 2017, arderam cerca de 500 mil hectares, nos fogos de junho e outubro. A Celpa, em diversos programas desde 2018, interveio em 50 mil hectares de pequenos proprietários. Se tivesse havido mais dez celpas estimuladas a isso, tínhamos intervindo em 500 mil hectares.

Com incentivos, faz-se.
Não há razão para que as coisas não se façam. Temos vários projetos além de Pedrógão, por exemplo um em Mortágua em que interviemos numa área de 600ha sem replantação, recuperando o que existia para o devolver a uma floresta saudável e diversa, outro em que apoiámos os produtores nas limpezas, na seleção de varas, no corte de mato, fornecendo adubo para aumentar o potencial produtivo... Há soluções, o que precisamos é que as políticas públicas se virem para este tipo de intervenções, que são ingratas - andar de porta em porta, nos cafés, a procurar os proprietários, com o apoio inestimável das autarquias e das juntas, dinamizando organizações de produtores florestais, que estão muito abandonadas e descapitalizadas e que são insubstituíveis. Elas têm a lista dos proprietários e às vezes os proprietários nem sabem que o são, e são essenciais a este trabalho. Com o nosso clima e as alterações que atravessamos, precisamos deste tipo de intervenção mais do que nunca, porque a cada ano que passa o clima vai ficando tendencialmente mais agreste, com verões mais secos, temperatura mais elevada, e a floresta tem de ser mais cuidada do que nunca.

Há risco de novos incêndios como os de Pedrógão?
Do ponto de vista da tragédia humana, quero muito acreditar que o que se tem feito para proteger as pessoas e as suas casas é o que era preciso. Portanto, mesmo que as condições de clima se repitam e no terreno as coisas corram mal, quero crer que do ponto de vista da defesa da vida humana tudo está melhor.

E do ponto de vista da floresta?
Falo pela nossa experiência em Pedrógão e a associação das vítimas que o diga, não houve nada a acontecer naquele território a não ser o que a Celpa e as indústrias nossas associadas fizeram nos seus povoamentos, nas suas áreas florestais. De resto, nada aconteceu. O que isso significa, numa área que ardeu e onde nada acontece durante cinco anos senão a natureza... O que a natureza faz é com grande vigor aparecer vegetação alguma dela invasora, como as acácias, com capacidade de rebentação impressionante, mato a crescer de forma muito significativa e muita carga combustível. Portanto se as condições de clima se repetirem, o que está no terreno não é melhor do que o que estava em 2017. Mas temos é de olhar para a frente. O que a Celpa propõe sempre é que atuemos sobre a floresta.

Não tendo sido feito nada, isso foi desinvestimento político?
Sou pouco famoso em encontrar culpados, sei que as coisas não são fáceis. A floresta em Portugal é privada, por isso pode sempre dizer-se que a culpa é do proprietário, que não fez. E isto é dito muitas vezes, esquecendo de que proprietário estamos a falar - e não resolve nada. Não tenho dúvidas que o ministro do Ambiente e o secretário de Estado das Florestas têm enorme preocupação com isto e estou confiante que o que se pretende fazer daqui para a frente em matéria florestal é o que é preciso. O desafio é transformar a floresta a partir de agora.

Portugal tem, por decisão política, intenção de diminuir a área de eucalipto. Isso tem desviado decisões de investimento do setor em Portugal?
Eu não sou investidor na indústria, mas se fosse pensava pelo menos duas vezes. Temos um exemplo conhecido de uma decisão de investimento de uma associada da Celpa [Altri] que foi para a Galiza... Estamos a falar da única indústria além da cortiça que é nacional. As empresas de que falamos, apesar de cotadas em bolsa, são dominadas por capital nacional - é uma raridade na nossa economia. E são indústrias que são benchmark internacional em diversas dimensões: o papel feito em Portugal com fibra do eucalipto tem um prémio de preço no mercado pela sua qualidade. O futuro deste setor é extraordinariamente interessante porque há utilizações cada vez mais diversas deste polímero natural para substituir a maioria das matérias-primas de origem fóssil nos mais diversos tipos de utilização... Não é certamente a proibição de plantar eucaliptos que resolve o problema da floresta, não resolve. A proibição tem o mesmo efeito dos incêndios, as pessoas viram costas. Se me pergunta se esta proibição afasta intenções de investimento ou de extensão de capacidade, diria que sim, é uma possibilidade. E temos o exemplo desse investimento feito na Galiza que eu, como cidadão, não encontro razão para não estar em Portugal.

E a taxa sobre as celuloses também não ajuda... Acredita que pode avançar?
Não acredito. A taxa está prevista como esteve nos últimos dois ou três OE, e em nenhum foi regulamentada, nunca aconteceu. E estou convencidíssimo que não é agora que avança. Acho que estava nos OE por opção política da solução de governo que existia até janeiro e não acredito que avance. Acho que era uma opção claramente ideológica. Não vejo em que é que criar um novo custo para a floresta, onde está montado todo o edifício de que falamos, vem ajudar a resolver o que quer que seja. Espero que não seja regulamentada.

O OE2022 prevê também a transferência de receitas próprias do Fundo Ambiental para o Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas, até 4,5 milhões de euros, para aplicação no PDR 2020 em projetos agrícolas e florestais que contribuam para o sequestro de carbono e redução de emissões de gases com efeito de estufa. As plantações de eucalipto deveriam ser elegíveis?
A espécie com taxa mais elevada de sequestro de carbono em Portugal é o eucalipto, sequestra mais ou menos 11,5 toneladas de CO2 por hectare e ano.

E vai ser enquadrado nessas medidas?
Isso só o senhor ministro poderá dizer. Mas das outras espécies, a segunda que sequestra mais carbono está a menos de metade dessas 11,5 toneladas. Tendo em conta os objetivos de neutralidade carbónica para 2050, o eucalipto tem de ser visto como um instrumento, é a forma mais rápida de extrair CO2 da atmosfera. Claro que temos de pensar o que fazer a esse CO2 que se armazena na madeira. Mas mais uma vez, os produtos derivados da madeira têm uma vida relativamente longa. Nomeadamente o papel, que é reciclável várias vezes: uma fibra de celulose pode aguentar sete a dez ciclos, o que significa que o carbono se mantém armazenado durante muito tempo. Portanto tudo isto tem de ser pensado além da espuma da ideologia e dos mitos que foram criados em torno de uma árvore que não sendo perfeita - nenhuma o é - é uma árvore com qualidades extraordinárias e que não devíamos desperdiçar.

Falemos de cadastro florestal. Já se passaram tantos anos e não há forma de sair da gaveta o regime jurídico, porquê?
Prefiro chamar-lhe cadastro rural, se quiser... As coisas têm avançado devagar, há uns projetos experimentais, o balcão único tem evoluído, mas não olho para a falta de cadastro como obstáculo. É um dado do problema. Não há cadastro: então, em vez de lamentarmos a ausência, vamos à procura das pessoas. Os exemplos de intervenção que temos mostram que é possível e o Estado até tem instrumentos que permitem ultrapassar esse problema. E a experiencia que temos é que assim que se começa a mexer na zona as pessoas começam a aparecer. Ideal era termos um cadastro feito, com telefones, emails, moradas... não havendo, avancemos e encontraremos soluções no terreno.

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