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O futuro é elétrico. Mas ainda falta percorrer muitos quilómetros

D.R.
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Marcas continuam a apostar na eletrificação das gamas, mas poucas abandonam motores a gasolina e a diesel a curto prazo.

Os ventos de mudança têm soprado no mercado automóvel nacional, mas ainda ninguém arrisca um palpite sobre a direção que estes tomarão em 2019. Sabe-se que o mundo automóvel está perante uma mudança de paradigma, desde a eletrificação à partilha de veículos, conectividade, autonomização e alteração do sentido de propriedade. Mas será isso benéfico para as marcas? “Por si só, a mudança de paradigma não é boa nem má. É o resultado de uma evolução na sociedade e também uma consequência daquilo que a atual tecnologia permite. Se formos capazes de antecipar estas tendências, que não deixarão de ter impacto na forma como hoje estamos presentes no mercado, adaptando a nossa oferta de produtos e serviços às necessidades dos clientes do futuro, teremos certamente algumas vantagens”, defende Ricardo Oliveira, responsável de comunicação da Renault.

Também a filosofia do Groupe PSA, nos últimos três anos, vai nesse sentido. “Com o plano estratégico Push to Pass, apresentado pelo presidente Carlos Tavares, o grupo adotou uma nova dimensão, além de um construtor automóvel de referência, e está a trabalhar para tornar-se no fornecedor de serviços de mobilidade preferido dos nossos clientes atuais e futuros. Enquanto fornecedor de soluções de mobilidade, o grupo tem a enorme oportunidade que nos dá a transformação do mundo à nossa volta, com o reconhecimento de que as necessidades dos clientes vão muito além da posse do carro”, sustenta.

“Entre 2019 e 2021, teremos sete modelos elétricos e oito plug-in a gasolina nas gamas Peugeot, Citroën, DS e Opel; em 2020, 50% das gamas estarão eletrificadas; em 2025, já serão 100%”, diz Jorge Magalhães, do Groupe PSA.

Além disso, para Jorge Magalhães, diretor de comunicação do Groupe PSA (Citroën, Peugeot, DS e Opel), a mudança das expectativas dos clientes e as novas tendências de utilização dos automóveis já são uma realidade. “Estamos em vias de passar da noção de propriedade para a da experiência do automóvel, com a emergência de novos tipos de utilização colaborativa, como o carsharing ou a auto partilha. E as tecnologias de conectividade e de autonomização dos automóveis são a coluna vertebral desta transformação e desse paradigma. Para um conjunto cada vez mais amplo de clientes, o verdadeiro valor de um automóvel irá medir-se pelas utilizações e pela experiência de vida que ele pode oferecer aos seus utilizadores. Mesmo com os avanços nos protótipos de condução autónoma – uma área em que o Groupe PSA é protagonista e na qual está a trabalhar com uma enorme dose de segurança – as marcas do nosso grupo nunca irão deixar de propor aos seus clientes produtos que lhes proporcionem prazer”, adianta. E acrescenta: “É notório que hoje a expectativa de mobilidade por parte dos clientes é mais ampla do que a viatura ou o dispositivo que se utiliza. Foi exatamente nessa perspetiva que o Groupe PSA criou, em 2016, a sua nova marca Free2Move para responder a estas novas realidades, seja numa perspetiva de cliente particular, seja de empresas. Um exemplo disso foi o lançamento, em 2018, do serviço Emov na cidade de Lisboa. É o primeiro serviço de carsharing 100% elétrico da cidade e é composto por uma frota inicial de 150 veículos elétricos Citroën C-Zero, de quatro lugares, que estão disponíveis pela cidade em regime de free floating.”

Testes: o novo desafio

Depois de um ano relativamente estável, as marcas preparam-se para enfrentar vários desafios, que ganharão contornos nítidos no decorrer do novo ano: caso do WLTP (Procedimento Mundial Harmonizado de Teste de Veículos), protocolo que entrou em vigor em setembro do ano passado, mas cujos reflexos nas vendas serão mais expressivos em 2019. Ricardo Oliveira, diretor de comunicação da Renault, acredita que no novo ano o mercado manterá a estabilidade. “Não temos, neste momento, todos os elementos que permitam concluir o real impacto da aplicação da norma WLTP (com o consequente aumento das emissões de CO2 declaradas e o respetivo aumento fiscal), mas pensamos que existem condições para o mercado se manter ao nível de 2018”, adianta. “As ambições da Renault são as mesmas de sempre: manter a sua representatividade no mercado, quer com a marca Renault (que é líder) quer com a marca Dacia”, acrescenta.

De modo a suportar as suas ambições, a Renault prepara um ano pleno de novidades. “A alteração da classificação das classes de portagens vai permitir-nos lançar, já em janeiro, uma gama completa do Kadjar. Posteriormente, lançaremos também o Scénic, que, até agora, não era comercializado em Portugal. Durante o ano de 2019, serão comercializadas as novas gerações de Twingo, Espace e Koleos”, revela. Mas o lançamento mais importante do ano para a marca “será o da quinta geração do Renault Clio, que não só é o modelo mais vendido da nossa gama como também o mais vendido no mercado português”, sublinha.

Consumos e emissões

Jorge Magalhães também é da opinião de que o mercado não sofrerá grandes oscilações em 2019. Mas deixa um aviso. “O setor automóvel vive um momento de transformação, nomeadamente no que se refere à componente das emissões e do novo ciclo WLTP, pelo que poderá haver imponderáveis que, eventualmente, venham a afetar o mercado.” Por outro lado, 2019 será “marcante”, na medida em que deverá ser o “primeiro ano da transformação no setor automóvel por via da componente ambiental e das emissões, já que entra em vigor a nova norma de homologação de emissões WLTP”, lembra. Nessa matéria, o Groupe PSA e as suas marcas “estão extraordinariamente bem preparadas”, frisa Jorge Magalhães. “Notou-se, já este ano, uma elevada perturbação noutros atores do mercado, mas o grupo preparou-se muito bem, soube antecipar-se às exigências da nova norma Euro 6.2 e atualizou a gama de motores meses antes da entrada em vigor do ciclo WLTP, muitos dos quais já respeitam a norma Euro 6d-TEMP (medições realizadas na via pública, em condições reais), que será aplicável a partir de setembro de 2019”, explica. “Demonstrámos o compromisso com o meio ambiente, não tivemos o impacto da nova situação na atividade comercial das nossas marcas, as nossas fábricas não tiveram paragens e com o avanço tecnológico das nossas marcas, os impactos para os clientes foram e são positivos”, acrescenta.

Os lançamentos previstos pelo Groupe PSA para o próximo ano são prova da vontade de evoluir. “Vamos começar a comercializar as primeiras gamas com as novas gerações de veículos plug-in hybrid e de veículos 100% elétricos. Desde logo, nas marcas DS e Peugeot; de seguida, na Opel e Citroën. Acreditamos que a nova plataforma modular multitecnológica que o DS 3 Crossback vai estrear dar-nos-á uma importante vantagem competitiva. Ao servir para produzir modelos com motores de combustão interna, híbridos plug-in ou veículos elétricos vai dar-nos uma grande agilidade para responder à procura, cada vez mais evolutiva, do mercado”, adianta.

Além dos modelos assentes em novas tecnologias energéticas, destaque para a chegada de vários outros modelos importantes, “como é o caso da consolidação da Peugeot no segmento D com o novo 508 SW ou a chegada, já no mês de janeiro de 2019, do C5 Aircross, o verdadeiro SUV da Citroën e um modelo com um forte potencial para afirmar a marca no mercado das empresas”, avança o diretor de comunicação do Groupe PSA.

“Para a Renault, a eletrificação é uma decisão estratégica. Aliás, a aliança Renault-Nissan foi a primeira a lançar-se no desenvolvimento e na comercialização de automóveis elétricos, uma iniciativa que foi vista, na altura, com ceticismo por uma boa parte do setor”, refere Ricardo Oliveira, da Renault.

Eletrificação é estratégica

O caminho da eletrificação das gamas é imparável. Mas será uma boa via para as grandes marcas? “Para a Renault, a eletrificação é uma decisão estratégica. Aliás, a aliança Renault-Nissan foi a primeira a lançar-se no desenvolvimento e na comercialização de automóveis elétricos, uma iniciativa que foi vista, na altura, com ceticismo por uma boa parte do setor”, refere o diretor de comunicação da Renault. “Para nós, a eletrificação não é algo que tenhamos de fazer por necessidade. É uma aposta absolutamente estratégica e que foi materializada, em 2011, com a comercialização dos primeiros modelos 100% elétricos”, sublinha Ricardo Oliveira. E vai mais longe: “A Renault foi a primeira marca a comercializar uma gama completa de automóveis elétricos para utilização particular e/ou profissional. E continuamos a ampliar esta gama, tendo introduzido recentemente uma versão elétrica do furgão Master destinada à distribuição em meio urbano e, sobretudo, no centro das grandes cidades. Além dos automóveis 100% elétricos, anunciámos já os planos para a aceleração da eletrificação da gama com a introdução de modelos híbridos e híbridos recarregáveis”, refere o responsável da Renault.

Jorge Magalhães, do Groupe PSA, por sua vez, defende que as normas impostas pelos reguladores são para respeitar. “O Groupe PSA está comprometido com a transição energética e com a eletrificação de todas as gamas das suas marcas, pelo que iniciaremos, em 2019, a comercialização das novas gerações de veículos elétricos e de plug-in a gasolina. Entre 2019 e 2021, teremos sete modelos elétricos e oito plug-in a gasolina nas gamas Peugeot, Citroën, DS e Opel; em 2020, 50% das gamas estarão eletrificadas; em 2025 serão 100%”, afirma.

Frotas dão 70% das vendas

As frotas têm ganho um espaço sem precedentes dentro do mercado automóvel nacional e, apesar de os números não serem consensuais, estima-se que sejam responsáveis por 70% das vendas em 2018. E a tendência será para aumentar.

Para Ricardo Oliveira, da Renault, “apesar de não existirem estatísticas oficiais sobre o peso de cada canal de venda, é claro que as frotas ( e as empresas de rent-a-car) representam uma parte significativa do mercado automóvel português.

A Renault, como marca líder, tem de estar presente em todos os canais de venda e, em consequência, a sua repartição de vendas pelos diversos canais tem também uma componente de frotas significativa”, revela. “Tal como para o mercado, pensamos que existirá no futuro alguma tendência de estabilização do peso destes canais, mesmo que as perspetivas positivas em relação ao turismo deixem antever que o peso dos rent-a-car – muito significativo no mercado português – ainda possa ter alguma margem de crescimento”, acrescenta.

Já para o Groupe PSA, “as frotas representam, atualmente, cerca de 15% das vendas em Portugal e a tendência é para crescer, dado que a Citroën está a apresentar uma gama cada vez mais adaptada às necessidades do mercado B2B (business to business)”, refere Jorge Magalhães. “Apostamos na consolidação da Peugeot, neste mercado em que a marca DS começa a dar os primeiros passos, e que a Opel é uma marca também forte nesta área e com produtos adaptados aos clientes profissionais”, acrescenta.

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